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Macri e Fernández disputam presidência da Argentina à beira do caos

País termina o ano com economia em queda de 1,2%, inflação de 43,7% e 35,4% da população na pobreza

Por Denise Chrispim Marin - Atualizado em 27 out 2019, 10h15 - Publicado em 27 out 2019, 07h00

O confronto entre o liberal Mauricio Macri e o peronista Alberto Fernández nas eleições deste domingo, 27, deixa no ar uma pergunta inevitável: por que querem ser presidente de um país – novamente – à beira do caos econômico? As urnas foram abertas na Argentina às 8h e serão fechadas às 18h com prenúncio de vitória da oposição, já concentrada nos últimos dias sobre os gestos e declarações mais adequadas para driblar a esperada turbulência nos mercados financeiro e a evasão desesperada de dólares na segunda-feira, 28.

Macri, Fernández e outros quatro candidatos encerraram oficialmente suas campanhas na quinta-feira 24. As últimas oito pesquisas eleitorais publicadas até o dia 18 davam ao peronista uma vantagem de 16,3 a 22,5 pontos porcentuais sobre o atual presidente argentino – o suficiente para elegê-lo no primeiro turno. Como se viu nos Estados Unidos em 2016, porém, os resultados sempre podem surpreender.

O empenho de ambos na campanha eleitoral deixou claríssimo que, pelo menos para eles e seus grupos políticos, interessa conduzir um país no fundo do poço – mesmo com o risco de o piso estar ainda mais abaixo. As repercussões dos tumultos no vizinho Chile, tido como exemplo econômico para a região, chegaram a Buenos Aires como preocupação adicional. As imagens de argentinos invadindo o Congresso em dezembro de 2001, no estopim da crise que levou à renúncia de Fernando de La Rúa e à sucessão de mais quatro presidentes em uma semana, continuam frescas na memória da classe política do país.

A Argentina pode não estar no nível catastrófico de dezembro de 2001. Mas está muito longe de ser um país fácil de governar. Há quatro anos, Cristina Kirchner, atual companheira da chapa de Fernández, recusou-se a passar a faixa presidencial e o bastão de mando, um símbolo do poder no país, a Macri. Ao assumir o posto, o ex-prefeito de Buenos Aires não dispunha nem indicadores econômicos oficiais respeitáveis, corroídos pelo governo de Kirchner. Mas estava ciente da herança nada bendita: a escalada inflacionária, os gastos públicos inflados por subsídios sociais, o protecionismo, os desequilíbrios macroeconômicos que impediam a atração de investimentos.

Naquele ano de 2015, a Argentina teve sua maior taxa de crescimento econômico, de 2,7% dos últimos quatro anos. Recuou 2,1% no ano seguinte, voltou a subir 2,7% em 2017 e, no ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 2,5%. Macri entregará o bastão a Fernández ou começará seu segundo mandato com queda de 1,2%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a quem o país deve os 57 bilhões de dólares em ajuda financeira acertada em 2018. Em quatro anos, a economia argentina encolheu 164 bilhões bilhões de dólares e chega a estas eleições totalizando 478 bilhões de dólares – um quarto do brasileiro.

O déficit orçamentário definitivamente reduziu, de -6,5% do PIB, em 2015, para 0,7% do PIB, neste ano, graças à política de ajuste fiscal aplicada por Macri – considerada tímida e titubeante por setores conservadores dentro e fora do país. Mas o desemprego passou de 6,5% da força de trabalho, para 9,9%, e a renda per capital encolheu de 14.900 dólares para 10.600 dólares.

A taxa de inflação deverá fechar este ano em 43,7% e continua incontrolável, alimentada pela taxa de câmbio em franca desvalorização. O peso perdeu 51,3% de seu valor desde janeiro. O dólar fechou na sexta-feira 25 cotado a 65 pesos, e 1,755 bilhão de dólares das reservas internacionais foram queimadas para evitar depreciação ainda mais acentuada.

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Dos 45 milhões argentinos, 35,4% vivem hoje na pobreza. Antes ocultas nas “villas miséria” e na periferia da Grande Buenos Aires, famílias inteiras vivem há anos nas ruas e coletam lixo reciclável pelas áreas turísticas do centro da capital, como se vê amiúde em São Paulo. Os bumbos peronistas são escutados frequentemente nos piquetes que bloqueiam as principais artérias da Grande Buenos Aires, em protesto contra o fim de subsídios e as condições cada vez mais precárias de vida.

Fernández e Macri prometem soluções díspares para esse amontoado de problemas. O primeiro quer se distanciar da fórmula liberal, mas ao mesmo tempo evitar o caminho fácil do populismo de Cristina Kirchner, sua candidata a vice. Promete renegociar o acordo com o FMI, não dar novo calote aos credores do país e trazer sensibilidade social à política fiscal. Seu maior desafio, porém, será “tourear” a temperamental Cristina. Macri insiste em manter o rumo traçado, com correções pontuais.

“Na Argentina, o presidente não é um servidor eleito, mas a personificação de um herói. Ele é uma estátua em praça pública antes de ser presidente”, afirma o analista político Carlos De Ángelis, ao tratar da vaidade e da ambição política de chegar ao posto mais alto do Executivo. “O poder é sempre uma imã.”

A possível vitória de Fernández-Kirchner, entretanto, reforça a tese de que não é mais possível governar a Argentina fora do peronismo. Em especial, quando o Congresso – ou pelo menos o Senado – é dominado pelo Partido Justicialista e seus tentáculos. Desde a redemocratização, os exemplos de não-peronistas com dificuldades em terminar seus mandatos foram marcantes.

Primeiro presidente civil eleito desde a ditadura, Raúl Alfonsín, da União Cívica Radical (UCR), entregou a Presidência antes de terminar seu mandato ao peronista Carlos Menem. De La Rúa saiu da Casa Rosada em helicóptero para evitar a multidão que se aglomerava na Praça de Maio e, ao final, foi substituído pelo peronista Eduardo Duhalde em dezembro de 2001. Em maio de 2003, começou a era dos peronistas Néstor e Cristina Kirchner, que perdurou 12 anos.

Macri se vê arriscado a não ser reeleito e a repetir a decisão de Alfonsín. “Esta eleição foi de Macri contra Macri. Ele perde para seu próprio governo”, afirma De Ángelis.

 

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