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Peru terá disputa entre extrema direita e extrema esquerda no 2º turno

Keiko Fujimori, herdeira política de Alberto Fujimori, enfrenta Pedro Castillo, professor sindicalista que chocou ao superar candidatos mais bem colocados

Por Amanda Péchy Atualizado em 13 abr 2021, 12h20 - Publicado em 13 abr 2021, 12h13

Com quase 100% das urnas apuradas após o primeiro turno das eleições presidenciais, o Peru recebeu uma notícia inesperada nesta terça-feira, 13. Ao lado de Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente condenado por corrupção Alberto Fujimori, quem passou para a segunda etapa da disputa foi Pedro Castillo, um dos piores cotados entre os dezoito candidatos, segundo pesquisas eleitorais.

Os últimos levantamentos antes do primeiro turno mostravam que o professor não passava de 3% das intenções de voto, nos melhores cenários. Contudo, na disputa de domingo, ele obteve 18,47% dos votos (em 84% de apuração). Keiko veio na lanterna, com 13,12%, sendo quase ultrapassada por outros dois candidatos de extrema direita.

Castillo, praticamente desconhecido antes do dia da votação, foi o favorito nas áreas mais pobres do país, vencendo em 16 das 24 regiões do Peru e por mais de 50% em dois dos estados andinos mais pobres. Ele só se tornou uma figura proeminente em 2017, durante uma greve de professores por salários mais dignos, e anunciou que concorreria à presidência pelo partido de esquerda Peru Livre em outubro passado.

Segundo a imprensa local, Castillo, professor de extrema esquerda e líder sindicalista, surfou na onda de descontentamento em relação à gestão da pandemia de coronavírus e à economia abatida. Durante 2020, o PIB encolheu 11% e o desemprego subiu para 13,8%.

“A venda acabou de ser tirada dos olhos do povo peruano”, disse ele, comemorando a vitória em sua cidade natal, Tacabamba, na região montanhosa de Cajamarca.

“Muitas vezes ouvimos que apenas cientistas políticos, constitucionalistas, políticos eruditos, aqueles com grandes diplomas podem governar um país. Eles já tiveram tempo suficiente no poder”, completou.

Antes do pleito, o candidato mais vitorioso era a indecisão. Pesquisas de intenção de voto mostravam que votos brancos, nulos e indecisos somam de 30% a 40%, uma rejeição niilista da profusão de opções. Até seis candidatos tinham mais chances de passar para o segundo turno, nenhum dos quais atingia sequer 15% de preferência – e dentre os quais Castillo não constava.

O jornalista peruano e analista político Diego Salazar publicou no jornal The Washington Post que “o descontentamento não é sinal só da rejeição da classe política, mas de uma rejeição mais ampla e geral das elites”, que “têm o controle e a liderança nos assuntos do país” e “nos traíram repetidamente”.

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Por isso, pode ser que o discurso antissistema de Castillo tenha surtido efeito, capturando o descontentamento, a raiva e a preocupação do eleitorado mais afetado pela pandemia.

O Peru é líder mundial em excesso de mortes por milhão de habitantes, segundo o jornal The Financial Times, e nem 2% da população foi vacinada contra a Covid-19Para piorar: a elite política se envolveu no escândalo do “Vacinagate”, em que mais de 100 funcionários públicos e suas famílias, entre eles o ex-presidente destituído Martín Vizcarra, obtiveram doses do imunizante de forma ilegal e privilegiada.

Por outro lado, Keiko Fujimori é defensora do livre mercado (inclusive na oposição a restrições da pandemia) e educada nos Estados Unidos. Ela propôs impulsionar a economia com dois projetos de mineração bloqueados, também criando 2 milhões de empregos na construção de escolas, centros médicos e estradas.

A líder do partido Força Popular havia prometido abordar o crime e a corrupção com “punho de ferro”, enquanto ela própria está sendo investigada por lavagem de dinheiro e foi presa preventivamente no âmbito da Lava Jato peruana. Ela nega todas as acusações.

Como seu pai, uma figura altamente polêmica. Alberto Fujimori, presidente do Peru na década de 90 (momento em que chegou a dar um autogolpe para ficar mais no poder), foi condenado a 23 anos de prisão por assassinatos por esquadrões da morte e corrupção desenfreada.

Desde o estabelecimento do sistema neoliberal em 1992, todos os seus ex-governantes foram ou estão sendo processados ​​ou presos por atos de corrupção, com exceção de um que se suicidou para não ser preso e outro que morreu. O cientista político peruano Alberto Vergara descreveu a população como “cidadãos sem república”. 

Castillo também não é imaculado: o professor é acusado de associação à MOVADEF, aliança solidária ao Sendero Luminoso, considerado um grupo terrorista pelo Peru, Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia.

A perspectiva de uma disputa polarizada, entre extrema direita e extrema esquerda, não é o melhor dos cenários. Com o ambiente político instável há anos – chegou a ter três presidentes em uma semana no ano passado –, a situação pode se deteriorar.

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