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Carta ao Leitor: A diáspora brasileira

Instabilidade provocada por Bolsonaro se transformou em um fator relevante para intensificar fluxo migratório

Por Da Redação Atualizado em 23 set 2021, 18h20 - Publicado em 24 set 2021, 06h00
INVERSÃO DE FLUXO - Dublin e o Porto de Santos, em 1907: o país que recebia levas de estrangeiros é hoje a nação de onde partem milhões em busca de um futuro melhor em países como a Irlanda -
INVERSÃO DE FLUXO - Dublin e o Porto de Santos, em 1907: o país que recebia levas de estrangeiros é hoje a nação de onde partem milhões em busca de um futuro melhor em países como a Irlanda – Pixy.org/Memorial do Imigrante/.

Entre o fim do século XIX e as primeiras três décadas da era seguinte, o Brasil representou um porto de esperança para cerca de 4 milhões de imigrantes, vindos principalmente da Europa. A grande maioria atravessou o Atlântico para recomeçar a vida nos trópicos fugindo das guerras e da fome, atraída por programas governamentais daqui que tinham o objetivo de recrutar mão de obra estrangeira para as lavouras ou incentivar a ocupação de porções ainda vazias do território. Nos últimos trinta anos, esse fluxo se inverteu, adquirindo ainda mais velocidade de 2019 para cá. O êxodo em massa coincide com a chegada de Jair Bolsonaro ao Palácio do Planalto, quando a quantidade de brasileiros que saiu do país aumentou em quase 20%, totalizando hoje 4,2 milhões de pessoas, um recorde na história. Tal incremento é ainda mais impressionante quando se leva em consideração que, em boa parte dos últimos dois anos, o mundo esteve com as fronteiras fechadas devido à pandemia.

Mais uma vez, o governo federal tem um papel importante como incentivador dessa corrente migratória, só que na direção contrária. A falta de políticas claras e coerentes de desenvolvimento, os crescentes desatinos presidenciais e o descalabro da gestão da crise sanitária, que só agravou as consequências econômicas da Covid-19, fizeram do Brasil um lugar menos atrativo para aqueles que desejam trabalho, oportunidades e paz. Tão saudoso dos tempos da ditadura, que cunhou nos anos de chumbo o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”, Bolsonaro provocou uma instabilidade (conflito entre poderes, flertes com um autogolpe e questionamentos sobre a urna eletrônica) que acabou se transformando em um fator relevante para intensificar esse fluxo migratório.

Inédito em nossa história, o volume de expatriados mexeu também com o ranking dos destinos mais procurados. Além de Estados Unidos e Portugal, paradeiros clássicos dos brasileiros, entraram para a lista nações como Irlanda, Uruguai e México. Nesse último caso, o país latino acaba servindo muitas vezes de mera escala para a aventura perigosa de atravessar ilegalmente a fronteira em direção ao território americano, algo capaz de produzir catástrofes humanitárias em série, sendo o exemplo mais recente o da técnica de enfermagem Lenilda dos Santos, de 49 anos, que morreu abandonada no meio do deserto.

A despeito de tragédias protagonizadas por pessoas dispostas a tudo, pois já não têm nada mais a perder por aqui, parte considerável dos brasileiros em rota de escape atualmente tem melhores condições financeiras e profissionais. Conforme mostra o jornalista Leonardo Lellis na reportagem que começa na página 56, elas saem em debandada em busca de estabilidade, segurança e serviços públicos de qualidade, sobretudo na educação e na saúde. O êxodo ainda carrega para longe uma grande leva de profissionais qualificados (a chamada “fuga de cérebros”) e vem sendo engordado cada vez mais por jovens atrás de diplomas e de um futuro melhor fora do Brasil. Assim, aos poucos, o país da esperança para milhões de estrangeiros no passado hoje empurra seus cidadãos para tentar a sorte no exterior. Uma lástima.

Publicado em VEJA de 29 de setembro de 2021, edição nº 2757

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