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E agora, Bolsonaro?

O candidato do PSL larga com 16 pontos de vantagem sobre Haddad, mas os percalços que tem pela frente não são poucos nem pequenos

Por Edoardo Ghirotto - 12 Oct 2018, 07h00

Jair Bolsonaro não ganhou só o primeiro turno das eleições em 7 de outubro. O ex-obs­curo deputado, sem dinheiro e sem partido forte, conquistou um recorde de 49 milhões de votos (o anterior era da ex-­presidente Dilma Rousseff, com 47,5 milhões), quebrou uma polarização eleitoral de 24 anos entre PT e PSDB e transformou sua diminuta legenda, o PSL, na segunda maior da Câmara dos Deputados — de oito cadeiras, saltou para 52 e deve crescer à sombra do oportunismo dos que não aguentam ficar longe do poder. Não há dúvida de que Bolsonaro é um fenômeno político de uma magnitude que o Brasil não via desde Lula. O que ele fará com a notoriedade e a confiança que mereceu até agora de quase 50 milhões de brasileiros é que são elas.

Os percalços à frente não são poucos nem pequenos. Começam pelas discordâncias cada vez mais públicas com seu apontado ministro da Economia, Paulo Guedes, e seguem com as reiteradas mostras de amadorismo de sua equipe. Pouco antes do primeiro turno, uma briga em um grupo de WhatsApp entre o general Augusto Heleno, confirmado como seu ministro da Defesa, e o advogado Gustavo Bebianno, fiel escudeiro do candidato e seu hipotético ministro da Justiça, chamou atenção pelo nível de decibéis que alcançou.

Desconfiado de que o general passara informações estratégicas da campanha à imprensa, Bebianno disparou mensagens raivosas pelo aplicativo e, em telefonemas para integrantes do grupo, acusou Heleno de “traidor”. O grupo em que a desavença se deu chama-se “Selva” (referência a um tradicional cumprimento militar) e foi criado enquanto Bolsonaro estava internado. O deputado, portanto, não acompanhou mais essa briga entre assessores. Segundo um colaborador, ele às vezes dá mostras de se sentir como “barata tonta” em meio à cacofonia e às rixas.

Foi, contudo, do próprio deputado que partiram desta vez os primeiros tropeços da nova fase da campanha. Não por coincidência, eles novamente tiveram origem em discussões sobre economia — matéria tão familiar para Bolsonaro quanto a natureza intrínseca das partículas subatômicas. Diante de uma movimentação do governo de Michel Temer no intento de votar uma fatia da reforma da Previdência ainda em 2018, o candidato do PSL se antecipou. “A reforma do Temer dificilmente será aprovada”, afirmou, sugerindo que, se ganhar, seu governo apresentará um projeto mais palatável ao Congresso. “Não adianta uma proposta que, aos olhos apenas de economistas e alguns políticos, é maravilhosa.” O mercado estrilou. A bolsa caiu, o dólar subiu. O mercado também torceu o nariz quando Bolsonaro disse que não apoiaria a privatização da Eletrobras. Novamente, a reação foi imediata, com queda nas ações das estatais e desvalorização do real.

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Anti-Bolsonaro - Protesto de Waters: boa parte da plateia vaiou //Reprodução

A afirmação fez a equipe econômica de Paulo Guedes engolir em seco. Ela prepara um plano radical de privatizações da ordem de 1 trilhão de reais, contando com a venda integral da central geradora de energia no primeiro semestre de 2019 (veja a reportagem ). As falas de Bolsonaro não refletem ideias novas. Desde que passou a flertar com Guedes, deixou claras suas restrições à reforma da Previdência e disse que centrais geradoras de energia devem pertencer ao Estado. “Setor estratégico não se privatiza. Nos Estados Unidos, é o Exército que cuida das hidrelétricas”, disse Bolsonaro em entrevista a VEJA há um ano. A reação tardia do mercado às suas propostas mostra que só agora o risco econômico de Bolsonaro começa a ser precificado.

À medida que as divergências econômicas entre ele e Guedes ficam mais visíveis, Bolsonaro tem sido aconselhado a só tratar publicamente de temas gerais da campanha. Fez silêncio, por exemplo, quando o jornal Folha de S.Paulo noticiou que o Ministério Público Federal havia aberto uma investigação sobre Guedes para apurar suspeita de fraude na gestão de fundos de pensão. Ele é suspeito de ter captado, junto aos fundos de pensão, cerca de 400 milhões de reais ao longo de quatro anos para investir em um fundo de sua gestora. Contudo, sua empresa teria recebido logo de cara um porcentual sobre os aportes futuros dos fundos de pensão, e não sobre o dinheiro que havia sido investido. A operação levantou a suspeita de fraude. Guedes também teria emitido e negociado títulos sem lastro ou garantias ao investir recursos de sete fundos, entre eles a Previ, o Petros, a Funcef, o Postalis e o BNDESPar. Segundo suspeita do MP, ele teria feito as transações junto com executivos ligados ao PT e ao MDB, partidos que loteavam os fundos. Em nota, Guedes negou malfeitos e afirmou que a investigação causa perplexidade e tem apenas o objetivo de “confundir o eleitor”.

Núcleo belicoso - Se Bolsonaro vencer, o liberal Paulo Guedes (à esq.) assumirá a economia, mas já tem discordâncias públicas com o chefe sobre privatizações e a reforma da Previdência. Gustavo Bebianno (no centro), cotado para a Justiça, e o general Augusto Heleno vivem às turras no WhatsApp da campanha — o primeiro também trombou com os filhos de Bolsonaro. O último bate-boca foi sobre a participação de Bolsonaro nos debates: Bebianno não queria o candidato sob os holofotes Andre Valentim/Marcos Ramos/Agência o Globo/Wilton Junior/Estadão Conteúdo

Bolsonaro também evitou até onde pôde falar das agressões perpetradas por seus apoiadores desde o dia 7 — tendo a mais grave delas culminado no assassinato de um mestre de capoeira na Bahia (leia a Carta ao Leitor, na pág. 8, e a reportagem na pág. 66). Entre as manifestações mais ruidosas, ganhou destaque o show em São Paulo do guitarrista Roger Waters, em que uma manifestação do artista contra Bolsonaro fez a plateia explodir em vaias, xingar-se mutuamente e a Waters. Só na noite de quarta-feira Bolsonaro decidiu falar sobre a violência de seus apoiadores com um pouco mais de ênfase. Mas, em vez de um pronunciamento condenando as agressões, preferiu o estilo Donald Trump e recorreu ao Twitter: “Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim”. É pouco para um político que está às portas da Presidência e precisa, para o bem coletivo, encontrar um meio de pacificar o país. Sua ausência nos debates — os primeiros já foram cancelados por ordem médica, o que caiu como uma luva para uma parte da equipe que não queria o candidato exposto à discussão de ideias — não ajuda em nada para esclarecer dúvidas e serenar os ânimos. O deputado tem gravado vídeos que reaproveitam as mensagens da versão bolsonarista da “Carta aos brasileiros”, escrita pelo general Augusto Heleno. Com pegada “motivacional”, eles pregam a “união do país” mas exploram o sentimento antipetista. Bolsonaro também fará vídeos para as mulheres e os nordestinos.

Se, em 28 de outubro, sair vitorioso, como apontam as pesquisas — o último Datafolha deu ao candidato do PSL 16 pontos de vantagem sobre o petista Fernando Haddad nos votos válidos —, Bolsonaro, o primeiro líder de direita com aspirações presidenciais a surgir no Brasil desde Carlos Lacerda, terá o desafio de gerir um país politicamente fragmentado em proporções inéditas. A Câmara dos Deputados contará com representantes de trinta siglas e o Senado terá políticos de vinte (leia a reportagem).

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A fragmentação é particularmente complicada para um eventual governo Bolsonaro, dado que o deputado mantém o discurso de que não vai formar maioria legislativa cedendo ao fisiologismo de sempre. “Um dos testes de Bolsonaro será demonstrar capacidade de construir uma base parlamentar a partir do fortalecimento do PSL. A alternativa, caso não consiga, seria governar com bancadas”, afirma o historiador José Murilo de Carvalho. Ocorre que as três frentes parlamentares próximas de Bolsonaro — os ruralistas, os armamentistas e os religiosos, conhecidos como a bancada BBB, em referência a “boi, bala e Bíblia” — perderam aproximadamente metade de seus membros.

O futuro ministro da Casa Civil, o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-­RS), aposta que Bolsonaro poderá iniciar o ano com mais de 300 parlamentares na base aliada — o que seria um feito para um político que entrou na eleição presidencial com apenas um partido nanico como aliado. Aconteça o que acontecer em 28 de outubro, Bolsonaro já se consagrou como um fenômeno político de dimensões superlativas. Agora, mais urgente do que saber o que foi responsável por sua criação é descobrir no que ela vai dar.

Com reportagem de Roberta Paduan


O zero três

Ex-“playsson” - Eduardo Bolsonaro: divulgando montagem nas redes Nelson Almeida/AFP

Dos 39 projetos de lei que Eduardo Bolsonaro, de 34 anos, apresentou desde que se tornou deputado federal pela primeira vez, em 2015, dez têm relação com o uso de armas. O mais recente, que aguarda análise da mesa diretora da Câmara, propõe que cidadãos que tenham porte de arma possam entrar com ela em aviões. Outro, já aprovado na Comissão de Segurança Pública, prevê que o governo empreste uma arma de fogo a quem tiver a sua apreendida em razão, por exemplo, de uma investigação por disparo em legítima defesa.

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A arma que Eduardo carrega na cintura é uma Glock 17, de 9 milímetros. Por ser ex-escrivão da Polícia Federal, ele tem permissão para andar com a pistola. Entre 2010 e 2014, o filho de Jair Bolsonaro, e agora o deputado federal mais votado do Brasil (obteve 1,8 milhão de votos e já pensa em disputar a presidência da Câmara), atuou em Rondônia, na fronteira com a Bolívia, e no Aeroporto de Cumbica, sempre no controle de entrada de drogas.

Na juventude, com seu 1,89 metro, chegou a trabalhar como modelo da agência Elite. Mas gostava mesmo era de pegar onda em Ipanema e na Joatinga. Ele e o irmão Flávio eram conhecidos no circuito do surfe como “playssons”, gíria dos anos 2000 para designar meninos de classe média que não querem saber de namorar firme, gostam de ir para a “night” e exibir roupas de marca. Filho do primeiro casamento de Bolsonaro, assim como Flávio, o mais velho, e Carlos, o do meio, Eduardo foi vital na primeira fase da campanha do pai. Participou da coordenação ao lado do deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), com quem sempre teve boa relação, e do advogado Gustavo Bebianno, com quem vivia às turras mas passou a se dar melhor depois do atentado ao candidato do PSL.

Além de cuidar dos contatos com aliados e colaboradores, Eduardo, ou Zero Três, como é chamado por Bolsonaro, desempenhou o papel de “animador” nas redes sociais. Invariavelmente com um celular na mão, fazia a “curadoria” de memes e vídeos produzidos em escala industrial pelos entusiastas do pai, apelidados de “bolsominions”. O que passava pelo seu crivo era disparado para os quase 1 000 grupos de WhatsApp que ele integra, que nem sempre primam pelo compromisso com a verdade, como demonstrou o ruidoso filme que ele espalhou no dia da eleição, em que aparece uma suposta fraude na urna que beneficiaria Fernando Haddad — e que mais tarde se revelou uma montagem.

Eduardo é solteiro, e seu caso mais rumoroso foi com a jornalista Patrícia Lelis, ex-líder do núcleo jovem do PSC, seu ex-partido. Em 2017, Patrícia registrou um boletim de ocorrência para relatar ameaças que teria recebido dele. Em abril, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou o deputado com base na gravação de conversas em que ele dizia a Patrícia que ela se “arrependeria por ter nascido”. A procuradora pediu ao ministro Luis Roberto Barroso a condenação do deputado, além do pagamento de 50 000 reais de indenização.

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Quem acredita em conversões radicais atribui a Eduardo ao menos parte da responsabilidade pela súbita mudança do pai, que era um estatista rematado e diz ter se tornado um liberal empenhado. Formado em direito, Eduardo fez pós-graduação no Instituto Mises, centro difusor do liberalismo em São Paulo. Por causa da campanha eleitoral, ainda não entregou seu trabalho de conclusão de curso, que já tem um título: “A privatização dos Correios”.

João Batista Jr.

Publicado em VEJA de 17 de outubro de 2018, edição nº 2604

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