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“Foi o maior erro que cometi”

A confissão tardia, pouco antes da morte, não absolve Jânio. Com a desistência abrupta, a democracia brasileira começou a agonizar em 25 de agosto de 1961

Por Da Redação Atualizado em 10 dez 2018, 10h35 - Publicado em 20 ago 2011, 09h44

Irritado com o discurso em que Carlos Lacerda o acusara de tramar um “golpe de gabinete”, Jânio Quadros atravessou sem dormir a madrugada de 25 de agosto. E desceu para o café da manhã com Eloá, ao lado da piscina do Palácio da Alvorada, resolvido a tirar o sono do Brasil. Ao erguer-se da mesa, sobressaltou a primeira-dama com outra frase dramática: “A conspiração está em marcha, mas vergar, eu não vergo!”. Chegou ao Planalto às 6 horas, convocou os chefes da Casa Civil e da Casa Militar para uma reunião de emergência e, acariciando o bigode de dono de botequim, surpreendeu-os com a manchete da próxima edição de todos os jornais: “Comunico aos senhores que renuncio, hoje, à Presidência da República”.

Foi para o desfile do Dia do Soldado, convocou os três ministros militares para um encontro no Planalto e deixou-os atônitos com a notícia. Replicou aos apelos para que mudasse de ideia com outro palavrório solene, encerrado com a identificação do culpado: “Ajustem o novo Brasil às exigências do Brasil novo. Com esse Congresso, eu não posso governar”. Ordenou ao ministro da Justiça, Oscar Pedroso Horta, que entregasse a carta redigida seis dias antes ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade. Na hora do almoço, embarcou rumo à Base Aérea de Cumbica para a demorada escala que precedeu a partida para a Europa a bordo de um navio cargueiro. No dia 26, o país mergulhou na crise provocada pelo veto militar à posse do vice João Goulart.

Notícia urgente

Boletim extraordinário do Repórter Esso, o programa de jornalismo mais famoso da época, comunica a renúncia de Jânio

áudio

“Foi o maior erro que cometi”, confessou ao neto Jânio John meses antes da morte. “Com a renúncia, pedi um voto de confiança à minha permanência no poder. Imaginei que o povo iria às ruas, seguido dos militares, e que seria chamado de volta. Deu tudo errado.” O grande intuitivo naufragou ao peso de equívocos bisonhos. Auro de Moura Andrade informou que a renúncia é um ato de vontade unilateral e empossou o presidente da Câmara. Preocupados com Jango, os militares esqueceram Jânio. E o povo só poderia ser mobilizado por um partido janista que o líder jamais permitiu que existisse.

Três anos mais tarde, o golpe que derrubou Goulart e varreu a liberdade confirmou que a democracia, ainda em sua infância, começou a agonizar em 25 de agosto de 1961.

O relato da jornada que mudou o Brasil

Momento a momento do 25 de agosto de 1961

5h Jânio telefonou para Quintanilha Ribeiro, chefe da Casa Civil. As ligações foram constantes desde que ouvira pelo rádio a denúncia de Carlos Lacerda de que ele estaria articulando um golpe de estado. O presidente disse a Quintanilha que havia tomado uma decisão. Pediu que convocasse o general Pedro Geraldo, chefe da Casa Militar, e que ambos o encontrassem às 6 horas, no Planalto. 5h20 Tomou o café da manhã ao lado de Eloá enquanto lia o Correio Braziliense. Conversou por telefone com Oscar Pedroso Horta, ministro da Justiça. Ao desligar, dobrou o jornal, levantou-se e proferiu uma frase dramática: “A conspiração está em marcha, mas vergar, eu não vergo!”. 6h No Palácio do Planalto, comunicou a Quintanilha Ribeiro e a Pedro Geraldo que renunciaria à Presidência da República. Em seguida, ligou para Eloá e lhe pediu que preparasse as malas, porque deixariam Brasília naquela manhã. 8h Participou da cerimônia do Dia do Soldado

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O ÚLTIMO ATO OFICIAL

Cinejornal mostra Jânio em seu último ato como presidente

https://www.youtube.com/watch?v=jvBr3H3qFIU 10h Retornou ao Palácio do Planalto e convocou uma reunião com os assessores civis e os ministros militares. Comunicou a renúncia e entregou a carta destinada ao Congresso. 10h30 Deixou o Palácio do Planalto e encontrou Eloá no Palácio da Alvorada. A primeira-dama já estava na porta, com as malas na mão. 11h Embarcou para São Paulo. Na escada do avião, testemunhas o ouviram dizer: “Cidade amaldiçoada, espero nunca mais vê-la”. 13h A renúncia foi noticiada pelo Repórter Esso. 13h30 Chegou à Base Aérea de Cumbica, em São Paulo, depois de passar trinta minutos estacionado na pista de Congonhas para o reabastecimento do avião. Ficou 22 horas na residência do comandante da base, coronel Roberto Faria Lima. 14h Uma multidão saiu às ruas de São Paulo em busca de mais notícias sobre a renúncia. 15h O deputado Dirceu Cardoso leu a carta de renúncia na Câmara. 15h15 O senador Auro de Moura Andrade recebeu o ministro Oscar Pedroso Horta em seu gabinete e tomou conhecimento da decisão de Jânio. 15h40 Moura Andrade interrompeu o orador na tribuna, o senador Nogueira da Gama. Os trabalhos foram suspensos. Uma sessão extraordinária foi convocada para dali a uma hora. 16h55 Moura Andrade abriu a sessão extraordinária do Congresso. O presidente do Senado leu os documentos da renúncia e convidou os presentes a comparecerem à posse do presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, às 17 horas, no Palácio do Planalto. Participaram da sessão 46 senadores e 230 deputados.

LEITURAS NO CONGRESSO

O presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, comunicou a renúncia e fez a leitura de um trecho da carta com as explicações de Jânio

Comunicado da renúncia

áudio

Leitura de carta

áudio 17h05 Moura Andrade encerrou a sessão extraordinária. 17h15 Ranieri Mazzilli foi empossado presidente interino. 17h45 Sentado ao lado da mulher no Aeroporto de Cumbica, Jânio murmurava, insistentemente, a mesma frase: “E o povo, onde está o povo que não se levanta?”. 18h Tropas ocuparam a Esplanada. Para garantir a posse de Jango, começou a Campanha da Legalidade, liderada pelo governador gaúcho Leonel Brizola.

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