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Peter Hakim: Os americanos estão ressabiados com Bolsonaro

No artigo abaixo, o presidente emérito da ONG Diálogo Interamericano afirma que o entusiasmo com o presidente está minguando até na Casa Branca

O Brasil não importa muito aos Estados Unidos, ­como a maioria das nações latino-americanas. Jamais foi visto como uma ameaça à segurança nem como país com imensa oportunidade econômica. Raramente desempenhou o papel de parceiro essencial nos assuntos regionais e internacionais. Embora sejam amistosos, os laços entre Estados Unidos e Brasil são marcados por uma cooperação limitada em itens de importância secundária, pelas inúmeras áreas de discordância e por algumas desagradáveis colisões. Essas relações se tornaram especialmente frias e distantes nos últimos seis anos, período em que Brasília se concentrou em suas crises de governança e econômica e deixou os Estados Unidos ressabiados de engajar-se com o país. Nesse intervalo, Washington orientou suas prioridades para as nações em guerra do Oriente Médio e as ameaças terroristas, para o crescimento rápido da China e os desafios de segurança impostos por Pequim, Moscou e Teerã.

A reação entusiástica do presidente Trump à vitória de Jair Bolsonaro na eleição de 2018 não chegou a ser uma surpresa. Ele parecia ter encontrado um homem forte com quem se entrosar na América Latina. Chamado de “Trump tropical”, Bolsonaro compartilha com o americano o temperamento explosivo, a falta de bons modos, o intenso nacionalismo e a visão de extrema direita. Bolsonaro apoiou incondicionalmente as medidas de política externa da Casa Branca, seja para refrear o Irã, seja para conter a China ou para dar completo aval a Israel. Da negação da mudança climática à pressão pela queda do regime da Venezuela, Bolsonaro alinhou sua agenda à americana e até propôs a instalação de uma base dos EUA no Brasil, rapidamente vetada pelos líderes militares.

Logo após o triunfo de Bolsonaro, Trump lhe telefonou para propor que as duas nações se posicionassem “lado a lado” como “líderes regionais das Américas”. Em março, Bolsonaro viajou a Washington para sua primeira visita bila­teral, quebrando a tradição brasileira de priorizar Buenos Aires. Promessas extravagantes de amizade e de colaboração foram feitas, e a visita foi um exercício incomum de camaradagem entre os dois gigantes do hemisfério.

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No entanto, nem todos os americanos compartilham a visão da Casa Branca sobre Bolsonaro. Menos de dois meses depois, ele voaria a Nova York para ser homenageado pela Câmara de Comércio Brasileira-Americana. Assim que a agenda se tornou pública, a cerimônia foi alvo de protestos e de editoriais contra seus planos de reduzir a proteção à Floresta Amazônica. Bolsonaro foi acusado de racismo, indiferença aos direitos humanos e desrespeito às mulheres, aos indígenas e à comunidade LGBT. Sua apologia dos 21 anos de ditadura militar no Brasil foi duramente criticada. O prefeito de Nova York declarou que ele não seria bem-vindo. O Museu de História Natural cancelou o contrato para sediar o evento, transferido para Dallas, e empresas americanas retiraram o apoio financeiro à cerimônia. Trump, claro, foi igualmente alvo da retórica condenatória dirigida a Bolsonaro.

“A indicação do próprio filho para Washington levanta dúvidas sobre a tomada de decisões por Bolsonaro”

Mesmo na Casa Branca de Trump, o entusiasmo pelo presidente do Brasil está minguando. Seus sete meses no governo revelaram-se caóticos, com conflitos entre seus colaboradores e escândalos que envolveram seus familiares e principais ministros. Os líderes do Congresso — e não do Executivo — encaminharam e gerenciaram a aprovação na Câmara dos Deputados da reforma da Previdência, a legislação mais relevante a tramitar em anos. A aprovação de Bolsonaro nas pesquisas de opinião, embora ainda respeitável, tem caído desde sua posse.

Bolsonaro também foi forçado a recuar em suas promessas de alinhar as políticas do Brasil às dos Estados Unidos. Ele reverteu a decisão de retirar o país do Acordo de Paris sobre Mudança do Clima, o que poderia ter ameaçado a conclusão do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia. Não conseguiu travar a rápida expansão do comércio e dos vínculos tecnológicos entre o Brasil e a China e adiou a mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém quando se deu conta de que os 10 bilhões de dólares em exportações brasileiras para o Oriente Médio correriam perigo e depois de alertado sobre o potencial risco de o Brasil atrair o terrorismo jihadista.

Washington está ciente do poder e do prestígio limitados do Brasil na América Latina. Apesar de seu tamanho, população e riqueza, o país atualmente não exerce liderança real na região. Sua contribuição para a solução da crise da Venezuela, o desafio mais crítico dos Estados Unidos na América do Sul, não é maior que a de meia dúzia de outras nações. Líderes latino-americanos mais moderados e pragmáticos estão cautelosos com Bolsonaro e sua agenda de extrema direita e perturbados com sua idolatria ao governo de Trump, que humilha e ofende os países da região.

Em vez de construir uma parceria robusta com os Estados Unidos, a trajetória de Bolsonaro pode levar o Brasil a enfrentar uma enorme indiferença de Washington. Sim, Trump disse querer um acordo de livre-comércio com o Brasil. Mesmo que o Brasil consiga encontrar nas regras do Mercosul um meio para negociar bilateralmente, as conversas se estenderão por muitos anos e vão requerer do país a abertura de uma economia altamente protegida. Washington terá de remover velhas barreiras agrícolas politicamente sensíveis. O acordo não será fácil de ser alcan­çado, como os ex-líderes dos dois países atestam.

Se Trump for derrotado na eleição de 2020, o presidente brasileiro poderá ver-se diante de um governo democrata hostil. Principalmente se continuar a expressar-se a favor do trabalho infantil, do fim das proteções aos povos indígenas e da prisão ou expulsão de jornalistas do país e a negar as provas científicas do aumento acentuado do desmatamento da Amazônia brasileira neste ano. É difícil prever como o plano de Bolsonaro de preencher o posto vital de embaixador do Brasil nos Estados Unidos com o nome de seu filho, que não tem o mínimo preparo ou experiência para o cargo, poderá afetar os laços bilaterais. Alguns argumentam que isso facilitará a comunicação entre Trump e Bolsonaro. Mas não existe nenhum problema nessa área. Os presidentes e seus auxiliares já têm acesso fácil entre eles. O filho do presidente será julgado, sobretudo, por sua capacidade de levar adiante as múltiplas e complexas tarefas de um embaixador em Washington. Até agora, essa indicação somente serve para levantar dúvidas sobre o processo de tomada de decisões do próprio Bolsonaro.

* Peter Hakim é presidente emérito do Diálogo Interamericano, ONG americana de lobby político

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2019, edição nº 2648