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Tropas rebeldes estão prestes a tomar Trípoli, na Líbia

Dividido desde a queda de Muamar Khadafi, em 2011, país está à beira de um novo conflito armado; ONU pede diálogo, calma e prudência

As forças do Exército Nacional da Líbia (ANL), leais ao marechal Khalifa Haftar, estão a apenas 27 quilômetros de Trípoli. A tomada do Governo de União Nacional (GNA), atualmente conduzido com apoio internacional, é iminente. Desde a queda do ditador Muamar Kadafi, em 2011, Haftar controla a porção leste do país.

“Chegou a hora”, disse o marechal em mensagem de áudio na página do Facebook de seu Exército Nacional Líbio (ANL).

O ANL deve “limpar o oeste” da Líbia, inclusive a capital Trípoli, de “terroristas e mercenários”, havia anunciado o marechal rebelde na véspera.

O comandante de operações militares do ANL na região oeste do país, general Abdesalem al Hassi, confirmou que suas forças assumiram, sem a necessidade de lutar, o controle de um posto de segurança a essa distância de Trípoli.

O marechal Haftar havia ordenado o avanço de suas tropas sobre capital. As forças leais ao governo asseguravam estar dispostas a deter a ofensiva. Em visita à Líbia, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, manifestou-se “vivamente preocupado” pelo “risco de enfrentamento” armado, em um país em caos desde a queda de Kadhafi.

Guterres reuniu-se em Trípoli com o líder do GNA, o primeiro-ministro Fayez Sarraj, e fez um apelo “à calma e à prudência”. “Não existe uma solução militar”, reafirmou. “Só o diálogo entre os próprios líbios pode resolver os problemas líbios”.

Devido à escalada, o Reino Unido pediu nesta quinta-feira, 4, uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU sobre a Líbia, informaram fontes diplomáticas. A reunião deve ocorrer na sexta-feira, 5. Estados Unidos, França, Reino Unido e Emirados Árabes haviam pedido a todas as partes envolvidas na Líbia a redução das tensões, depois que o marechal líbio ordenou o avanço de suas tropas.

“Neste momento delicado da transição na Líbia, a postura militar e as ameaças de ações unilaterais só fazem aumentar o risco de a Líbia voltar a mergulhar no caos”, indicaram os governos destes quatro países, em um comunicado difundido pelo Departamento de Estado, em Washington.

Guerra à vista

Poderosos grupos armados da cidade de Misrata, que estão a caminho de Trípoli e são leais ao Governo de União Nacional (GNA), se declararam “dispostos” a frear o avanço das tropas de Khalifa Haftar. O ministério do Interior do GNA decretou “estado de alerta máximo” e ordenou a todos os seus órgãos e unidades de segurança “enfrentar com força e firmeza qualquer tentativa de ameaça contra a segurança da capital”.

Duas autoridades disputam há anos o poder na Líbia: no oeste do país, o GNA, estabelecido no final de 2015, mediante um acordo patrocinado pela ONU e com sede em Trípoli; no leste, a autoridade rival do Exército Nacional Líbio (ANL), do marechal Haftar.

Os combatentes de Misrata “estão dispostos a (…) frear o maldito avanço” das forças do marechal rebelde, informou um comunicado cuja veracidade foi confirmada pelo chefe do Conselho Militar de Misrata, general Ibrahim Ben Rajab.

Os soldados, diz o texto, pediram a Sarraj que dê “ordens imediatas” aos comandantes das forças da região ocidental “para enfrentar este rebelde”. “Se (Sarraj) se abstiver de fazê-lo imediatamente (…), será suspeito de cumplicidade com Haftar”, acrescentaram estas forças pró-governamentais.

Segundo testemunhas e fontes militares, um comboio do ANL chegou a Gharyan, a 100 quilômetros de Trípoli. O general Hassi informou que  suas tropas entraram na cidade sem disparar um tiro. Mas pelo menos quatro fontes da cidade negaram esta afirmação, e uma autoridade local explicou que estava negociando “para evitar um confronto” entre as milícias rivais que dividem a cidade.

O ANL se impôs como um ator-chave no complexo cenário militar líbio. Em janeiro, já tinha lançado uma ofensiva contra o sul da Líbia, com o propósito de limpar esta zona, rica em hidrocarbonetos, de “terroristas” e “criminosos”.

Haftar e Sarraj concordaram no ano passado em realizar eleições gerais, que acabaram não acontecendo.