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Luiza Trajano: “Lula não me chamou em momento algum, mas levei a fama”

A controladora da maior rede varejista do Brasil fala dos convites que recebeu para se candidatar às eleições e da opção pelo ativismo nas causas sociais

Por Felipe Mendes, Larissa Quintino Atualizado em 10 jun 2022, 09h00 - Publicado em 10 jun 2022, 06h00
Luiza Trajano
Luiza Trajano – Antonio Milena/.

Defensora de um modelo de capitalismo consciente, a empresária Luiza Helena Trajano, presidente do conselho de administração do Magazine Luiza, é uma das líderes empresariais de maior prestígio no país. Aos 73 anos, ela é a única representante nacional na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, publicada pela revista americana Time em 2021, e foi recentemente agraciada com o prêmio Person of the Year, em Nova York, pela Câmara do Comércio Brasil-­Estados Unidos. Além disso, Luiza desfruta de protagonismo raro na política brasileira. Seu nome foi cogitado para a disputa à Presidência e posteriormente aventado como possível vice do candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista a VEJA, realizada em São Paulo, Luiza revelou ter recebido diversas propostas para participar das eleições de 2022 — e cogitou até mesmo considerar uma delas. “Fiquei na dúvida até as 5 da tarde do dia 2 de abril, um dia de muita pressão, com muitos líderes me ligando. Mas eu não dei conta”, recorda. Às vésperas do lançamento de sua biografia, Luiza Helena: Mulher do Brasil, escrita por Pedro Bial (Editora Gente), a empresária diz que prefere ser vista como “uma política suprapartidária”, com a missão de influenciar os debates sobre o futuro do país com trânsito pelo maior número possível de legendas.

Em sua biografia, que chega às livrarias nos próximos dias, uma de suas filhas, a chef Ana Luiza Trajano, diz em depoimento que a senhora é “irritantemente otimista”. É possível ser otimista com a situação atual do país? Uma das coisas que aprendi é que só não há solução para a morte. Eu não sou de ficar remoendo problemas, eu sempre busco resolver. Não sou pessoa de ficar lamentando.

Como a senhora avalia o problema da inflação e do desemprego? As pessoas estão passando fome e a situação está difícil. Houve algumas ações que ajudaram muito, mas nós ainda estamos sofrendo porque, além da inflação, há a taxa de juros alta. Não existe nenhum país que consiga sair de uma catástrofe como foi a pandemia sem o Estado ajudar e injetar dinheiro. Não acho que o governo deve bancar tudo, mas o momento demanda mais investimento público. E, em médio prazo, é preciso fazer as reformas.

Nesse caso, quais delas a senhora considera mais importantes? Uma delas é a reforma da burocracia que existe no país. É preciso simplificar os processos, trazer a digitalização para dentro do estado. Veja o SUS, por exemplo. Várias áreas da instituição são digitais, mas uma não conversa com a outra. Não basta ser digital, é preciso que isso seja eficiente, que facilite a vida das pessoas. Precisamos também aprovar a reforma tributária e promover uma reforma política, mas essa eu acho que vai demorar para sair.

Recentemente, o ex-presidente Lula, líder nas pesquisas, falou em revogar a reforma trabalhista. O que a senhora pensa sobre esse assunto? Essa reforma não dá para tirar. Ela ajuda a criar muitos empregos. Temos de enfrentar as taxas de desemprego com outras soluções.

“Acho que o Lula sempre teve a intenção de ter alguém como o Alckmin para vice. Concordo com a estratégia. Ele não me chamou em momento algum, mas eu levei a fama por isso”

Entre os relatos do livro, há um trecho que aponta seu incômodo em aparecer na lista de bilionários da Forbes. Isso afetou sua vida de alguma forma? Não, não afetou em nada. Mas é um tipo de lista em que eu nunca pensei que fosse estar. Quando saiu, tudo bem. Mas depois me vi em tudo quanto era jornal do Brasil e essa visibilidade me assustou. Não era algo que eu almejava, era algo muito distante de mim.

O texto de apresentação de seu perfil na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo, da revista Time, é assinado pelo ex-presidente e atual candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva. A senhora sabia disso? Foi uma surpresa. Eu não sabia quem escreveria sobre mim. Eles chamam alguém que já esteve na lista para participar. Na hora que me avisaram que o texto tinha sido escrito por ele, pensei: “Nossa, é agora que vão me tachar de petista mesmo”. Mas, depois, quando li e enviei o texto para minhas amigas, elas disseram que teriam escrito o mesmo sobre mim. Aí, pensei: “Bom, se quiserem achar alguma coisa, que achem”.

A senhora veio de vermelho para a entrevista e a sessão de fotografia. Não acha que podem associá-la ao PT por causa disso? Eu pensei nisso, mas não posso escolher ou deixar de escolher uma roupa pensando no que vão falar. Já houve um momento em que deixei de vestir vermelho para não me associarem a nada, mas hoje não vivo em função disso.

Esse vínculo com o PT é um incômodo para a senhora? Não. Eu tenho um compromisso com a verdade. Ela é o que liberta. Agora, por exemplo, ninguém está me tachando de nada porque não me filiei a nenhum partido político. E olha que fui convidada por vários, menos pelo PT. Falaram que eu seria vice do Lula e foi por isso que eu levei muita pancada.

Houve alguma conversa nesse sentido? Não. Nenhuma. Mesmo porque acho que o Lula sempre teve a intenção de chamar alguém como o Geraldo Alckmin para ser seu vice. E eu concordo com a estratégia dele. Mas ele não me chamou em momento algum e eu acabei levando a fama por isso. Essa é a verdade.

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Uma das pessoas que repercutiram essa possibilidade foi o próprio presidente Jair Bolsonaro, não? Eu estava em Campina Grande (PB) quando o presidente disse isso. Nem tinha visto. Ele disse que tinha uma empresária aí que se diz socialista e que as ações da empresa dela caíram muito, que seria vice do Lula. Vieram me questionar se eu me considerava socialista. Ora, se ser socialista é se preocupar com a desigualdade social, eu tenho essa preocupação desde os 10 anos de idade.

Mas a senhora nem sequer considerou ser candidata nas próximas eleições? Eu recebi várias propostas. Para ser vice, para ser candidata à Presidência, para me filiar a algum partido. Essa última dizia que eu não precisava me candidatar e que eu teria até agosto para me decidir. Confesso que foi a única que mexeu comigo. Fiquei na dúvida até as 5 da tarde do dia 2 de abril. Foi um dia de pressão, com muitos líderes me ligando. Mas eu não dei conta. Eu sabia que, se me filiasse, isso iria acabar com o bom trânsito que tenho por diferentes partidos, devido aos movimentos de que faço parte. Não quis abrir mão disso, ainda mais em um momento de tanta polarização.

O convite veio de quem, exatamente? Não posso falar. A pessoa foi muito coerente comigo e não quero expô-la.

A senhora sempre disse que é, acima de tudo, uma vendedora. Mas também sempre gostou de orbitar pela política, com uma defesa enfática das minorias, não? Eu sou política. Não uma política partidária, mas sim suprapartidária. Eu defendo o país, tomo posições quando eu acho que devo tomar, e me sinto protagonista no debate.

E qual a forma de a senhora fazer política fora da estrutura partidária? Agora, eu vou entrar numa campanha muito forte com o Mulheres do Brasil, baseada em alguns pilares fundamentais. Um é o “pula para 50”, onde a nossa intenção é fazer com que 50% das posições na política sejam ocupadas por mulheres. Nós também estamos trabalhando com muitos projetos nos quatro pilares que defendemos: saúde, educação, emprego e habitação. É um projeto de Brasil.

No momento, há uma única mulher pré-candidata à Presidência, a senadora Simone Tebet (MDB). A senhora tem conversado com ela? Sim, tenho falado com ela. Mas acho que ela está demorando muito para se firmar como candidata. Evidentemente, esse cenário das pesquisas ainda pode mudar. Seria muito importante termos alternativas e a presença feminina faz falta na administração pública brasileira. Por que temos hoje mulheres em todos os lugares, mas não na política?

O que esperar de um próximo presidente? Que ele una o país. Isso é que eu espero. Ele tem de unir o país. A vacinação contra a Covid-19, por exemplo, só deu certo porque uniu o país, porque foi um propósito maior do que qualquer vaidade.

“Vieram me perguntar se eu era socialista. Se ser socialista é se preocupar com a desigualdade social, eu tenho essa preocupação desde os 10 anos de idade”

Desde o início da pandemia, o número de investidores pessoa física do Magazine Luiza na bolsa de valores mais que dobrou, passando de 259 000 para quase 600 000. Nos últimos meses o valor das ações da empresa caiu muito. A senhora se sente responsável por gerar bons resultados para eles? Quando a gente entrou na bolsa, em 2011, fizemos questão de abrir a empresa para as pessoas físicas, porque eu queria que os funcionários tivessem participação no negócio. Houve um período difícil no começo, mas quem manteve a ação ganhou muito dinheiro depois. Nós tivemos cinco anos só de alta das ações. Eu não diria que o Magazine Luiza está mal, mas sim que isso é consequência do mercado em que nós estamos inseridos, por causa dos juros e da inflação altos. Obviamente, eu me sinto responsável por fazer o melhor pela empresa, por trabalhar, e procurar realizar as coisas certas. Mas acho também que quem está na bolsa sabe dos riscos que corre.

A senhora, como controladora, tem aproveitado o atual patamar para comprar mais ações da empresa? O que eu posso dizer é que, quando a ação está em baixa, eu vou lá e compro. Por isso que eu apareço como maior acionista pessoa física.

A senhora sempre prezou muito a discrição. Como é ver sua história virar biografia? Eu tenho muita dificuldade de falar e de ler sobre mim. Mas o que há de mais legal no livro é que ele traz muito sobre a minha tia (Luiza Trajano Donato, a fundadora do Magazine Luiza). Tem muita gente que conhece a minha história, mas não conhece tanto sobre a minha tia. Hoje, ela tem 95 anos, está com demência, alternando dias bons e dias ruins. Poder contar sobre ela é muito especial.

Por que senhora achou que esse era o momento ideal de trazer a sua história em livro? Para ser sincera, eu nem sei se era a hora. Eu tenho muita dificuldade de falar sobre o que passou na minha vida. Eu vivo muito o presente. Esse trabalho é fruto de uma pesquisa que começou há uns cinco anos sobre a minha metodologia de gestão, uma mistura entre caos e ordem. Durante a pandemia, o Pedro Bial me procurou e eu decidi topar.

Publicado em VEJA de 15 de junho de 2022, edição nº 2793

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