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‘Vacinagate’: mais de 100 membros do governo do Peru imunizados em segredo

Comissão de investigação revela que líderes das equipes de testes clínicos e políticos da área da Saúde deram a amigos e parentes acesso indevido a vacinas

Por Da Redação Atualizado em 26 fev 2021, 12h00 - Publicado em 26 fev 2021, 11h55

Uma comissão criada para investigar vacinações irregulares no Peru revelou na quinta-feira 25 que ao menos 101 funcionários do governo, seus familiares e outros convidados foram imunizados contra o novo coronavírus clandestinamente. Entre os membros de alto escalão que se envolveram no esquema, apelidado de “Vacinagate”, está o ex-presidente Martín Vizcarra.

O fármaco utilizado é o desenvolvido pela chinesa Sinopharm. A empresa enviou doses ao país para desenvolver os ensaios clínicos da então candidata a imunizante, além de 3.200 doses para que as equipes encarregadas dos testes pudessem inocular seus pesquisadores.

Entretanto, 1.200 dessas doses foram entregues à embaixada chinesa no Peru. As 2.000 vacinas restantes foram enviadas aos centros de pesquisa das universidades Cayetano Heredia e Mayor de San Marcos, que realizariam o ensaio com 12.000 voluntários.

O apelido “Vacinagate” é uma referência ao caso Watergate, escândalo político nos Estados Unidos que culminou com a renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974.

Decifrando o ‘Vacinagate’

Fernando Carbone, presidente da comissão de investigação nomeado pelo Ministério da Saúde, informou que a Universidade Cayetano Heredia enviou uma lista de 470 pessoas que receberam a inoculação com esse lote de então candidatas a vacina.

“Dessas 470 pessoas, 369 fazem parte das equipes que desenvolveram os testes. As outras 101 são os chamados relacionados, que são funcionários do Ministério da Saúde, do Ministério das Relações Exteriores, parentes de ambos, e convidados que não são parentes deles”, detalhou Carbone.

Entre os 101 “relacionados” estão Vizcarra, sua esposa e seu irmão. Entre os funcionários que não tiveram relação direta com os ensaios clínicos estão os ex-ministros da Saúde Pilar Mazzetti e das Relações Exteriores Elizabeth Astete, que renunciou logo após a descoberta do ‘Vacinagate’, há duas semanas.

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Na semana passada, o governo peruano há havia retirado de seus postos 16 funcionários públicos vacinados de forma irregular. A primeira fase de vacinação no Peru tem os profissionais de saúde como grupo prioritário, mas o próprio presidente interino Francisco Sagasti, aos 76 anos, foi vacinado publicamente na última terça-feira 9, o primeiro dia de imunização no país. Na ocasião, o líder interino incentivou os peruanos a aderirem à campanha de vacinação.

Como essas pessoas obtiveram acesso à vacina?

O presidente da comissão afirmou ainda que foram os líderes das equipes de pesquisa dos laboratórios que convidaram os “relacionados” a se vacinarem. Entre os responsáveis estão Germán Málaga, pesquisador principal da Universidade Cayetano Heredia, Hugo García e Arturo Bustos, da mesma instituição, e Eduardo Ticona, pesquisador principal da Universidade San Marcos.

Entretanto, também havia duas ligações nos ministérios: o conselheiro de imunização, Carlos Castillo, e o diretor de ciência e tecnologia do Ministério das Relações Exteriores, Arturo Jarama. Os dois levaram pessoas que não tinham nada a ver com as equipes de pesquisadores para serem vacinadas.

O ex-presidente Vizcarra foi vacinado em outubro passado no Palácio do Governo, antes de sua renúncia, em novembro. O ex-ministro Mazzetti foi inoculado em sua casa, junto com dois outros ex-conselheiros de seu escritório.

Embora Carbone tenha ponderado que não cabe a ele julgar ou qualificar o que aconteceu, o relatório da comissão fez uma série de recomendações para punir a vacinação irregular dessas pessoas. Se os políticos envolvidos forem investigados, podem chegar até a perder o direito de exercer cargos públicos novamente.

Na semana passada, um caso similar custou o emprego do ministro da Saúde da Argentina, Ginés González García. Políticos e amigos do gestor furaram a fila de prioridades estabelecida pelo governo federal e foram vacinados contra a Covid-19 de forma secreta. Após a revelação do caso, que ganhou o apelido de “lista vip”, o presidente Alberto Fernández determinou que o auxiliar renunciasse ao cargo.

Ao apresentar sua versão sobre o escândalo, García afirmou que o episódio foi um “mal-entendido” e atribuiu a culpa para sua secretária privada, dizendo que ela cometeu uma “confusão involuntária”. Pessoas próximas a Fernández disseram à imprensa local que o presidente está muito decepcionado com o caso, já que tinha apreço pelo trabalho desenvolvido pelo ministro durante a pandemia. García foi substituído pela médica Carla Vizzotti, especialista em programas de vacinação.

(Com EFE)

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