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Guia para entender as eleições americanas em 2020

Com a pandemia, espera-se que muitos americanos prefiram votar pelo correio; modalidade a distância já é consolidada no país

Por Vinicius Novelli - Atualizado em 15 out 2020, 08h20 - Publicado em 15 out 2020, 08h00

Em menos de três semanas os americanos irão às urnas para escolher seu novo líder. Em 2020, a população precisa decidir se deixará o atual presidente, Donald Trump, por mais quatro anos no poder, ou se darão uma chance ao ex-vice-presidente Joe Biden.

O pleito de 2020, porém, difere dos anteriores. A pandemia de coronavírus complicou ainda mais o já confuso sistema eleitoral dos Estados Unidos. Desta vez, além de poder votar diretamente nas urnas, os americanos também podem escolher enviar seu voto pelo correio com antecedência. A modalidade alternativa, porém, promete atrasar a divulgação do resultado e está sob constante questionamento de Trump e outros republicanos por suas vulnerabilidades que poderiam levar a fraudes. 

Entenda neste guia como funciona o complexo modelo de colégio eleitoral dos Estados Unidos e o que deve ser diferente neste ano.

Quem pode votar e como é a votação

Nos Estados Unidos o voto é facultativo. Todos os cidadãos americanos com mais de 18 anos podem se inscrever para participar da eleição, mas não são obrigados a comparecer no dia da votação.

Em geral, os cidadãos votam em estações eleitorais instaladas em escolas, ginásios e comércios no dia da eleição. Mas há métodos alternativos que estão em crescimento nos últimos anos, como o voto adiantado e por correio. Em 2020, por causa da pandemia de coronavírus, 10 milhões já haviam votado até o meio desta semana.

Mesmo presencialmente, a forma de votar e o formato das cédulas varia entre os estados. Enquanto algumas regiões utilizam urnas eletrônicas, a grande maioria aposta no voto em papel.

Colégio Eleitoral

A votação acontece por sufrágio universal indireto, sem um segundo turno. Ou seja, os eleitores escolhem seus candidatos a presidente e vice-presidente, mas seu voto não vai diretamente para a chapa indicada. 

Os candidatos competem pelo colégio eleitoral. Nesse sistema, cada estado recebe um certo número de votos baseado no tamanho de suas populações. Há 538 votos em disputa — e o vencedor precisa receber 270 deles ou mais. Esses votos são representados pelos chamados delegados. Eles são as pessoas escolhidas por cada unidade federativa para votar diretamente no candidatos em uma data posterior às eleições.

Na grande maioria dos casos, os delegados devem votar naquele nome que recebeu a maior parte dos votos populares em seu estado, e atuam apenas como representantes simbólicos da população americana. No Maine e em Nebraska, porém, os votos são proporcionais. Isto é, o vencedor recebe o delegado do distrito em que conquistou a maioria dos votos. 

Dessa forma, o vencedor não é sempre o candidato que tem mais votos em nível nacional, e sim o que conquista mais delegados. Por isso, esse modelo pode gerar distorções ou brigas na justiça.

Em 2016, por exemplo, Trump perdeu no voto popular por cerca de três milhões de votos contra a democrata Hillary Clinton, mas saiu vencedor. Isto porque os estados em que saiu vitorioso representavam um maior número de delegados no colégio eleitoral. 

Estados-chave

Justamente por causa do sistema de colégio eleitoral, alguns estados acabam se tornando mais importantes para a corrido e campanhas. A Califórnia, por exemplo, é a região com mais delegados, com 55 representantes. Já Nova York possui 29 delegados. Essas duas unidades federativas são tradicionalmente democratas e não costumam alterar sua escolha ao longo dos anos. Assim como o Texas, com 38 delegados, normalmente vota no candidato republicano.

Há, porém, os chamados estados-pêndulos, onde não há uma preferência partidária. É nesses estados que os candidatos focam suas campanhas eleitorais e seus esforços para conquistar os eleitores mais indecisos ou moderados.

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É o caso da Pensilvânia e da Flórida, por exemplo. Em 2016, Trump ganhou nas duas regiões, enquanto em 2012 o ex-presidente democrata Barack Obama saiu vitorioso nos dois estados. 

O voto por correspondência

Devido à pandemia, espera-se que muitos americanos prefiram votar pelo correio, para não precisarem sair de casa ou enfrentar as filas dos centros eleitorais. Segundo o Pew Research Center, 39% dos eleitores disseram que vão votar a distância, enquanto 33% irão presencialmente às urnas em novembro. No ano de 2016, 24% dos votos foram feitos pelos correios.

Segundo o jornal The New York Times, já foram expedidos cerca de 80 milhões de cédulas pelos correios – em 17 estados, o montante já foi maior do que em 2016. Até o momento, 10 milhões de pessoas já depositaram seus votos. E a tendência é só aumentar. 

Na maioria dos estados, o eleitor deve solicitar a cédula por meio de um formulário, em que precisam explicar o motivo que os impede de comparecer presencialmente. A maioria dos estados incluíram o coronavírus como uma justificativa.

Em Washington D.C e mais nove estados, incluindo Utah, Califórnia e Nevada, as cédulas são enviadas automaticamente aos eleitores registrados. Aqueles que desejarem votar presencialmente devem ignorar o formulário recebido. 

O caminho do voto

Após preenchidas, as cédulas devem ser colocadas em envelopes específicos e depositadas numa das várias caixas de coleta disponibilizadas pelo país. As regras e datas para a apuração variam muito entre os estados, o que torna pouco improvável que já se tenha um vencedor declarado na noite do dia 3 de novembro.

A contagem de votos já ocorre em 22 estados, como é o caso do Arizona e Nevada. Em outros 25, a apuração começa apenas dias antes da data do pleito. Pensilvânia, Wisconsin, Mississipi e Alabama começam a analisar cédulas somente após o fechamento das urnas, o que significa que o resultado final poderá demorar ainda mais para ser anunciado.

Acusações de fraude

Apesar de todas as salvaguardas do processo eleitoral, e as poucas evidências de fraudes, o presidente Trump escolheu como retórica pôr em dúvida uma modalidade de votação já tradicional no país. É frequente Trump dizer que o único jeito de seu partido perder a reeleição é se caso as cédulas forem fraudadas, e já flertou por mais de uma vez contra a transferência pacífica de poder. 

Para evitar qualquer irregularidade, as autoridades cruzam todos os dados dos eleitores, como local de moradia, a data de nascimento e o número do seguro social (algo como o número do cadastro único, no Brasil). É obrigatório a assinatura do envelope ou da cédula. No Alasca, Alabama, Carolina do Sul, Wisconsin e Carolina do Norte é necessário ainda a assinatura de duas testemunhas. 

No estado de Washington, desde 2005, cada envelope recebe um código de barras que permite seu rastreio pelo eleitor, do mesmo modo que se faz com as compras online.

Por todos esses motivos, a fraude pelo voto por correspondência nos Estados Unidos é rara. Em Utah, com uma população de 3.2 milhões de pessoas, apenas um caso de cédula fraudulenta foi identificado entre as mais de 970.000 enviadas nos últimos 10 anos. 

Ainda assim, Trump e sua campanha insistem em apontar falhas no sistema. “O objetivo dos republicanos é restringir a possibilidade de voto nessa modalidade”, avalia Carlos Gustavo Poggio, doutor em relações internacionais e professor da FAAP. 

No Texas, um dos estados mais populosos, o governador republicano, Greg Abbott, ordenou que seja disponibilizada apenas uma caixa de coleta das cédulas enviadas por correio por condado, independente do tamanho da população. Já o Partido Republicano da Califórnia assumiu que estava colocando nas ruas caixas de coleta falsas para as cédulas.

Já os democratas apostam no incentivo ao voto como estratégia eleitoral. Biden, por sua vez, preparou um “exército” de aliados para o período após o fechamento das urnas e para organizar uma transição de governo caso saia vencedor.

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