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Dores do crescimento

O PSL deve se tornar a maior bancada da Câmara dos Deputados e, como tal, já começa a enfrentar os problemas típicos de um partido grande

Por Gabriel Castro - 23 nov 2018, 07h00

Outrora nanico, o PSL de Jair Bolsonaro elegeu a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados, mas se tornará o maior partido da Casa, em fevereiro, assim que receber em seus quadros políticos hoje filiados a legendas que não superaram a cláusula de barreira. Encorpado, o PSL quer do futuro governo um tratamento à altura de sua nova musculatura, o que significa o de sempre: mais cargos de primeiro escalão, tanto no Legislativo quanto no Executivo. Como até agora esse pedido não foi atendido, a sigla resolveu cobrar providências de Bolsonaro. Uma boa amostra do clima de conflagração pôde ser colhida na quarta-feira 21, quando os parlamentares eleitos pelo PSL se reuniram pela primeira vez depois da vitória nas eleições. O encontro, realizado a portas fechadas em um hotel de Brasília, sob ordens de que nada fosse filmado nem gravado, trans­for­mou-se em um festival de mimimis.

Os colegas de partido de Bolsonaro reclamam da falta de contato com a equipe de transição e da entrega de postos estratégicos da Esplanada dos Ministérios a outras agremiações. O alvo principal das críticas é o futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, acusado de privilegiar o seu partido, o DEM, e preterir o PSL no rateio dos cargos da máquina federal. Conforme VEJA revelou em sua edição passada, líderes do PSL fizeram circular até um documento apócrifo contra Lorenzoni, no qual ressaltam que ele admitiu ter recebido 100 000 reais, via caixa dois, da JBS. A mensagem é clara: quem havia embolsado dinheiro sujo não poderia jamais coordenar um governo que promete ser límpido e transparente.

O texto também acusava Lorenzoni de ter transformado a equipe de transição em um “balcão de negócios” para favorecer o DEM. Quando o dossiê circulou, o partido tinha dois ministros escalados: além de Lorenzoni, Tereza Cristina, nomeada para a pasta da Agricultura. Na semana passada, ganhou outro posto, com o deputado Luiz Henrique Mandetta na Saúde.

A escolha de Mandetta acirrou ainda mais os ânimos da turma do PSL durante a reunião. “Eu liguei 27 vezes para o Onyx e ele não me atendeu”, disse o deputado Major Olímpio, eleito senador por São Paulo, que reclama de não estar sendo ouvido pela equipe do futuro governo. A senadora eleita Soraya Thronicke, de Mato Grosso do Sul, queixou-se de ter descoberto pela imprensa que sua conterrânea Tereza Cristina seria titular da Agricultura. O deputado gaúcho Bibo Nunes disse ter ficado “p da vida” com o tratamento recebido e ameaçou deixar o partido. “Se não ajeitar, em dez dias vou revelar o que está acontecendo”, afirmou. “Eu não estou aqui para ser mais um.”

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O encontro foi articulado não pelo comando da sigla, mas pela deputada eleita Joice Hasselmann, que encarna à perfeição a cobiça dos novatos. Ela encomendou um “estudo” para sugerir a cada parlamentar qual função lhe é mais apropriada na Câmara. A de Joice, como ela mesma faz questão de espalhar, é ser líder do PSL. Não será exatamente fácil chegar lá, já que Eduar­do Bolsonaro, filho do presidente eleito e atual ocupante do posto, pretende continuar onde está.

Até aqui, Eduardo responde pelo meio de campo entre o PSL e o governo de transição. Perguntado por VEJA sobre a rinha para ocupar a liderança, o presidente eleito lavou as mãos: “Quem decide é o partido”. Bolsonaro, no entanto, vê com bons olhos a permanência de Eduardo no papel de líder: “É meu filho, sou suspeito para falar”. Um motivo de desgaste ainda maior, e que transcende as fronteiras do PSL, está relacionado com a disputa pela presidência da Câmara. Bolsonaro quer que o partido abra espaço para um quadro de outra sigla, de forma a reforçar a base aliada. Mas boa parte do PSL discorda, a começar por seu presidente, Luciano Bivar, deputado eleito em outubro. Bivar tem a esperança de se tornar, ele próprio, o comandante da Câmara.

Reeleito deputado pelo PSL, Delegado Waldir também pretende concorrer. Ele sabe que tem chances remotas de vencer, mas quer aproveitar a oportunidade de, como candidato, discursar durante dez minutos diante das câmeras e do plenário cheio no dia da votação. Em seus 28 anos de mandato como deputado, Bolsonaro lançou-se candidato avulso à presidência da Câmara quatro vezes, em todas elas contrariando o comando do partido ao qual estava filiado. Até por isso, ele não deve enquadrar os cobiçosos do PSL. O presidente eleito passou pela reunião da legenda na semana passada. Falou por menos de dez minutos, ouviu os mimimis e lembrou que, se ele fracassar, o PSL fracassa também. Passada a campanha, a tropa de Bolsonaro quer mais que palavras de incentivo.

 

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Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610

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