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Governo militar do Sudão admite abusos cometidos em ataque contra civis

Forças do Conselho Militar invadiram um acampamento de manifestantes na capital Cartum, matando mais de 100 pessoas e estuprando outras 70

Integrantes do Conselho Militar do Sudão admitiram que suas forças de segurança cometeram abusos ao atacar um acampamento de manifestantes em Cartum, no início do mês.

O porta-voz do Conselho que lidera o governo interino sudanês disse que uma investigação sobre as denúncias já foi instaurada e afirmou que várias autoridades militares já foram presas pelas “violações”.

O general Shams Eddin Kabashi não entrou em detalhes sobre estas supostas investigações durante a entrevista, cedida na noite de quinta-feira 13, se limitando a dizer que os crimes são “dolorosos e ultrajantes” e rejeitando os pedidos de intervenção internacional no assunto.

Mais de 100 civis foram mortos em um ataque a um acampamento de manifestantes na segunda-feira 3, quando paramilitares das Forças de Apoio Rápidas (RSF) executaram diversas operações para oprimir protestos na capital sudanesa.

O número de vítimas pode ser ainda maior, já que muitos dos corpos foram jogados no rio Nilo em uma tentativa de encobrir a extensão do massacre. Outras centenas de pessoas ficaram feridas na série de espancamentos e abusos sexuais. Um levantamento de médicos de Cartum estimou que pelo menos 70 civis, entre homens e mulheres, foram estuprados durante o ataque.

Os militares do Sudão assumiram a liderança do país em um golpe no dia 11 de abril, destituindo o ditador Omar al-Bashir, alvo de grandes protestos contra sua autocracia de três décadas.

Logo depois, os manifestantes tomaram uma área em frente ao Ministério da Defesa, onde começaram novos atos exigindo que os militares entregassem imediatamente o poder aos civis. Em resposta, o conselho interino afirmou que pretendia realizar eleições democráticas, mas apenas dentro de três anos.

As negociações entre o conselho militar e a aliança dos grupos de oposição sobre o controle deste processo transitório foram encerradas depois que os agentes das Forças Armadas reprimiram violentamente o acampamento no dia 3.

Em resposta às mortes, uma greve geral de dois dias parou o Sudão no início desta semana, antes de ser interrompida pelos próprios líderes da oposição popular.

A decisão de interromper a paralisação nacional dividiu os grupos civis. Em entrevista ao Guardian, Ahmad Mahmoud, morador de Cartum que participou dos protestos, defendeu que a desobediência civil deveria continuar até que os militares desistissem de continuar no poder.

“As pessoas aderiram à greve com esta ideia e do nada eles mudaram de ideia”, disse, criticando os líderes do movimento.

Violação antiga

Entidades de defesa dos direitos humanos temem que a violência no Sudão seja ainda mais generalizada, ficando escondida em regiões mais remotas do país. A Organização das Nações Unidas (ONU) já confirmou na quinta-feira que 17 pessoas foram assassinadas e mais de 100 casas queimadas na vila Deleij, na cidade de Darfur, no começo desta semana.

A Anistia Internacional (AI) também disse ter encontrado novas evidências de que “as forças do governo sudanês, incluindo as RSF e milicias aliadas, continuam a cometer crimes de guerra e outras graves violações dos direitos humanos em Darfur.”

Pelo menos 45 vilas do Sudão foram parcialmente ou completamente destruídas neste último ano, ainda segundo a Anistia. “Em Darfur, assim como em Cartum, fomos testemunhas da brutalidade desprezível das Forças de Apoio Rápidas contra os civis sudaneses. A única diferença é que em Darfur eles cometem estas atrocidades impunemente há anos”, afirmou o secretário geral da AI, Kumi Naidoo, ao Guardian.

Enquanto isso, a internet e a comunicação do Sudão continuam restritas, com os esforços diplomáticos estrangeiros tentando mediar novas conversas entre os militares e a oposição civil.

Tibor Nagy, secretário assistente dos Estados Unidos para assuntos da África, encontrou-se ontem com o líder do conselho militar, o general Abdel Fattah al-Burhan, em Cartum, e pediu para que ele implemente medidas para retomar as negociações, o que incluiria o fim dos ataques contra civis, a retirada dos paramilitares da capital e o apoio a uma investigação estrangeira sobre o ataque contra o acampamento.

O porta-voz do conselho interino confirmou a conversa, mas disse que Washington apenas deu “vários conselhos” aos militares. “E eles não são ordens”, enfatizou. Entre os aliados mais poderosos das Forças Armadas sudanesas estão a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, com empréstimos de 3 bilhões de dólares.

O presidente americano Donald Trump retirou as sanções econômicas contra o Sudão em 2017 mas mantém o país na lista de financiadores do terrorismo, impedindo seu acesso a fundos de ajuda internacional. Washington já deixou claro que não irá mudar o status do país enquanto os militares estiverem no poder.