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Trump arrisca votos vitais para sua reeleição com resposta ao coronavírus

Retórica agressiva e pouco fundamentada do republicano dá vantagem a Joe Biden, que representa um modelo de governo totalmente oposto

Por Julia Braun - Atualizado em 15 maio 2020, 13h07 - Publicado em 13 maio 2020, 17h08

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, arrisca perder uma parte vital do eleitorado nas eleições de novembro com sua retórica agressiva e pouco fundamentada pela ciência na resposta de seu governo ao coronavírus. Decepcionados com o desempenho do republicano, americanos independentes e ainda estão indecisos sobre seu voto podem preferir o ex-vice-presidente Joe Biden e desequilibrar a balança em favor dos democratas. Ainda pior, o líder pode perder apoio dentro de seu próprio eleitorado.

“Trump prejudica sua imagem entre os eleitores que ainda estão indecisos ou que votaram nele em 2016, mas já se decepcionaram com seu estilo de governar”, diz o analista político e sociólogo da Universidade Columbia, Robert Y. Shapiro. “Ele mostrou falta de conhecimento e sensibilidade durante a crise atual”.

Para o especialista, a crise econômica enfrentada por Washington também pode afetar a campanha do republicano, que sempre se vangloriou pela redução do desemprego durante seus três primeiros anos de mandato e pela melhoria no padrão de vida dos americanos. Desde que a pandemia atingiu os Estados Unidos, mais de 33 milhões perderam seus postos de trabalhos e a contração de importantes setores da economia americana preocupa cada vez mais.

“Neste momento, o foco está todo na aceitação ou rejeição de Trump”, diz Shapiro. “Um enfraquecimento do atual presidente automaticamente beneficia Biden, independente de seu bom desempenho na campanha.

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“Se Donald Trump continuar tropeçando em sua resposta à pandemia, talvez deixá-lo prejudicar sua própria imagem seja a melhor estratégia para Biden”, avalia Christopher Devine, professor de ciência política da Universidade de Dayton, em Ohio. 

Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada nesta terça-feira 12 mostrou que Joe Biden lidera a corrida à Casa Branca com vantagem de oito pontos porcentuais entre os eleitores registrados – ou seja, entre os que são republicanos e democratas de carteirinha. Segundo o levantamento, 46% disseram que apoiariam o democrata nas eleições do próximo dia 3 de novembro, enquanto 38% votariam em Trump. Esse dado indica que menos republicanos estariam dispostos, neste momento, a ir às urnas em novembro para votar.

A pesquisa ainda apontou um aumento na reprovação do atual presidente: cinco pontos percentuais, de 51% para 56%, desde meados de abril. Os americanos são críticos à maneira pela qual Trump conduz a crise da saúde. De acordo com a pesquisa, aqueles que desaprovam o desempenho de Trump no comando da resposta à pandemia superam os que aprovam por 13 pontos percentuais.

Inicialmente, o republicano minimizou a ameaça do vírus que já matou mais de 80.000 pessoas nos Estados Unidos, o maior número de mortos de qualquer país do mundo. Trump por vezes contradisse especialistas da área médica de seu governo, promoveu tratamentos potenciais que não foram considerados eficientes e chegou até mesmo a sugerir injeções de desinfetante para combater a doença, o que elevou o número de envenenamentos no país.

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O presidente vem ainda travando uma batalha com os governadores democratas ao incentivar a reabertura da economia e o relaxamento das medidas de isolamento social em algumas regiões. Nesta terça, o epidemiologista que lidera a força-tarefa contra o coronavírus na Casa Branca, Anthony Fauci, alertou que a abertura prematura dos Estados Unidos pode trazer “sofrimento e mortes desnecessárias”.

Segundo a pesquisa Reuters/Ipsos, a população vê Trump como um candidato mais forte para a criação de empregos, enquanto Biden é visto como mais preparado nas questões relativas à saúde. Para especialistas, a ideia de que o democrata seria mais capaz de lidar com a atual crise do coronavírus não deriva de suas ações passadas ou de seus discursos conscientes, mas apenas de sua oposição ao modelo de governo seguido pelo atual presidente.

“Trump cometeu muitos erros e mostrou falta de capacidade, enquanto Biden não está no governo, não fez nada e nem pode fazer – por isso também não pode ser criticado”, avalia Robert Y. Shapiro.

“Há sinais de que a população idosa – que é mais vulnerável ​​ao Covid-19 – está se tornando menos favorável a Trump do que durante as eleições de 2016. Se essa tendência continuar, pode se tornar um grande problema para o presidente em novembro”, diz Christopher Devine.

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Longo caminho pela frente

Para o analista político, a vantagem de Biden sobre Trump nas pesquisas ainda é muito pequena e  pode mudar até novembro. Nos Estados Unidos, o vencedor das eleições não é escolhido por voto direto, e sim por um sistema de colegiado. Cada estado do país vale uma determinada quantidade de “delegados” para o colégio eleitoral — o cálculo leva em conta o tamanho de sua população. Com isso, alguns estados se tornam especialmente importantes para os candidatos, por terem mais peso. Outros, tradicionalmente instáveis entre republicanos e democratas, tendem a definir a eleição.

Em 2016, Trump perdeu de Hillary Clinton em votos absolutos, mas ganhou em alguns estados-chave, que lhe deram maior número de delegados – ainda que as pesquisas de opinião mostrassem uma vitória clara da ex-secretária de Estado no colégio eleitoral. Neste ano, os democratas precisam recuperar algumas das regiões que foram essenciais para a vitória republicana há quatro anos, como Wisconsin, Pensilvânia e Michigan, para conquistar a Casa Branca.

Desde que Biden se tornou o adversário oficial do presidente Donald Trump, os principais políticos democratas se uniram em torno do ex-vice-presidente para angariar o  apoio da população e fortalecer sua campanha contra o republicano. Os principais ex-pré-candidatos do Partido Democrata, entre eles Bernie Sanders, Elizabeth Warren e Pete Buttigieg, deram seu apoio a Biden, assim como Hillary Clinton e o ex-presidente Barack Obama.

Com essa grande rede de apoio, o político de 77 anos espera consiguir número suficiente de delegados para bater Trump nas eleições marcadas para novembro. Biden, porém, viu sua campanha ser ameaçada no mês passado por acusações de assédio sexual, que podem continuar a prejudicá-lo até novembro.

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Uma californiana chamada Tara Reade, que trabalhou como assessora de equipe no escritório de Biden no Senado de dezembro de 1992 a agosto de 1993, acusou Biden em entrevistas à imprensa de pressioná-la contra uma parede, colocar a mão por baixo de sua saia e penetrá-la com os dedos em 1993. Após semanas de silêncio, o democrata se pronunciou no início de maio e negou as denúncias – mas o prejuízo causado à sua imagem não foi apagado.

“As lideranças democratas precisam ser mais enfáticas ao rejeitar as alegações e se concentrar mais nas eleições”, diz o professor e analista político da Universidade de Columbia. “Se elas não fizerem isso, o escândalo persistirá e o partido pode perder eleitores.”

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