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O papel da América Latina na criação do Estado de Israel

Os votos favoráveis dos latino-americanos à proposta de partilha da Palestina favoreceram as relações diplomáticas com os israelenses

Por Julia Braun - Atualizado em 8 dez 2017, 01h10 - Publicado em 7 dez 2017, 11h40

No dia 29 de novembro de 1947, a Assembleia-Geral da ONU aprovou o Plano da Partilha da Palestina, com 33 votos a favor e apenas treze contrários à proposta. Entre as nações que apoiaram a medida que deu origem ao Estado de Israel, treze eram da América Latina.

Os votos de Brasil, Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala, Haiti, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela ajudaram a determinar o destino de árabes e judeus 70 anos atrás. O Plano estipulou a divisão da Palestina em dois Estados, um para cada povo, a fim de encerrar os conflitos na região.

A medida, contudo, foi seguida de uma escalada na tensão com os palestinos. A questão perdura até os dias atuais, com milhares de mortos e um impasse que parece não chegar ao fim, apesar de inúmeros acordos momentâneos de paz. Ainda assim, a participação da América Latina na votação da proposta foi significativa e favoreceu as relações diplomáticas entre essas nações e Israel nos anos que se seguiram.

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Segundo o professor de relações internacionais e professor convidado da Universidade de Tel-Aviv, Samuel Feldberg, as nações latinas seguiram o posicionamento dos Estados Unidos. “A República Dominicana foi o único país a aceitar a imigração judaica na época da ascensão do nazista na Alemanha, isso também deu o tom para esse comportamento latino-americano na votação”, afirma.

A presença do Brasil na aprovação do Plano foi ainda mais marcante. O embaixador brasileiro Oswaldo Aranha foi quem presidiu a sessão da Assembleia-Geral que confirmou a adoção da medida. Homenageado com frequência em Israel, o gaúcho tem até mesmo uma rua com seu nome em Tel-Aviv.

Após anos de boas relações, a convivência diplomática com os israelenses passou por períodos de retração nas últimas décadas. De forma geral, diversas nações latino-americanas se afastaram do Estado judaico durante a década de 70, principalmente devido à influência da Guerra Fria e da União Soviética.

Desde então, a América Latina abraçou a causa dos palestinos, contrariando Israel. Em 1975, durante a ditadura militar, o Brasil votou a favor da resolução da ONU que equiparava o sionismo ao racismo. A decisão só foi anulada 16 anos depois.

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Mais recentemente, em 2014, o Mercosul pediu uma investigação sobre possíveis violações de direitos humanos cometidas pelas forças israelenses na Faixa de Gaza. O Brasil também se manifestou individualmente sobre a questão, criticou a postura violenta de Israel no conflito e convocou seu embaixador em Tel-Aviv para consultas.

O ministério das Relações Exteriores israelense reagiu imediatamente à posição brasileira, que “não contribui para encorajar a calma e a estabilidade na região”. O porta-voz da chancelaria acabou chamando o Brasil de “anão diplomático”, gerando uma crise momentânea na relação bilateral.

Ainda hoje, os embaixadores brasileiros continuam apoiando a causa palestina em algumas votações na ONU. Na UNESCO, por exemplo, o Brasil fez parte do bloco que criticou as restrições impostas para o acesso de muçulmanos à Jerusalém, um dos motivos que levaram Israel a deixar a entidade em outubro deste ano.

Comércio

Na área de comércio, porém, as relações de Tel-Aviv com a América Latina sempre foram frutíferas. O Acordo de Livre Comércio Mercosul-Israel foi o primeiro desse tipo a ser celebrado pelo bloco com um país de fora do continente.

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Em setembro, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu visitou Argentina, Colômbia e México, tornando-se o primeiro chefe de Governo israelense a fazer uma visita diplomática à América Latina. Um de seus principais objetivos era justamente fortalecer os laços econômicos com as três nações.

O Brasil, um dos maiores parceiros comerciais de Israel na região, não foi incluído no roteiro. A incerteza política quanto à permanência de Michel Temer na presidência foi fundamental para a decisão, de acordo com fontes israelenses.

Na Argentina, a mudança de governo Kirchner e a chegada de Mauricio Macri no poder favoreceu o encontro com Netanyahu. A comunidade judaica argentina é a maior da América Latina e a sétima do mundo –181.000 judeus vivem no país. Com o novo entendimento, espera-se que os laços comerciais se tornem tão fortes como o vínculo cultural e diplomático entre as duas nações.

Relações cortadas

Apesar do clima amigável com a maior parte dos países latinos, Israel também nutre desavenças na região. Cuba cortou relações com os israelenses em 1973, depois de se aliar ao Egito na guerra do Yom Kippur.

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A Venezuela, que votou a favor da partilha em 1947, também rompeu os laços diplomáticos com os israelenses. A decisão foi anunciada pelo governo de Hugo Chávez em 14 de janeiro de 2009, como forma de protesto contra a ofensiva na Faixa de Gaza. No mesmo dia, a Bolívia divulgou que traçaria o mesmo caminho, seguindo o alinhamento ideológico prevalente na atualidade –governos populistas de esquerda tendem a apoiar os palestinos, enquanto países pendendo à direita costumam ser mais amigáveis a israelenses.

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