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Políticos ampliam ainda mais a prática de abusos graças à fartura de recursos federais despejados por meio dos fundos partidário e eleitoral

Por Da Redação Atualizado em 27 jan 2022, 20h49 - Publicado em 28 jan 2022, 06h00

Infelizmente, a retomada da vida após a virada do ano muitas vezes tem um componente de ressaca para os brasileiros, que voltam a deparar com novas versões de velhos problemas. Uma forma certeira de se irritar ainda mais com as mazelas nacionais é comparar o cenário daqui com o dos países mais desenvolvidos. Tome-se como exemplo a postura dos políticos no trato com o dinheiro público. Em nações ricas como a Suécia, parlamentares andam de metrô, têm um número ínfimo de auxiliares e correm o risco de enterrar a carreira caso sejam pilhados em malfeitos na hora da prestação de suas contas. No Brasil (como se sabe, uma nação bem distante da média de renda escandinava), ocorre o contrário: historicamente, a turma de Brasília se lambuza em um cenário de múltiplas mordomias. Nos últimos anos, aliás, essa casta vem expandindo ainda mais a prática de abusos, graças à fartura de recursos federais despejados por meio dos fundos partidário e eleitoral.

Ao longo dos anos, a caudalosa fonte de capital irrigada por esses dois canais cresceu de forma expressiva, chegando em 2022 ao montante recorde de 6 bilhões de reais —uma soma estratosférica que, não raro, atiça a ganância dos corruptos. Ratificada recentemente pelo presidente Jair Bolsonaro, a fatia destinada a gastos nas eleições — da ordem de 4,9 bilhões de reais — é historicamente marcada por escândalos, com destaque para a criação de candidaturas-laranjas e outras falcatruas. O fundo partidário, que alcança a cifra de 1 bilhão de reais ao ano, também não fica atrás na lista de operações lesa-pátria, conforme mostra a reportagem que começa na página 24. Ao colocar uma lupa nessas despesas, com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os jornalistas Bruno Ribeiro e Leonardo Lellis desvendaram um constrangedor conjunto de distorções. São pagamentos realizados para aluguel de jatinhos, mansões, hospedagens em hotéis caros e compra de carros de alto padrão. Parte dos caciques políticos também embolsa ótimos salários à custa dessa verba. O mesmo fundo serve ainda para o pagamento de advogados graúdos que defendem políticos acusados de corrupção. Ou seja, é dinheiro público utilizado para a defesa de gente suspeita de surrupiar dinheiro público. Só no Brasil.

Em tese, todas essas contas estão sujeitas ao escrutínio de especialistas do TSE e, em caso de irregularidades, podem ser recusadas. Na prática, dado o volume de contas a ser analisadas, a auditoria não consegue desempenhar suas funções. Desde 2010, das 349 prestações enviadas pelos diretórios nacionais, a Corte conseguiu checar apenas 107, a maior parte com declarações de cerca de uma década atrás. De olho apenas nos seus próprios interesses, os políticos acabam cumprindo papel tristemente essencial na perpetuação desse equivocado sistema. Afinal, são eles que criam e aprovam as leis que os favorecem nessa área. Não por acaso, só aumentam o bolo e as brechas que permitem a utilização do fundo partidário para fins extravagantes. É a velha história da raposa tomando conta do galinheiro. Apesar de esse problema ser um bom motivo para começar 2022 de mau humor, vale lembrar que teremos eleições em outubro. Elas são a oportunidade perfeita para tirarmos do circuito aqueles que abraçam a política pensando apenas em defender os próprios privilégios.

Publicado em VEJA de 2 de fevereiro de 2022, edição nº 2774

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