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Senadores americanos acusam príncipe saudita pela morte de Khashoggi

Jornalista planejava espalhar contra-propaganda do regime de Riad e criar um portal para denúncias de abusos aos direitos humanos

Senadores dos Estados Unidos acusaram nesta terça-feira, 4, o príncipe herdeiro saudita, Mouhammed bin Salman, de ordenar a morte do jornalista Jamal Khashoggi. A acusação se deu logo ao final de uma reunião dos legisladores com a diretora da CIA, Gina Haspel, na qual foram apresentadas evidências sobre o assassinato ocorrido no Consulado da Arábia Saudita em Istambul, Turquia, no início de outubro.

Ao deixar o encontro com Haspel, o senador republicano Lindsey Graham, defendeu que o governo dos Estados Unidos caia encima da Arábia Saudita com “uma tonelada de tijolos” e suspenda a venda de armas para Riad, como já fez a Alemanha. A Casa Branca, inicialmente dura com o governo saudita, flexibilizou recentemente sua posição.

“Eu acredito que ele (Salman) é cúmplice no homicídio de Khashoggi no mais alto nível possível”, afirmou Graham, que chamou o príncipe saudita de “bola de demolição”.

Os demais senadores que participaram do encontro com Haspel seguiram a conclusão do veterano legislador da Carolina do Sul.  Os republicanos, em especial, se manifestaram sobre o assunto, como registraram os jornais The New York Times e Washington Post.

“Se o príncipe herdeiro viesse diante de um juri, ele seria condenado em 30 minutos”, afirmou o também republicano Bob Corker, presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado. “Todas as evidências apontam para isso, e tudo se volta para o príncipe herdeiro”, disse o republicano Richard Shelby, presidente do Comitê de Apropriações Orçamentárias do Senado.

A CIA concluiu que a ordem para matar Khashoggi partiu de Salman e teria sido motivada pelo conteúdo de mensagens entre o jornalista e um colaborador interceptadas pelos sauditas. Na segunda-feira, a rede de televisão CNN publicou uma ampla reportagem sobre as mais de 400 mensagens no WhatsApp trocadas entre Khashoggi e o ativista saudita Omar Abdulaziz, residente em Montreal, Canadá.

Ambos estavam engajados em um plano de contra-propaganda do regime saudita, por meio das redes sociais, voltado para jovens residentes na Arábia Saudita. O sistema criado por eles foi apelidado de “cyber bees” (abelhas cibernéticas, em tradução livre) nas primeiras conversas, quando pretendiam criar um portal para a documentação de casos de abusos de direitos humanos. Abdulaziz sugeriu o uso do Twitter.

“Não temos Parlamento; Temos apenas o Twitter. O O Twitter é o único instrumento que eles estão usando para combater e espalhar rumores. Nós temos sido atacados, nós temos sido insultados, nós temos sido ameaçados muitas vezes, e nós decidimos fazer algo”, escreveu ele a Khashoggi.

O esquema envolveria o envio de cartões SIM para dissidentes na Arábia saudita. Também abrangia a coleta de recursos. O “cyber bees”, no vocabulário de ambos, tornou-se “exército eletrônico”. Nas mensagens, o príncipe herdeiro era chamado de MBS (as iniciais de seu nome) e também como “pac-man”, personagem de vídeo game dos anos 1980.

“Ele é como um pac man feroz, quanto mais vítimas ele come, mais ele quer”, escreveu Khashoggi em maio passado. “Eu não ficaria surpreso se a opressão alcançar aqueles que estão torcendo por ele”, completou.

‘Deus nos ajude’

O plano não deu certo porque as mensagens foram interceptadas. Conforme publicou a CNN, Abdulaziz expôs publicamente seu contato com Khashoggi depois de pesquisadores do Laboratório de Cidadania da Universidade de Toronto terem concluído que seu telefone celular fora invadido por um programa de espionagem militar.

O software teria sido criado pela empresa israelense NSO Group e implantado no celular de Abdulaziz a mando do governo saudita, segundo o pesquisador Bill Marczak, do Laboratório da Cidadania.

“A invasão do meu telefone teve a maior importância no que aconteceu com Jamal, infelizmente devo dizer. A culpa está me matando”, afirmou Abdulaziz à CNN.

Em agosto passado, Abdulaziz recebeu mensagem de autoridades do governo saudita que diziam estar cientes do seu projeto com Khashoggi.

“Como eles sabem”, perguntou o jornalista?

“Eles devem ter encontrado uma lacuna”, respondeu Abdulaziz.

“Deus nos ajude”, finalizou Khashoggi.

Três meses antes, Abdulaziz fora abordado por emissários do governo saudita, que lhe pediram um encontro em Montreal. Khashoggi o aconselhou a marcar em um lugar público e jamais aceitar ir a um local isolado. De fato, os sauditas propuseram a Abdulaziz que fosse à Embaixada da Arábia em Ottawa.

Em 2 de outubro, Khashoggi ingressou no consulado saudita em Istambul para colher documentos para seu casamento. Deixou a noiva à sua espera, do lado de fora. Ele jamais saiu vivo do prédio. Gravações e evidências colhidas por várias agências de inteligência, entre as quais a CIA, mostram que o jornalista foi assassinado por uma equipe de agentes enviados especialmente por Riad para esta missão. Seu corpo foi esquartejado por um perito saudita dentro do consulado e dissolvido.

As promotores e policiais da Turquia continuam a investigar o caso, já de posse dessas informações.