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O silêncio dos Brics

Em artigo, Jaswant Singh cobra dos países emergentes, incluindo o Brasil, uma postura enérgica contra os abusos de Vladimir Putin na Ucrânia

O mundo, ao que parece, está dominado por uma anomia geopolítica. Nenhum líder, grupo de líderes ou instituição reúne autoridade suficiente para restaurar algo parecido com a paz e a ordem internacionais. Para muitos, esta falta de direção global faz lembrar a caminhada sonâmbula da Europa rumo à catástrofe de 100 anos atrás.

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Há certamente algumas semelhanças incríveis entre os acontecimentos de hoje e os daquele momento fatídico. A queda do voo MH17 da Malaysia Airlines no leste da Ucrânia ecoou o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, em 1914, por sua imprudência – isso sem mencionar o fracasso dos governos e cidadãos em reconhecer que a rivalidade diplomática rapidamente pode dar lugar à violência.

De fato, mesmo após a Rússia anexar a Crimeia e fomentar movimentos separatistas no leste da Ucrânia, as companhias aéreas não consideraram necessário replanejar as rotas dos voos. Isto refletiu na reação da comunidade internacional – ou na falta dela – aos desdobramentos ameaçadores. Com as forças russas tendo agora participação direta na agitação do leste ucraniano, o fósforo aceso pelo presidente Vladimir Putin pode acender a chama de um conflito. (Continue lendo o texto)

Pouco antes de a União Soviética se dissolver por completo, perguntei a Zbigniew Brzezinski, que foi conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante o mandato do presidente Jimmy Carter, o que o mundo deveria esperar da Rússia pós-URSS. Ele respondeu que a dissolução da União Soviética traria uma nova era de paz mundial, se – e apenas nessas condições – a Rússia se mantivesse dentro de seus limites geográficos.

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O fim da linha para Putin na Ucrânia?

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Ocidente tem uma opção: lançar uma guerra financeira contra a Rússia

Este é um caminho que evidentemente não interessa a Putin, que agora comanda a mais recente cruzada russa, depois da sua guerra com a Geórgia, em 2008, para resgatar parte de seu império perdido. A “história” que, segundo Francis Fukuyama, era para ter acabado com o colapso do comunismo, ganhou novo fôlego. No capitalismo autoritário de Putin – similar ao chinês – a democracia liberal, ao estilo ocidental, que deveria reinar triunfante, tem um novo rival.

Do ponto de vista de Putin, faz sentido a Rússia ter como foco a Ucrânia. A subordinação da Ucrânia é essencial para a tentativa de Putin de estabelecer a União Eurasiana, com a Rússia como líder, como uma alternativa à União Europeia. Além disso, os líderes russos sempre viram a Ucrânia como uma zona de segurança importante, também por ser uma rota para a exportação de energia, da qual depende a economia russa.

Esta não é a primeira vez que Putin preocupa-se com uma virada da Ucrânia para o Ocidente. Durante a Revolução Laranja do país, em 2004, Putin acreditava que a CIA estava por trás dos protestos generalizados que bloquearam a tentativa de Viktor Yanukovych de roubar as eleições presidenciais. Mas a escala dos protestos, junto com o apoio do Ocidente aos manifestantes, obrigou Putin a se abster de intervir diretamente. Em vez de iniciar uma campanha militar – explícita ou não – ele usou as exportações de energia e incentivos financeiros para manter o governo da Ucrânia sob controle.

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Desta vez, Putin escolheu a intervenção militar – uma decisão que se mostrou devastadora para a Rússia. As sanções ocidentais impulsionaram a fuga de capitais em uma escala similar no país apenas àquela dos primeiros anos que seguiram a transição para o comunismo.

Além disso, a decisão do banco central de não defender o rublo, em forte queda, junto com a proibição de Putin à importação de alimentos do Ocidente, levará a um brusco declínio do padrão de vida e crescente sentimento de isolamento global. Como resultado, é provável que diminua o apoio ao presidente russo.

O conflito no leste da Ucrânia lembra uma guerra de gangues, sem leis ou limites. E a União Europeia absteve-se por muito tempo de tomar uma ação decisiva que fosse comprometer os interesses econômicos de membros influentes como França, Alemanha e Reino Unido. Pouco antes de a União Europeia finalmente reforçar as suas sanções, em fins de julho, Marietje Schaake, uma deputada holandesa, observou que praticamente todas as nações europeias haviam “voluntariamente empoderado o Sr. Putin, permitindo que jogasse os países uns contra os outros”.

Assim, logo após a queda do voo MH17, o presidente americano Barack Obama, como explicou Geoff Dyer, estava “dividido entre uma estratégia de caminhar junto com a Europa e o clamor para uma resposta americana decisiva”.

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Se a resposta do Ocidente para a crise na Ucrânia foi fraca e mal orientada, a reação das potências mundiais emergentes foi de cegueira deliberada. A China, por exemplo, apoiou efetivamente a anexação russa da Crimeia e a intervenção no leste ucraniano. Isso devia ter alarmado a Índia, dadas às reivindicações chinesas de grandes porções de territórios soberanos do país, mas ainda não há sinal de que alguém tenha notado.

Levando em consideração a história da Índia, isto não é nada chocante. Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão em 1979, a Índia não expressou explicitamente sua desaprovação. De fato, a Índia repetidamente absteve-se das resoluções das Nações Unidas, que exigiam a retirada das forças soviéticas – resoluções que tiveram apoio total de outros países não alinhados.

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No fim dos anos 1980, quando a União Soviética buscou uma saída segura e honrada do Afeganistão, a Índia já não tinha autoridade para ajudar. Quando os soviéticos se foram, o país já não podia ter um papel importante no futuro do Afeganistão.

Quando os alicerces da ordem mundial são ameaçados, as potências não devem assumir uma política de inércia e silêncio. De sua parte, potências emergentes como Índia, Brasil, África do Sul e Turquia devem, no mínimo, defender categórica e ruidosamente as regras fundamentais do sistema internacional que os permitiu crescer e prosperar. Caso contrário, quando os líderes mundiais finalmente acordarem e agirem, podem descobrir que esbarraram em mais uma catástrofe global.

Jaswant Singh é ex-ministro de Finanças, das Relações Exteriores e da Defesa da Índia e autor dos livros ‘Jinnah: Índia – Partilha – Independência’ e ‘Índia em Risco: Erros, Ideias Errôneas e Aventuras Mal Conduzidas na Política de Segurança’.

(Tradução: Roseli Honório)

© Project Syndicate 2014