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Jane Fonda, sobre acusação de Bolsonaro a DiCaprio: ‘É patético’

A atriz e ativista, que trocou a grita contra a Guerra do Vietnã pelo ambientalismo, lamenta a postura do presidente brasileiro em relação à Amazônia

Por Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 13 dez 2019, 10h26 - Publicado em 13 dez 2019, 06h00

Há uma régua para acompanhar as mudanças de comportamento da sociedade nas últimas décadas do século XX e nos primeiros anos do século XXI: por meio das atividades (ou do ativismo) de Jane Fonda. Nos anos 1970, depois de ser fotografada sentada em um armamento antiaéreo vietnamita, em plena Guerra do Vietnã, ela foi apelidada de Hanói Jane e acusada de trair os Estados Unidos. Na década de 80, dedicou-se a algo um tanto mais mundano, o culto ao corpo, com uma série de vídeos de malhação que rodaram o mundo e alinhavaram um estilo de vida. Aos 81 anos, cansada de tanta beleza, a atriz inaugurou mais uma fase de sua vida: mudou-se para Washington. Ali, inspirada na menina sueca Greta Thunberg, de 16 anos, eleita a Pessoa do Ano pela revista Time, por liderar uma sucessão de greves escolares em defesa do clima — sempre às sextas-feiras —, Jane decidiu postar-se diante do Capitólio para gritar e agitar bandeiras. Faz o que sempre soube fazer: protestar. Ela já foi detida quatro vezes em 2019.

Entre o Vietnã e Washington, em cinquenta anos de trajetória, Jane ainda teve tempo de brilhar nas telas do cinema: ganhou duas vezes o Oscar de melhor atriz, por Klute — O Passado Condena, de 1971, e Amargo Regresso, de 1978. Entre uma manifestação e outra, a atriz falou a VEJA por telefone, dias depois de o presidente Jair Bolsonaro ter acusado o ator Leonardo DiCaprio de promover incêndios na Floresta Amazônica: “Leonardo DiCaprio é um cara legal, né? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazônia”, tuitou o presidente.

O que a senhora pensou quando soube da acusação de Jair Bolsonaro contra Leonardo DiCaprio? É patético. É risível. É uma piada.

A senhora acompanha as ações do presidente brasileiro? Sim, acompanho a política brasileira. Estava em Michigan durante as eleições presidenciais brasileiras, quando Bolsonaro foi eleito. Alguns brasileiros me viram e começaram a chorar ao dizer que ele havia ganhado a disputa presidencial. Eles sabiam o que significava para seu país aquela vitória e não conseguiram se conter. Eu me senti muito mal. Já passei um tempo no Brasil, amo o país, amo seu povo, e sinto muito que tenha chegado a esse ponto.

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Qual é a sua opinião sobre Bolsonaro? É um homem que permite as queimadas na Floresta Amazônica em troca de dinheiro, em nome da produção agrícola, mas sem cuidado algum, suja. Ele não entende que está potencialmente destruindo um órgão vital do planeta, com a Amazônia em chamas — além do ridículo, reafirmo, de culpar Leonardo DiCaprio e os ambientalistas. Respeito a coragem e o sacrifício dos brigadistas que foram injustamente presos, recentemente. Calá-los é como tentar coibir a imprensa livre. Mas vocês vão superar isso. Assim como nós, americanos, conseguiremos superar esse período com Donald Trump.

“O presidente é um homem sem lei. Ele não respeita a instituição da democracia. Prefere homens durões, como Bolsonaro e Putin. É chocante ter Donald Trump na Casa Branca”

A senhora foi crítica contumaz de Richard Nixon (presidente dos Estados Unidos entre 1969 e 1974) e, agora, de Donald Trump. Qual é a sensação? Tenho vergonha. Tenho medo. Quero que as coisas mudem o mais rápido possível. Por mais que eu não gostasse de Richard Nixon, e ele certamente não gostava de mim, respeitava a regra da lei, da Constituição. O presidente, hoje, é um homem sem lei. Ele não respeita a instituição da democracia. Prefere homens durões, como Bolsonaro e Vladimir Putin, entre outros. É chocante ter Trump na Casa Branca.

O cotidiano político hoje estaria pior, portanto, que o dos anos 1970? Sim. É inimaginável, nunca pensei que viveríamos à sombra de uma figura como Trump. Nunca pensei que uma grande parte do Partido Republicano, a maioria dos representantes eleitos, decidiria defendê-lo e protegê-lo. É difícil acreditar que essas pessoas estejam pondo a fortuna pessoal à frente dos benefícios para o país.

A desobediência civil, que a senhora defende e promove nas manifestações que tem liderado em Washington, é mesmo o melhor caminho? Mudanças gigantescas aconteceram ao longo da história em virtude de ações de desobediência civil. Para dizer o mínimo, temos os exemplos de Mahatma Gandhi, na Índia, e de Martin Luther King, no sul dos Estados Unidos. Essa forma de agir tem de se tornar o novo normal. Na verdade, pessoas estão vindo de todos os cantos do país para se unir a nós na desobediência civil. Os senadores que apoiam a força-tarefa para lidar com as mudanças climáticas gostam do nosso movimento. Eles nos pedem ajuda. Eles dizem: precisamos de um batalhão, precisamos de pressão vinda da sociedade.

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A senhora ganhou notoriedade ao defender os direitos civis, um dos grandes temas dos anos 1960 e 1970. A briga, agora, é para conter as ações do homem que provocam as mudanças climáticas. São brigas equivalentes? A crise climática afeta todas as outras questões. Não há nenhum aspecto do cotidiano que não esteja sendo afetado pelos danos ao meio ambiente. Por isso decidi deixar tudo de lado e dedicar todas as minhas forças a esse impactante dilema existencial. Não conseguiremos resolver nenhum dos outros problemas até começarmos a nos libertar dos combustíveis fósseis. Temos de fazer isso muito em breve. Não temos tempo a perder.

“A maioria das pessoas presas nos protestos pelo clima são mulheres mais velhas. As mulheres se tornam mais fortes quando amadurecem”

É possível comparar os protestos contra a Guerra do Vietnã com os atuais protestos pela atenção com as questões climáticas? Pôr o corpo na linha de frente, por qualquer causa que seja, é como agir durante uma guerra. Nesse sentido, sim, sinto que estou protestando como se fosse durante os anos do Vietnã.

Como a senhora se aproximou das ideias de Greta Thunberg — ou, dito de outro modo, das manifestações protagonizadas pela adolescente sueca? Há algum tempo, achei que não estava me esforçando o suficiente. Fiz muitas mudanças pessoais na minha vida: estou dirigindo um carro elétrico, eliminei os plásticos de uso único do meu dia a dia, estou consumindo menos carne e peixe. Fiz mudanças individuais, mas intuí que era pouco. Então, decidi agir, a exemplo de Greta Thunberg, a respeito de quem li diversas reportagens e cuja postura me ensinou muita coisa.

O que, por exemplo? A história dela é inspiradora. Sei que Greta está no espectro do autismo e sei o que isso significa sobre sua habilidade de focar um assunto como se fosse um raio laser, de maneira mais precisa do que quem não está no espectro. Ela consegue ver tudo de uma forma muito clara. Aos 11 anos, Greta leu sobre o que estava acontecendo com as espécies de animais e ficou traumatizada. Parou de comer e de conversar. Isso tudo impactou o crescimento de Greta. Quando li isso, sabia que ela havia visto a verdade. Greta convocou as pessoas a deixarem sua zona de conforto, o chamado business as usual. Qualquer pessoa que visse sua casa pegando fogo não agiria normalmente, reagiria como se estivesse em uma crise. Bem, estamos em uma crise evidente e grave, então temos de agir de acordo com o momento. A decisão de morar em Washington é resultado dessa constatação.

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Por que Washington? Por razões óbvias, mas que merecem detalhamento. As mudanças que precisam acontecer são de políticas públicas. A cada sexta-feira, ao modo de Greta, iluminamos tópicos diferentes, como o acesso à água, os direitos das mulheres e dos migrantes. Depois, realizamos ações de desobediência civil. Protestamos nas escadarias do Capitólio e, normalmente, muitos de nós acabam sendo presos.

Greta costuma ser criticada por ser muito jovem, enquanto a senhora está no extremo oposto, com 81 anos. Há uma idade adequada para o ativismo? Não há limites nem para o começo da atividade política nem para o fim. O limite é o fim da vida. Outro dia, o ator mirim Iain Armitage, uma grande estrela nos Estados Unidos, de apenas 11 anos, só não foi preso porque é muito jovem. Mas ele estava protestando e disse que aquela situação, o protesto associado ao risco de cadeia, o fez se sentir bem. Não acredito que haja alguém jovem demais. Meus netos foram presos no último protesto; eles têm 17 e 20 anos. O que está em jogo é o seguinte: o planeta, milhares de espécies, humanos que serão prejudicados de forma muito severa pela crise climática, todos teremos de lutar juntos, independentemente da idade. A maioria das pessoas presas nos protestos são mulheres, invariavelmente mais velhas. As mulheres se tornam mais fortes quando amadurecem.

Ser famosa ajuda? Claro que sim, e não há problema algum nessa condição. Quando as celebridades aparecem, a imprensa logo vem atrás de todos nós e mais gente aprende sobre a crise climática. É um legítimo atalho para conquistar a atenção da mídia e da população.

Há alguma contradição em ter sido a musa da geração fitness, depois de dizer não à Guerra do Vietnã, e agora gritar pelos direitos ambientais? O Jane Fonda Workouts, a série de programas que apresentei nos anos 1980, foi criado para financiar a organização política que o meu então marido, Tom Hayden (1939-2016), fundou na Califórnia. Ela era chamada de “Campanha para a Economia Democrática”. É um título importante. Você pode ter a democracia política, mas talvez não a econômica. Sem ela, com desigualdade econômica, como há no Brasil e nos EUA, como poderemos chamar qualquer democracia de verdadeira? Foi esse o objetivo do Jane Fonda Workouts — e havia nele um cunho profundamente feminista, tenha certeza.

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De que forma? Ao longo da jornada, e com o espetacular sucesso do Jane Fonda Workouts, descobri que as mulheres sentem ter mais controle sobre seu corpo quando começam a se sentir fortes literalmente, ao perceberem segurança em seus músculos. Elas conseguem se defender de uma forma melhor. Lembro de haver recebido a carta de uma mulher que relatou ter descoberto um novo músculo nos braços enquanto estava escovando os dentes. Depois daquele momento, ela conseguiu enfrentar o chefe pela primeira vez na vida — não no braço, claro, mas na retórica. O feminismo permite a uma mulher entender que tem voz. Isso nos ajuda a ser ativistas.

A senhora pretende ficar pelo menos quatro meses em Washington fazendo barulho. Como saber se seu objetivo foi alcançado no fim desse período? Eu já vejo o resultado do que estou buscando. Noto que cada vez mais pessoas tomaram conhecimento da crise climática a partir de nossos protestos e sabem que é preciso mudar as posturas do cotidiano, além de pressionar as autoridades. O time de ativistas não para de crescer. Trata-se de pessoas que arriscam ser presas. Estão agindo, estão falando sobre o que estamos fazendo. A imprensa acordou. É esse o objetivo. Não é para simplesmente sermos presas. A ideia é criar a noção de urgência.

 

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Publicado em VEJA de 18 de dezembro de 2019, edição nº 2665

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