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Discurso vira ato de desagravo a Demóstenes

Flagrado em conversas com Carlinhos Cachoeira, senador diz que vazamento foi seletivo e ouve demonstrações de apoio de quase quarenta colegas

Por Gabriel Castro 6 mar 2012, 20h35

Depois de passar pelo constrangimento de admitir uma relação de amizade com Carlinhos Cachoeira, empresário preso na semana passada por comandar a máfia de caça-níqueis em Goiás, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) usou a tribuna do Senado para se defender nesta terça-feira. E ganhou a solidariedade dos colegas. No plenário, Demóstenes disse que foi vítima de um “vazamento seletivo”, garantiu que não se envolveu em qualquer irregularidade e exigiu ser investigado pelo Supremo Tribunal Federal. O senador ouviu declarações de apoio de quase quarenta colegas, em um raro momento de consenso na Casa.

“Tentam macular a minha dignidade e a de minha família utilizando-se dos expedientes mais grosseiros, como vazamentos seletivos de diálogos. Não tenho as cópias dos autos, repito, mas segundo trechos selecionados e vazados para a imprensa, foram mencionados também outros parlamentares de diferentes partidos, do governo e da oposição. A única repercussão foi sobre o meu nome. Mas não fujo do debate, nem me omito de trazer os esclarecimentos”, declarou o democrata.

O senador diz que, embora não seja investigado pela operação, quer que o Supremo Tribunal Federal entre no caso: “Não chegaram a meu nome. E não poderiam chegar, porque não há nada. Eu não era alvo. Mas agora eu é que exijo ser investigado na forma legal pelo foro adequado, o previsto na Constituição da República: o Supremo Tribunal Federal”, pediu. Demóstenes também disse que recebeu presentes de casamento de Carlinhos Cachoeira e que não poderia recusá-los: “A boa educação recomenda não perguntar o preço de um presente, muito menos recusá-lo”, justificou.

Elogios – O que era para ser um discurso corriqueiro se transformou em um longo ato de desagravo ao senador. Durante mais de uma hora e meia, quase quarenta senadores – a maior parte da base governista – apartearam o discurso do parlamentar goiano para elogiá-lo.

“Vossa Excelência deu as explicações necessárias. Todos nós estamos tranqüilos, satisfeitos. Quero parabenizá-lo pela coragem e pela determinação”, disse o líder do governo na Casa, Romero Jucá (PMDB-RR). Eduardo Suplicy (PT-SP) reconheceu: “Quero lhe transmitir que considero muito importante o esclarecimento que aqui dá a todos os seus colegas senadores e senadoras e ao povo brasileiro”.

Inácio Arruda (PCdoB-CE) não economizou nos elogios: “Vossa Excelência é um homem digno, sempre agiu dessa forma em todos os cargos públicos que ocupou. E digo mais: é dos mais preparados e destemidos homens públicos deste país e, por isso mesmo, dos mais respeitados”, disse. “Vossa Excelência tem a nossa confiança”, garantiu Rodrigo Rollemberg (PSB-DF).

Para Alvaro Dias (PSDB-PR), líder tucano no Senado, o histórico de Demóstenes o isenta de qualquer suspeita: “Senador Demóstenes, Vossa Excelência pode prescindir de defensores. Não precisa defender-se. Sua defesa está na sua trajetória, na sua história, na sua postura republicana de todos os momentos”, afirmou.

Revelações – Na semana passada, a Polícia Federal desmontou uma quadrilha que cooptava autoridades para manter em funcionamento um esquema de exploração de jogos ilegais em Goiás: Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, era o chefe do bando. Como mostrou a edição desta semana de VEJA mostrou, as gravações da Polícia Federal revelam um contato frequente entre o senador e Cachoeira – personagem conhecido pelo episódio que levou a queda de Waldomiro Diniz, assessor do então ministro José Dirceu.

O chefe da máfia dos caça-níqueis em Goiás presenteou Demóstenes com um fogão e uma geladeira, no ano passado, quando o parlamentar se casou. Demóstenes alega que Cachoeira é um grande empresário de Goiás, onde os caça-níqueis eram legalizados até 2007. E diz que a proximidade com o chefe de quadrilha também ocorreu em função da amizade entre sua mulher e a de Cachoeira.

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