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Marília Arraes: “Lula me adora porque só faço aju­dá-lo”

A candidata ao governo de Pernambuco fala do racha com a família, da recente saída do PT e do plano de colar-se ao presidenciável petista

Por Ricardo Ferraz Atualizado em 22 jul 2022, 10h42 - Publicado em 22 jul 2022, 06h00
Marília Arraes -
Marília Arraes – Tiago Calazans/Divulgação

Conhecida em seu estado, Pernambuco, como arengueira — verbete muito usado por lá no lugar de seu sinônimo mais nacional, encrenqueira —, a deputada federal Marília Arraes, 38 anos, comprou mesmo um monte de brigas ao longo de sua trajetória política, que começou como vereadora. O mais conhecido duelo que travou foi com o próprio clã, rompendo com o primo, Eduardo Campos (1965-2014), de quem era próxima e, segundo ela, não aceitava seu protagonismo. Foi aí, uma década atrás, que trocou o PSB pelo PT, de onde também acaba de sair porque não havia ali lugar para se lançar candidata ao governo pernambucano, ao qual concorre. Em decorrência da aliança PT-PSB, a vaga ficou com o deputado Danilo Cabral, e ela debandou para o Solidariedade. Marília ainda luta para Lula subir em seu palanque, outra saia justíssima dadas as divergências locais. Hoje à frente nas pesquisas, a neta de Miguel Arraes (1916-2005), no segundo casamento e na terceira gravidez, falou a VEJA, sem freios na língua, por videochamada.

A senhora posou recentemente ao lado de Geraldo Alckmin, candidato a vice na chapa de Lula e do PSB, justamente seu partido rival na disputa pelo governo de Pernambuco. Causou constrangimento? Se trouxe algum incômodo ao meu adversário (Danilo Cabral) e a outros não é problema meu. Era um evento do ex-presidente Lula com deputados que o apoiam. Eu estava lá e tirei uma foto com eles, como tantos parlamentares. O PSB está insatisfeito, na realidade, porque anda mal das pernas em Pernambuco, à frente de um governo com rejeição maior que a de Bolsonaro. Agora, se posar com Alckmin fosse tão ruim assim, deveriam tê-lo avisado: “Olha, quando Marília chegar, não tira foto com ela, não”. Ninguém falou nada, e eu, claro, fiz a fotografia.

Do seu ponto de vista, não é estranho deixar-se fotografar sorridente ao lado de um quadro que hoje pertence a um grupo político que a senhora tanto critica? É público e notório que vou votar em Lula e, logo, em seu vice, o Alckmin. O impasse entre minha candidatura e a aliança PT-PSB é local. São coisas da política.

Ficou melindrada quando Lula selou a aliança com o PSB? Não. Acho que ele fez certo de ir atrás desse apoio porque quer ganhar de Bolsonaro, então precisa do tempo de TV e de alianças nos estados, não tem jeito. Mas eu sei que o PSB está mais interessado é em salvar o próprio projeto de poder em Pernambuco do que em promover a vitória de Lula nacionalmente.

Por que diz isso? Sei que, se Lula voltar atrás e um dia disser que não apoia mais o PSB no estado, a resposta deles será: “Ah, então deixa o Bolsonaro ganhar a eleição”.

Como anda sua relação com Lula? Lula me adora porque só faço aju­dá-lo. Acabei, inclusive, contribuindo de forma indireta ao sair do PT e não criar obstáculo à aliança com o PSB. Como ele ganhou nessa movimentação em Pernambuco, ficou mais complicado para o PSB manter a candidatura de Márcio França ao governo de São Paulo. Ouso dizer que jamais retirariam o nome de França do páreo se não fosse por minha ida para o Solidariedade. Quando deixei o PT, passei de problema à solução.

“Se a foto com Alckmin trouxe incômodo ao meu adversário, não é problema meu. Deveriam tê-lo avisado: ‘Quando a Marília chegar, não tira foto, não’. Só que ninguém falou nada”

A senhora está tentando firmemente atrair Lula para o seu palanque. Tem chance? A gente pede, conversa, não sei. Mas acho, sinceramente, que isso não é tão crucial. O meu palanque é o dele, independentemente de estar presente. Sou Lula desde a juventude e todo mundo sabe. Em 2002, Miguel Arraes apoiou o ex-governador Anthony Garotinho para a Presidência e eu caminhava ao lado de meu avô vestindo a camisa do candidato do PT. Nunca escondi minha preferência. Lula é pragmático, como sabemos, e deve fazer o que for melhor para sua campanha. Se puder vir para perto de mim, sei que virá.

Com tantas juras de amor, não é contraditório a senhora ter deixado o PT? Só saí do PT por problemas locais. Entendi que, em Pernambuco, o partido teria um namoro em eterna crise com o PSB, e nessa história não havia lugar para mim. Ora estão juntos, ora se separam. Em 2020, nas eleições municipais, veio cada um com sua candidatura. Depois que anunciei minha saída, até me ofereceram a vaga para o Senado, mas não tinha como estar ao lado do PSB após passar oito anos criticando a legenda. O partido abandonou o legado de meu avô, defendeu a independência do Banco Central, apoiou Aécio Neves, várias posturas com as quais eu não concordo.

A ideia de um dia voltar ao PT lhe passa pela cabeça? É uma pergunta difícil, mas me sinto feliz hoje porque fui bem acolhida no Solidariedade. No futuro, não sabemos o que pode acontecer. O que é certo é meu compromisso de governar por meu novo partido, caso vença.

A senhora critica alianças nacionais do PT, mas o seu partido decidiu apoiar o governador tucano Rodrigo Garcia, em São Paulo. Isso não bate de frente com esses ideais que a senhora diz tanto querer preservar? Quando ingressei no Solidariedade, esse acordo em São Paulo já estava fechado. Mesmo assim, como vice-presidente da legenda, procurei Fernando Haddad (candidato pelo PT) e tentei conversar internamente para reverter esse impasse. Não deu.

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A senhora é conhecida por comprar brigas, o que lhe rendeu a fama de encrenqueira. Procede? Esse discurso é machista e já caiu por terra. Ainda no PT, quando trabalhava para sair candidata ao governo, enfrentei dificuldades de fazer alianças. Mas a questão não era minha, era da legenda. Quando eu começava a costurar, conversar, logo diziam: “Não adianta, o PT não vai deixar você ser candidata, não posso me arriscar”. Então não era um problema meu, de não conseguir dialogar. No Solidariedade, por exemplo, firmei alianças com o grupo que já foi liderado pelo Marco Maciel e com o pessoal que era ligado a Inocêncio Oliveira, pessoas com quem, apesar de sempre pensaram diferente de mim, mantenho excelentes relações. Procuro o caminho da conciliação. Mas às vezes é necessário tomar atitudes mais drásticas.

Como foi o rompimento com o ex-governador Eduardo Campos, seu primo, que a apoiou no início da carreira política? Com os Campos, rompi politicamente e eles resolveram não falar mais comigo. Para mim, na verdade, não fez muita diferença porque não era a parte da família com quem tinha uma convivência diária. Eduardo era quase vinte anos mais velho e tínhamos uma relação criada pela política. Com os filhos dele, a diferença de idade também é grande. Não convivia com eles. Já com minha tia Ana (Arraes, ministra do TCU e mãe de Eduardo), tenho mais afinidade. Ela sempre quis ser mãe de uma menina, mas só teve filhos homens e eu fui a primeira sobrinha mulher, o que nos aproximou. Quando nos vemos, evito falar de política para não criar saias justas desnecessárias.

Renata, mulher de Eduardo Campos, a proibiu de ir ao enterro do marido. Como foi esse episódio? Péssimo. Cresci ouvindo a história de que meu avô tentou ir ao enterro da ex-deputada federal Cristina Tavares, com quem teve divergências políticas, e foi impedido pelos parentes dela. Todo mundo na minha família ficava revoltado com essa história, e aí, de repente, era eu na mesma situação. Mas achei que tinha de respeitar a vontade da viúva e não fui.

As feridas familiares ficaram expostas na campanha de 2020 para a prefeitura do Recife, em que a senhora concorreu com o filho de Eduardo, João Campos, que venceu. Guarda mágoas? Se fosse de guardar mágoa, já teria saído da política há muito tempo. Mas não foi fácil. Pela primeira vez, fiquei abalada emocionalmente, porque família e amigos próximos também foram atingidos. Tenho uma avó de 91 anos que é muito católica. Quando colocaram no programa da TV que eu era contra a Bíblia, que não respeitava a palavra de Deus, ela se sentiu mal e aquilo mexeu comigo. Com João, nunca tive relação nenhuma, mesmo antes de romper com Eduardo. Aliás, nunca nos falamos depois que ele se elegeu prefeito.

Como avalia a gestão João Campos? João é um gestor fraco. Muita gente se refere a ele como príncipe e eu acho que a alcunha lhe cabe bem porque, além de ser herdeiro político do pai, ele se comporta como uma pessoa que não consegue enfrentar as dificuldades. Tudo lhe foi entregue de maneira muito fácil na vida.

“João Campos, meu primo, é um gestor fraco. Muita gente o chama de príncipe e acho que a alcunha lhe cabe. É herdeiro político do pai, tudo lhe foi entregue fácil ao longo da vida”

Caso a senhora se eleja ao governo, como será sua relação com ele? Isso já é outra história. Trata-se da relação de uma governadora eleita com o prefeito do Recife. No papel institucional, não se pode deixar que os outros paguem a conta pelas divergências políticas, por pior que seja a situação.

Durante a campanha eleitoral, a senhora divulgou que está grávida. Foi planejado? Essa foi a primeira gravidez não planejada da minha vida e veio justamente neste momento, que é o mais desafiador de toda a minha carreira. Mas a notícia foi bem recebida, gosto de ser mãe. Tenho outras duas filhas (de 7 anos e de 7 meses), que de vez em quando até me acompanham em algumas agendas.

A senhora deve dar à luz no início do ano que vem, justo no começo do mandato. Se eleita, sairá de licen­ça-maternidade? Não pretendo. Não saí de licença em janeiro, quando minha segunda filha nasceu e eu estava em pleno exercício do mandato de deputada. Reconheço o direito e a importância da licença para as mulheres que têm contrato por tempo indeterminado. É diferente de um ciclo de apenas quatro anos. Dito isso, considero perfeitamente possível conciliar as duas coisas.

A gravidez pode ajudá-la nas urnas? Não tenho como dizer, mas com certeza não vou usar isso na campanha. Só toquei no assunto depois que a imprensa local divulgou a notícia sem a minha autorização.

A senhora é alvo de machismo na política? Quem é mulher sofre pequenas violências todos os dias, ainda que empurre para debaixo do tapete. É comum eu estar no meio de um grupo de políticos homens, alguém de fora chegar e cumprimentar a todos menos a mim. Às vezes, perguntam: “Você é assessora de quem?”. Respondo que sou assessora do povo de Pernambuco, muito prazer, Marília Arraes, deputada federal.

Publicado em VEJA de 27 de julho de 2022, edição nº 2799

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