Clique e Assine por apenas R$ 0,50/dia

Rajendra Pachauri, o Nobel do assédio

Laureado com o prêmio da Paz, pai de três meninas, secretário-geral do órgão de mudanças climáticas da ONU é acusado de abuso sexual

Por Jennifer Ann Thomas 28 fev 2015, 01h00

O engenheiro e economista indiano Rajendra Pachauri era visto por seus pares como um líder rigoroso, sujeito incansável na luta contra o aquecimento global. Aos 74 anos, casado e pai de três meninas, ganhou destaque inicialmente como diretor-geral da Teri, instituição indiana que há quatro décadas é bastião das pesquisas de climatologia. Tornou-se mundialmente conhecido como presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU, desde 2002. Há oito anos recebeu, em nome do IPCC, o Nobel da Paz. Na semana passada, o mundo de Pachauri começou a derreter. Uma ex-funcionária da Teri, de 29 anos, denunciou-o por assédio sexual. Em seguida, como é comum em acusações desse tipo de crime, outras duas mulheres também se manifestaram. Pachauri, informam os relatos, cometia abusos fazia pelo menos dez anos, com preferência por jovens com parca experiência profissional. O detalhamento feito pelas vítimas, assombroso, manchou em definitivo a imagem do cientista e pode ferir também a credibilidade das duas respeitadas instituições que ele comanda.

Ao menos duas das vítimas dos assédios apresentaram dezenas de e-­mails e mensagens de SMS enviados pelo cientista a elas nas quais ele claramente abusava de seu poder para forçar a aproximação (veja parte dessas conversas no quadro na pág. ao lado). Escreveu Pachauri em um dos e-mails: “O que me assombra são as suas palavras da última vez que ‘apalpei’ seu ‘corpo’. Isso seria aplicável a alguém que te molestaria. Eu te amei em alma”. Os advogados do cientista alegaram que ele teria sido hackeado, com alguém fazendo-se passar por ele nas mensagens. Existe a possibilidade de um reputado líder da ONU ser alvo de hackers? Sim. Mas supostos criminosos invadiriam e-mails e celulares ao longo de dez anos apenas com o intuito de ofender diversas de suas funcionárias, e sem ser notados? Pouquíssimo provável.

O assédio virtual era o atalho para agressões que, com alguma frequência, se davam nas instalações da Teri, em Nova Délhi. Diz uma das vítimas, que trabalhou no edifício em 2005: “Ele me atacou, fez isso com outras. Suas investidas físicas e atitudes, normalmente simplificadas como ‘comportamento inapropriado’, eram de conhecimento comum e se transformaram em fofoca de corredor”. Segundo outra ex-­funcionária, que disse ter sido alvo dos ataques em 2013, Pachauri tinha o hábito de “levantar as mulheres como se fossem crianças; algumas saíam correndo ao ver que ele se aproximava”. O diretor-geral da Teri pedia para colocar as jovens escolhidas por ele no 5º andar do prédio, o que resultou na infame alcunha de “as meninas do 5º andar”. Depois de ingressar na empresa, a maioria dessas “meninas” começava a receber e-mails, SMS e ligações do chefe, incluindo convites para jantar com bons vinhos. De acordo com as testemunhas, o cientista chegou a abraçar, apalpar, agarrar e beijar à força suas vítimas.

Arte SMS Pachauri
Arte SMS Pachauri VEJA

Não há, evidentemente, relação direta entre a postura pessoal de Pachauri e suas atividades profissionais, mas também nesse campo ele atraíra dúvidas. Logo depois da premiação com o Nobel, em 2007, foram apontados erros crassos em dados apresentados no relatório divulgado pelo IPCC a cada seis anos sobre a situação climática do planeta. Dois anos depois, vazaram e-mails de cientistas do IPCC que indicavam a participação do secretário-geral em um esquema de manipulação de informações. Suspeita-se que Pachauri tenha forçado a barra para que o já catastrófico cenário de aquecimento global, provocado pelo ser humano, ficasse com contornos ainda mais apocalípticos. “Quando acredito em algo, defendo. Não fujo”, disse ele a VEJA, no ano passado, em resposta às acusações de controle das informações, que considera exageradas por apontarem apenas equívocos pontuais. Pachauri conseguiu contornar a situação e manter-se na presidência da instituição. Isso até surgirem as acusações de assédio sexual. No dia seguinte ao da manifestação da primeira funcionária, na terça-feira 24, ele renunciou ao cargo.

É natural que, depois do escândalo, se tema até pelo futuro de entidades como a Teri e o IPCC, mesmo porque, sabe-se agora, muita gente se calou, durante muito tempo, a respeito do mau comportamento do chefe, quase sempre por medo, obviamente. Não é correto, contudo, jogar os erros de Pachauri nas costas dos milhares de pesquisadores sérios envolvidos com os estudos do IPCC. Seria o mesmo que atribuir aos funcionários do Fundo Monetário Internacional os crimes sexuais cometidos pelo ex-presidente do órgão, o francês Dominique Strauss-Kahn, acusado de atacar mulheres. Diz o climatologista brasileiro Jean Ometto, do IPCC, em opinião compartilhada por seus colegas: “O escândalo sexual é problemático, mas não pode comprometer a solidez e a relevância de nosso trabalho científico”. Em outras palavras: sim, Pachauri deve ser punido se for comprovada a culpa; mas a atitude estúpida do até então renomado climatologista não deve, de forma alguma, prejudicar as pesquisas que procuram evitar ou ao menos mitigar os efeitos catastróficos das inegáveis mudanças climáticas que afetam toda a Terra.

Para ler outras reportagens compre a edição desta semana de VEJA no tablet, no iPhone ou nas bancas. Tenha acesso a todas as edições de VEJA Digital por 1 mês grátis no iba clube.

Outros destaques de VEJA desta semana

Continua após a publicidade
Publicidade