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Hong Kong: milhares pedem demissão da chefe de governo Carrie Lam

Manifestantes também exigem pedido de desculpas por agressões e o abandono permanente da polêmica lei de extradições

Dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas neste domingo (16) em Hong Kong. Eles exigem o abandono do projeto de extradição, a renúncia da chefe de governo Carrie Lam e desculpas pela violência policial.

No sábado o governo suspendeu o polêmico projeto da lei de extradições. Entretanto, os organizadores pretendem manter a pressão sobre Carrie Lam, chefe do Executivo pró-Pequim de Hong Kong. “Essa suspensão significa que o projeto pode ser reativado a qualquer momento”, disse o militante Lee Cheuk-yan.

A marcha de protesto partiu de um parque na ilha de Hong Kong e seguia para o Conselho Legislativo (LegCo, Parlamento), no coração da cidade. Trata-se do mesmo percurso realizado há uma semana e que reuniu um milhão de pessoas, de acordo com os organizadores. “Retire a lei do mal!”, gritavam os manifestantes vestidos de preto.

Segundo seus críticos, o projeto colocaria a população da ex-colônia britânica à mercê do sistema judiciário da China continental, opaco e controlado pelo Partido Comunista. A comunidade empresarial teme ainda a possibilidade de a reforma prejudicar a imagem internacional e a atratividade do centro financeiro.

“A reação de Carrie Lam não foi sincera, é por isso que estou manifestando hoje”, explicou Terence Shek, de 39 anos, que veio com seus filhos.

Na quarta-feira, Hong Kong registrou os piores episódios de violência desde a devolução do território à China em 1997, quando milhares de pessoas foram dispersadas pela polícia de choque com gás lacrimogêneo e balas de borracha.

“Polícia de Hong Kong, o seu dever é nos proteger, não atirar contra nós”, dizia o cartaz de um manifestante.

Flores para um morto

Quase 80 pessoas, incluindo 22 policiais, ficaram feridos na quarta-feira. No sábado, um homem morreu ao cair do telhado de um centro comercial, onde ele ficou por várias horas com um cartaz dizendo: “Retire completamente a lei de extradição chinesa. Não somos baderneiros. Libertem os estudantes e os feridos”.

Neste domingo, as pessoas formavam enormes filas para deixar flores e origamis no local da tragédia, além de mensagens de homenagem ao falecido. Jimmy Sham, da Frente Cívica de Direitos Humanos, comparou o projeto a uma “faca” ameaçando Hong Kong. “Quase atingiu nossos corações. Agora o governo diz que não vai avançar, mas também se recusa a retirá-lo”.

A oposição ao projeto de lei é ampla, reunindo advogados, organizações jurídicas influentes, empresários, câmaras de comércio, jornalistas, ativistas, religiosos e diplomatas ocidentais. Sob o princípio de “um país, dois sistemas”, a ex-colônia britânica goza de liberdades desconhecidas na China continental, teoricamente até 2047.

Ressentimento mais amplo

Mas o movimento vai além da questão das extradições e expressa um ressentimento muito maior contra o governo e contra Pequim, acusados de tolir as liberdades do território semi-autônomo.

Nos últimos dias, a chefe de governo tem estado cada vez mais isolada, com deputados de seu próprio campo distanciando-se do texto. “Apoiamos, respeitamos e entendemos” a decisão de suspender o texto, declarou o ministério das Relações Exteriores da China, falando da necessidade de “restaurar a calma o mais rápido possível” no território.

Os críticos de Lam culpam-na por perder várias oportunidades de se desculpar pelo comportamento da polícia. Ela justificou a ação policial por atos de violência perpetrados por certos manifestantes. Mas a oposição a acusa de usar as atitudes de uma pequena minoria para atacar todos os manifestantes, em sua maioria pacíficos.

“Os grupos pró-democracia não vão parar por aí. Querem aproveitar o impulso contra Carrie Lam”, explicou à AFP o analista político Willy Lam.

Neste momento, os manifestantes exigem que a polícia retire as acusações contra os manifestantes acusados de serem desordeiros. Eles temem represálias do governo, disse o militante Lee Cheuk-yan, e querem a garantia de que “o povo, os manifestantes, não sejam assediados e politicamente perseguidos pelo governo”.