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Como a gula salvou a vida do relator da Lava Jato

Ministro Felix Fischer está afastado do STJ desde julho do ano passado por problemas de saúde

Por Laryssa Borges - Atualizado em 8 jan 2020, 18h39 - Publicado em 8 jan 2020, 15h54

O ministro Felix Fischer faz cara de poucos amigos ao menor sinal de assédio no Superior Tribunal de Justiça (STJ). É considerado duríssimo com os réus e alvo preferencial de maledicências de advogados e desafetos por conduzir os processos da Lava-Jato com mão de ferro. Por sua caneta, passaram condenados como o ex-presidente Lula, o empreiteiro Marcelo Odebrecht e o ex-ministro petista José Dirceu –- nos três casos, nenhum conseguiu maiores benefícios nos recursos julgados pelo ministro. Relator dos processos na Corte, que funciona como uma espécie de terceira instância dos casos do petrolão, Fischer luta agora para tentar voltar ao tribunal depois de um grave problema de saúde. Em caráter reservado, colegas do magistrado disseram a VEJA que o ministro foi salvo pela sorte –- e, ironicamente, por quatro cachorros-quentes.

Era final de julho quando, ao fim de um dia típico de expediente, o ministro pediu que o motorista do STJ, antes de deixá-lo em casa, passasse em um conhecido centro comercial do Lago Sul, bairro nobre de Brasília. Glutão notório, Fischer queria comer pastel. Assim foi feito. O ministro, então, decidiu partir para uma segunda rodada, mas para degustar outra iguaria. O destino foi escolhido pelo próprio chofer: uma barraquinha de cachorro-quente, típica das entrequadras na capital, sem qualquer luxo. Com dificuldade para andar, apoiado em uma bengala, o corpulento relator da Lava-Jato acomodou-se nas proximidades da barraca e devorou quatro sanduíches.

Àquela hora, o motorista provavelmente já teria sido dispensado do trabalho. Mas naquele dia, a gulodice do ministro, que obrigou o condutor a encarar horas extras, acabou salvando-lhe a vida. Fischer começou a passar mal ainda no carro, instantes antes de desembarcar em sua casa. Nem a esposa do ministro, Sônia Maria Bardelli Silva Fischer, procuradora de Justiça aposentada do Ministério Público paranaense, nem a filha, a advogada Denise Fischer, estavam na residência. “Bendito cachorro-quente. Se não fosse essa gulodice dele, ele iria para casa mais cedo e passaria mal sozinho”, contou a VEJA um ministro do STJ.

Fischer foi levado às pressas para o hospital. Exames iniciais feitos, por precaução o ministro se submeteu a uma máquina que atua como uma espécie de coração artificial. Assim que foi concluída a instalação do aparelho, relatou um colega de Fischer, o coração do ministro parou. “Se não tivesse a máquina, ele teria morrido”, relembra. Outro ministro relatou que, logo na primeira noite de internação, os médicos ainda avaliavam se a parada cardíaca havia sido provocada por um infarto. “Descobriram que era embolia e realmente o quadro foi gravíssimo”, disse.

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O relator da Lava-Jato no STJ foi diagnosticado com embolia nos dois pulmões e está afastado desde julho das atividades no tribunal. No dia seguinte à notícia do delicado estado de saúde no ministro, o quadro clínico amainou. O pior havia passado. “O ministro Fischer está em plena recuperação. Já não corre nenhum risco de vida, está consciente, lúcido. Não tem previsão, mas acredito que não demore muito [para voltar ao STJ]”, afirmou o presidente do STJ, ministro João Otávio de Noronha.

Fischer assumiu a relatoria da Lava-Jato no final de 2015 depois que o então titular da função, o ministro Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, votou a favor da prisão domiciliar de empreiteiros enrolados no petrolão. Primeiro a discordar de Ribeiro Dantas, que segundo o delator e ex-senador Delcídio Amaral foi indicado ao STJ para salvar poderosos, Fischer herdou, por razões regimentais, os processos relacionados ao maior escândalo de corrupção do país. Para os réus, uma pá de cal na esperança por absolvições.

O pavor dos lavajatistas diante do sisudo relator é tamanho que em setembro o ex-presidente Lula tentou se aproveitar dos problemas de saúde do ministro para tentar tirar os processos de suas mãos. A defesa do petista argumentou que, depois de 30 dias de ausência do ministro, o tribunal teria que redistribuir os recursos entre os outros magistrados que julgam ações penais no STJ. Não funcionou. No mesmo mês, a Corte Especial do STJ aprovou o nome do desembargador Leopoldo Raposo, do Tribunal de Justiça de Pernambuco, para substituir Fischer enquanto durar a sua licença médica. Passaram a Raposo casos urgentes do petrolão, como pedidos de liberdade. A intenção do tribunal é finalizar o julgamento envolvendo Lula. Em abril, a Quinta Turma do STJ diminuiu a pena do petista no processo sobre o tríplex no Guarujá, mas está pendente de julgamento um outro recurso do petista, chamado de embargo de declaração, no mesmo caso.

Desde o início da licença médica, Fischer emagreceu 33 quilos. Está em uma cama de hospital em home care, em Brasília, sob a vigilância de uma cuidadora. Aos 72 anos, o relator da Lava-Jato no STJ intensificou agora a fisioterapia para conseguir voltar a andar. Embora psicologicamente abalado com o longo tratamento, reluta em aposentar-se (faltam três anos para cair na aposentadoria compulsória, aos 75), desautorizou qualquer pessoa a ventilar a hipótese de abandonar a toga e quer voltar a todo custo ao tribunal. Procurado, o STJ informou que não se pronuncia sobre a saúde ou a vida privada de ministros.

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