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Quanto mais selvagem, melhor: a tendência do ‘rewilding’ nas metrópoles

Grandes centros estão trocando parques e jardins por “matas” onde a vegetação cresce à vontade. Conceito protege o meio ambiente e agrada aos olhos

Por Ernesto Neves Atualizado em 19 nov 2021, 16h14 - Publicado em 21 nov 2021, 08h00

Milhões de moradores de Barcelona, como de boa parte do mundo, passaram meses trancados em casa no ano passado, em lockdown rigoroso por causa da pandemia. Ao saírem, tiveram uma surpresa. Sem humanos por perto, os pássaros e pequenos roedores tomaram conta dos parques, onde plantas e flores puderam crescer e desabrochar à vontade. A população de borboletas duplicou e a biodiversidade local deu um salto de 28%. A impressionante explosão ecológica promoveu uma virada de consciência: antes resistentes à ampliação dos santuários silvestres, temendo a volta de bichos indesejáveis, os barcelonenses passaram a apoiar a ideia e a prefeitura já pôs várias iniciativas do gênero em andamento. A experiência catalã de rewilding, como é chamada a recuperação de biomas mais selvagens (wild, em inglês), vem se repetindo em diversas metrópoles, como uma forma natural, simpática e inclusiva de preservar o fustigado meio ambiente.

Visto como o que há de mais moderno em urbanismo, o rewilding pretende redefinir o conceito de área verde: saem os jardins impecáveis e gramados bem aparados, entra a vegetação natural da região, que cresce sem poda, irrigação nem pesticidas, permitindo que o ecossistema encontre seu equilíbrio. Em pouco tempo, insetos, pássaros, peixes e outros animais retornam ao hábitat, criando um vigoroso ciclo de biodiversidade. Em Barcelona, a prefeitura plantou árvores ao longo de ruas e avenidas, criando corredores verdes para os animais se locomoverem. Além disso, uma área de 780 000 metros quadrados de espaço subaproveitado, como estacionamentos, está sendo transformada em mata, onde funcionários de parques espalham colmeias e abrigos para pássaros e morcegos. Na Alemanha, as cidades de Frankfurt, Hanover e Dessau integram o experimento Cidades que Se Aventuram na Vida Silvestre, que consiste em deixar plantar à vontade em qualquer espaço vazio. O resultado é a multiplicação de áreas floridas e verdes, embelezando tudo, inclusive fábricas abandonadas. “O rewilding ajuda a resolver três dos maiores desafios do nosso tempo: a perda de biodiversidade, o superaquecimento urbano causado pelo concreto e as mudanças climáticas”, diz o arquiteto Steffen Lehmann, do Instituto de Tecnologia de Berlim.

ARVOREDO MODERNO - Em Singapura, estruturas imitando árvores, com “copas” iluminadas à noite, sustentam o crescimento de milhares de plantas tropicais em meio a enormes parques-jardins à beira-mar -
ARVOREDO MODERNO – Em Singapura, estruturas imitando árvores, com “copas” iluminadas à noite, sustentam o crescimento de milhares de plantas tropicais em meio a enormes parques-jardins à beira-mar – Nido Huebl/Shutterstock

O conceito se adapta a diferentes orçamentos e escalas. Uma das megalópoles de maior densidade demográfica do mundo, Singapura investiu 1 bilhão de dólares em estruturas de até 50 metros de altura, as superárvores, que dão suporte a 158 000 plantas tropicais. Wellington, na Nova Zelândia, instalou em pleno perímetro urbano uma floresta nativa exuberante que ocupa área equivalente a 220 campos de futebol. Uma vertente mais radical do rewilding defende a ideia de que a natureza se integre até ao concreto das construções — formato levado ao pé da letra nas torres do Bosco Verticale (Floresta Vertical), em Milão, um espigão verde no centro do Porta Nuova, o coração financeiro da cidade, que ostenta mais de 900 árvores nas sacadas e uma profusão de aves quase nunca vistas ali, como os pica-paus. Em Sydney, na Austrália, outro conjunto residencial, o One Central Park, de 623 apartamentos, exibe um dos maiores jardins verticais do mundo, com 35 200 plantas de 383 espécies crescendo nas paredes. “Além da multiplicação de animais, os estudos também mostram impactos positivos para a saúde mental dos moradores, reduzindo níveis de stress e depressão”, frisa Jacob Mills, do Instituto de Meio Ambiente da Universidade de Adelaide, na Austrália.

O rewilding também vem sendo usado para reverter desequilíbrios ambientais. Quando a crescente mortalidade de abelhas na Irlanda pôs um terço das espécies à beira da extinção, os moradores de Dublin iniciaram um mutirão para plantar mais de 100 milhões de mudas silvestres, além de espaçar a manutenção dos jardins. O amontoado inédito de plantas incomodou os mais conservadores — paisagismo, no país, é paixão nacional. Mas o rápido retorno das abelhas quebrou resistências e o projeto hoje é tocado até em escolas. Rewilding tem sido ainda a palavra mágica na restauração das margens do Tâmisa, em Londres, rio que a despoluição ressuscitou depois de ser declarado biologicamente morto nos anos 1960. Uma medida consistiu em remover concreto usado para canalizar afluentes e plantar vegetação silvestre no lugar. Simples e eficiente: a troca multiplicou em 450% a população de pássaros como o martim-pescador, além de trazer de volta peixes e morcegos. Em 2022, roedores há tempos extintos vão ser reintroduzidos na nova área verde. Aos poucos, cidades e vida selvagem deixam de ser incompatíveis.

Publicado em VEJA de 24 de novembro de 2021, edição nº 2765

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