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Maduro importa inteligência artificial da China para controle social

A ferramenta permite ao chavismo monitorar dois terços dos 30 milhões de venezuelanos

Por Estadão Conteúdo Atualizado em 30 jul 2020, 19h55 - Publicado em 10 fev 2019, 09h40

“Todo mundo deve tirar seu cartão da pátria, porque isso nos permitirá saber quem está se beneficiando de qual projeto, quem não é beneficiado, e desmascarar alguns salafrários.” Nicolás Maduro descrevia assim em 2017 o documento com tecnologia capaz de cruzar, em menos de 30 segundos, as informações do titular: de exames de sangue à retirada de comida, gastos com gasolina e hábitos na internet. A ferramenta importada da China permite ao chavismo monitorar dois terços dos 30 milhões de venezuelanos.

Quem desenvolveu o novo sistema usado no cartão da pátria foi a gigante chinesa ZTE, em uma parceria que se estendeu para outras áreas. A empresa tem um largo histórico de controvérsias – sofreu sanções e proibições nos EUA por supostamente usar programas e softwares para espionar americanos e empresas americanas. A ZTE é a menina dos olhos do governo chinês, que cada vez mais está exportando seus programas de inteligência artificial.

Em 2015, a China lançou seu plano “Made in China 2025”, para dominar as indústrias tecnológicas de ponta. Isso foi seguido, no ano passado, pelos planos para o país ser líder mundial no campo da inteligência artificial até 2030 e construir uma indústria de US $ 150 bilhões.

O mundo em desenvolvimento é uma grande oportunidade para concretizar tais ambições. A China não quer apenas dominar esses mercados. Ela quer usar os países em desenvolvimento como um laboratório para melhorar as próprias tecnologias de vigilância. Só no ano passado, a China exportou mais de US$ 5 bilhões em tecnologia de inteligência artificial (IA).

A China não faz distinção entre clientes. Nos últimos dois anos, exportou para países democráticos, como Alemanha, França e Argentina. Mas seus clientes mais assíduos têm sido regimes com diferentes graus de viés autoritário: Venezuela, Rússia, Azerbaijão, Armênia, Irã, Turquia, Paquistão, Ruanda e Quênia.

Em geral, regimes com traços autoritários que desejam manter um rígido controle social sobre a população e sobre seus opositores. “É uma via de duas mãos: ao mesmo tempo em que exportam tecnologia, os chineses usam esses países como cobaias para os próprios experimentos”, afirma Steven Feldstein, professor de políticas públicas da Universidade Boise.

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Quando os governos que adotam os softwares fiscalizam manifestações e reuniões de opositores, dão acesso a empresas chinesas a um banco de dados cada vez maior.

A Venezuela é o exemplo mais bem acabado do projeto chinês. Além da tecnologia para o cartão da pátria, os venezuelanos aceitaram em um pacote de empréstimo chinês uma tecnologia de reconhecimento facial desenvolvida pela empresa CloudWalk Technology, uma startup com sede em Guangzhou. A tecnologia de última geração de reconhecimento facial é capaz de identificar em poucos segundos qualquer cidadão filmado por uma câmera em lugar público.

No caso venezuelano, as tecnologias permitem ao chavismo estender sua capacidade de vigilância dos cidadãos a níveis alarmantes. No ano passado, o governo prometeu um bônus financeiro a quem comparecesse nos centros de votação na eleição presidencial. Para receber o bônus, o eleitor precisaria registrar que votou, em uma máquina instalada fora de alguns centros eleitorais.

  • Ao conceder um subsídio para o cidadão que vote em uma eleição, desde que ele registre seu voto com o cartão da pátria, o chavismo sabe quem votou em determinado distrito eleitoral, mas principalmente quem não votou ou não registrou seu voto com o cartão.

    “Trata-se de um controle sofisticado e extremamente perigoso. Com o cartão da pátria é possível cruzar todos os dados do usuário e mapear seus hábitos, seus costumes, suas necessidades”, disse Anthony Daquin, que já foi o principal assessor de segurança da informação do Ministério da Justiça da Venezuela, mas deixou o país em 2009.

    Ele participou da primeira comitiva venezuelana a visitar a China para conhecer os programas de IA desenvolvidos no país. “Foi depois daquela visita que o chavismo soube que poderia ter total controle social sobre a população. O cartão da pátria com chip tem apenas este objetivo”, disse. Desde o lançamento pelo presidente venezuelano, esta espécie de RG paralelo já foi adotado por 20 milhões de venezuelanos para obter subsídios do governo.

    Benito Urrea, um diabético de 76 anos, disse à Reuters, no fim do ano passado, que um médico do Estado recentemente negou a ele uma prescrição de insulina e o chamou de “radical de direita” porque ele não se inscreveu para votar. Como alguns outros cidadãos venezuelanos, especialmente aqueles que se opõem ao governo de Maduro, Urrea vê o cartão com suspeita. “Foi uma tentativa de me controlar através das minhas necessidades”, disse.

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