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Cachoeira se cala e sessão de CPI é suspensa

Bicheiro, que se limitou a dizer que usaria seu direito constitucional de permanecer calado, deve ser reconvocado após depoimento à Justiça

Por Laryssa Borges e Gabriel Castro - 22 Maio 2012, 16h39

Após a estratégia traçada pelo criminalista e ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de orientar o contraventor Carlinhos Cachoeira a permanecer em silêncio durante o que seria seu depoimento à CPI, os parlamentares decidiram antecipar o fim da sessão. O bicheiro deve ser reconvocado para prestar depoimento à CPI após sua audiência na Justiça. Cachoeira, que não respondeu a nenhuma pergunta ou provocação dos parlamentares, disse estar à disposição para ser convocado novamente após o dia 1º de junho, quando vai depor em juízo na 11ª Vara Federal de Goiás. “Ele consignou que pode vir em um segundo momento nesta CPI e colaborar”, disse o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG). Sem os esclarecimentos do contraventor, a sessão da CPI acabou por se transformar em um palco para parlamentares que aproveitavam a transmissão do depoimento por TVs oficiais e privadas. “Creio que estamos chegando a uma encruzilhada. Vamos passar infindáveis horas em um discurso que não contribui com nossa investigação”, resumiu o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), depois da constatação de que seria infrutífero fazer qualquer pergunta a Cachoeira. “Está ficando ridículo, nós estamos fazendo um papel ridículo. Se estamos perguntando para uma múmia, para uma pessoa que não quer responder, o que estamos fazendo aqui? Não estou aqui para dar ouro para bandido, para ele anotar nossas perguntas e se preparar para a defesa. Não estamos aqui para fazer papel de bobo para um chefe de quadrilha”, protestou a senadora Kátia Abreu (PSD-TO). “Não imaginamos a imagem que estamos passando diante da população brasileira. Estamos diante de um marginal que sai do presídio da Papuda e vem aqui se manter em silêncio com a arrogância dos livres”, afirmou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR). Twitter – Com a disposição de responder apenas “calado, senhor” a quaisquer questionamentos, Cachoeira chegou a ironizar, durante o depoimento, as perguntas dos parlamentares. Se no início do depoimento o bicheiro chegou tremendo na sala da comissão, ao longo da tarde foi se mostrando mais relaxado e provocou a decepção de deputados e senadores. Sua estratégia de permanecer sempre em silêncio virou até piada no Twitter. A hashtag #PergunteAoCachoeira entrou nos Trending Topics rapidamente. Leia também:

STF nega pedido de Cachoeira para adiar depoimento Instruído pela defesa, Cachoeira se cala Galeria de fotos: No depoimento mais esperado, Cachoeira se cala Musa da CPI – Diante da insistência de deputados e senadores de arrancar alguma resposta do contraventor, incluindo a proposta de uma eventual delação premiada, Cachoeira e Thomaz Bastos cochichavam e riam entre si. A mulher do bicheiro, Andressa Mendonça, já apelidada, nos corredores do Congresso, de “musa” da CPI, acompanhou o depoimento na sala da comissão e trocou olhares e sorrisos com o marido. No início da sessão, Cachoeira provocou os parlamentares e disse que a defesa havia pedido ao colegiado e à Justiça que o depoimento fosse adiado. “Houve um pedido para que os senhores reavaliassem a nossa vinda aqui na CPI. Quem forçou foram os senhores”, disse. O próprio relator, que anunciou que teria um bloco de 130 perguntas a serem feitas a Cachoeira, desistiu do rol de questionamentos e se limitou a poucas questões. Todas ficaram sem resposta. Direito ao silêncio – Na noite desta segunda-feira, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou pedido para que o depoimento de Cachoeira à CPI fosse adiado. Em decisão individual, Mello disse que os advogados do bicheiro já tiveram acesso aos dados sobre as investigações da Polícia Federal sobre o esquema, o que, segundo ele, garante o cumprimento do direito à ampla defesa. No entanto, o próprio Celso de Mello, em sua decisão, destacou que o contraventor tem o direito constitucional de se calar diante dos questionamentos dos parlamentares. “Assiste, a qualquer pessoa regularmente convocada para depor perante comissão parlamentar de inquérito, o direito de se manter em silêncio, que representa direta consequência fundada na prerrogativa constitucional contra a autoincriminação”, disse o ministro em seu despacho.

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