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Marcha de rejeitados

Refugiados da América Central viajaram durante meses, a pé, em ônibus, para fugir da miséria e buscar vida nova no norte. Toparam com um muro e cassetetes

Figura histórica da esquerda latino-americana, Andrés Manuel López Obrador assumiu no início de dezembro a Presidência do México com um cacto dos mais espinhosos no caminho: o que fazer com a multidão de desesperançados da América Central parada do lado de cá da fronteira com os Estados Unidos, aguardando uma chance de entrar no eldorado? A caravana de hondurenhos (a maioria), salvadorenhos e guatemaltecos viajou durante meses, a pé, em ônibus e caminhões, para fugir da miséria e da violência e buscar vida nova no norte. Ao chegar finalmente a Tijuana, a poucos passos da Califórnia, topou com um muro, agentes munidos de cassetetes e gás lacrimogêneo para desanimar transgressores e fazer cumprir a ordem para cada um apresentar seu pedido de asilo por escrito. Depois, é aguardar (no México) uma resposta — o que pode levar meses.

Donald Trump não esconde que seu propósito é dificultar ao máximo a vida de uma turba que, a seus olhos, está contaminada por gangues, criminosos comuns, terroristas e outros indesejáveis. Dos milhares de imigrantes — fala-se em 10 000 — apinhados em abrigos em Tijuana e cidades dos arredores, muitos estão desistindo e voltando para casa. O México vem tentando convencer o governo americano a montar um plano de ajuda econômica destinado tanto à América Central, para melhorar as condições de vida e conter a fuga em massa, quanto a si próprio, para financiar a acomodação daqueles que se conformarem em tentar a vida em território mexicano.

Não que a perspectiva seja atraente: o México, que já está com a economia desacelerada, tem a partir de agora de se ajustar às cláusulas de um novo tratado comercial negociado com Estados Unidos e Canadá, menos favorável que o extinto Nafta. Também precisa achar uma maneira de recuperar regiões inteiras dominadas por bandos de traficantes em guerra. Tirando do baú o notório desabafo do ditador Porfirio Díaz (1830-1915), AMLO, como o novo presidente é chamado, vai precisar da ajuda de todos os deuses para livrar o pobre México — tão perto dos Estados Unidos e tão lotado de estrangeiros — da enrascada em que se encontra.

Publicado em VEJA de 26 de dezembro de 2018, edição nº 2614