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Ideia de Bolsonaro de moeda única com a Argentina ‘não era concreta’

Telegrama da embaixada do Brasil em Buenos Aires diz que ideia “eclipsou” tema de encontro entre o presidente e Mauricio Macri

Por Leandro Resende - 27 out 2019, 09h00

Durante encontro com o presidente da Argentina, Mauricio Macri, em Buenos Aires, em junho deste ano, o presidente Jair Bolsonaro resgatou dos baús dos anos 1990 uma fábula esquecida: “Houve um primeiro passo para o sonho de uma moeda única. Como aconteceu com o euro lá atrás, pode acontecer o Peso Real aqui”. Todo o Mercosul recebeu a ideia com ressalvas – e a própria embaixada do Brasil reconheceu que a proposta “não era concreta”, de acordo com documento obtido por VEJA via Lei de Acesso à Informação. 

No telegrama 01039, enviado ao Ministério de Relações Exteriores de 12 de junho, o embaixador Sérgio França Danese avaliou que a visita de Bolsonaro a Buenos Aires ocorreu em meio à percepção pública de que a política externa brasileira “prescindiria da Argentina como parceiro privilegiado”. Em alguns círculos político-midiáticos, acrescentou o diplomata, o país vizinha se perguntava se o Mercosul se manteria.

Se o objetivo de Bolsonaro naquela viagem era colocar panos quentes nos atritos do Brasil com a Argentina, a ideia da moeda comum, mesmo sem estar baseada em nada concreto, serviu ao propósito do presidente. De acordo com Danese, a frase foi útil para “reafirmar, na imprensa, a centralidade da Argentina na política externa brasileira”.

Nesta semana, durante visita a Tóquio, Bolsonaro mudou radicalmente de ideia. Afirmou que um retorno da esquerda ao poder na Argentina pode “colocar em risco o Mercosul”. Nos últimos meses, em franca campanha pela reeleição de Macri neste domingo, o presidente brasileiro já desfiara insultos e ameaças à chapa peronista. 

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É difícil imaginar, neste cenário, que uma eventual vitória do peronista Alberto Fernandéz sobre Maurício Macri nas eleições presidenciais deste domingo 27 levará a um debate mais aprofundado sobre a moeda única entre os dois países. Mas é possível, sim, que as relações bilaterais e as posições do Brasil e da Argentina sobre o Mercosul sofram os impactos da reação de Bolsonaro aos resultados eleitorais.

No telegrama enviado ao governo brasileiro, o embaixador Danese afirma que o “peso-real” foi um dos “aspectos menos concretos” da visita e foi recebido com “ceticismo” pela imprensa argentina, sobretudo após uma nota do Banco Central revelar que não havia estudo para uma unificação monetária. 

No documento, Danese avalia que o tema da moeda única, apesar de não estar respaldado em maiores detalhes, acabou por “eclipsar” outros pontos mais importantes da agenda dos dois países. Segundo o texto, economistas argentinos demonstraram certo entusiasmo com a ideia, mas afirmaram que o projeto exigiria “uma série de medidas prévias” antes de efetivamente ser colocado em discussão. Desde a declaração dada em junho ao lado de Macri, o presidente não voltou ao assunto.

 

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