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Monólito encontrado nos EUA intriga pesquisadores e faz barulho na web

Um insólito objeto metálico apareceu em um desfiladeiro do oeste americano, intrigou autoridades e agitou as redes sociais

Por Sergio Figueiredo Atualizado em 4 dez 2020, 08h56 - Publicado em 4 dez 2020, 06h00

Era um dia claro, frio e seco como qualquer outro nas montanhas rochosas de Utah, um lugar inóspito mas visualmente magnífico — e, por isso mesmo, destino de campistas, amantes de trilha, ciclistas e fotógrafos. Uma equipe a bordo do helicóptero do departamento de segurança pública, que socorre turistas perdidos e busca focos de incêndios, catalogava carneiros selvagens que habitam a região quando um brilho chamou atenção do piloto. Pensando ser um sinal de socorro ou o reflexo dos destroços de uma aeronave, ele decidiu investigar. Pousou cuidadosamente em um dos muitos cânions da faixa denominada Red Rock Country. Ao desembarcar, a tripulação deparou com algo mais inusitado que um acidente: uma peça de aço inoxidável de 3,5 metros de altura, com três lados, que definitivamente não deveria estar ali.

“Alguém teve a paciência de enterrar aquilo no solo com um encaixe perfeito”, afirmou a polícia de Utah, que faz divisa com Nevada, Colorado, Arizona e outros famosos estados do oeste americano. Assim que as fotos e os vídeos do objeto subiram nas redes sociais, a notícia se espalhou mundialmente, vindo acompanhada de comentários sérios ou irônicos, e com um título já pronto: o mistério do Monólito de Utah, em referência ao icônico bloco alienígena que aparece na Terra, na Lua e nas proximidades de Júpiter no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968.

Afastada a possibilidade de interferência extraterrestre, as autoridades foram atrás das três hipóteses mais plausíveis: uma brincadeira bem elaborada, uma obra de arte deliberadamente colocada ali ou um adereço esquecido por algum estúdio de Hollywood. Uma vez que Utah, assim como seus estados vizinhos, é cenário recorrente de faroestes e ficção científica, a terceira opção seria perfeitamente pertinente — a série Westworld, inclusive, foi parcialmente filmada ali. Entretanto, a comissão estadual que aprova locações para cinema e televisão garante que todas as áreas usadas em filmagens são rigorosamente fiscalizadas a fim de garantir que lixo, pedaços de cenários e equipamentos não sejam deixados para trás, sob pena de multa ao estúdio responsável.

Com o envolvimento de Holly­wood descartado, artistas plásticos começaram a apontar o dedo para John McCracken, escultor morto em 2011, que era fã de ficção científica e amigo de Leonard Nimoy, ator que, por quase meio século, interpretou o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas. Nimoy, quando vivo, teve uma obra de McCracken em sua coleção. O filho do escultor negou qualquer envolvimento, mas admitiu que o pai lhe disse certa vez que sonhava em esconder algumas de suas obras em lugares remotos, como desertos e florestas, para serem encontradas após sua morte. O marchand David Zwirner, que administra o espólio do artista, disse que o monólito é um típico trabalho minimalista de seu cliente, mas também negou qualquer participação de sua galeria na exposição não autorizada.

FICÇÃO - Cena do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço: bloco alienígena -
FICÇÃO – Cena do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço: bloco alienígena – MGM/Divulgação

Para evitar a peregrinação de curiosos, as autoridades de Utah se recusaram a informar a localização, mas detetives amadores não tardaram a descobri-la. Cruzando o rastreamento por radar do helicóptero com imagens do Google Earth, Tim Slane, um apaixonado por geolocalização, divulgou a posição nas redes sociais. Com um detalhe, revelado para ampliar o enigma: fotos do Google Earth de 2013 a meados de 2015 não mostram nada além de rochas no cânion, mas uma sombra comprida aparece a partir de outubro do ano seguinte, indicando que o monólito teria sido enterrado ali em algum momento entre 2015 e 2016.

Expor qualquer obra em local público sem autorização é ilegal nos Estados Unidos. Mais do que uma contravenção, depredar patrimônio natural constitui crime. Para visitar, por exemplo, o Monument Valley, na divisa entre Utah e Arizona, o turista deve seguir trilhas predeterminadas e manter o caminho limpo. Os alertas do governo para esse fato tiveram devastador efeito na permanência do monólito no deserto porque, poucos dias após ser anunciado, ele simplesmente desapareceu. Os fiscais das rochosas de Utah foram pegos de surpresa, sem pistas de quem poderia ter se infiltrado à noite, no meio do deserto, para remover a peça. Até que, e se recomenda não perder o fio da meada, o guia turístico Sylvan Christensen confessou, com vídeos e fotos, ter sido o responsável pelo sumiço do monólito. Indignado com uma multidão perturbando a paz local — inclusive jogando lixo e fazendo necessidades a céu aberto —, ele tratou de dar fim ao problema a sua maneira, desmantelando a peça com a ajuda de três colegas. O guia ainda divulgou nota pedindo respeito com a natureza, a vida selvagem e a vegetação nativa, além de condenar o sensacionalismo na internet. Ele também negou envolvimento com a instalação, que permanece sendo um mistério.

Para alimentar o suspense, um outro monólito, triangular, apareceu na região montanhosa da Romênia, com uma de suas faces apontada para o Maciço de Ceahlau, a Montanha Sagrada. Não se sabe se o responsável pela peça romena tem ou não relação com a americana, mas a festa durou pouco: assim que o ministério de patrimônio de Bucareste demonstrou indignação com a suposta brincadeira, o monólito sumiu. Resumo da ópera: é certo que o objeto de Utah não veio do espaço, e até a quinta-feira 3 era ainda uma incógnita, mas 2020 tem sido um ano de outro mundo.

Publicado em VEJA de 9 de dezembro de 2020, edição nº 2716

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