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Sudão: Mortes em repressão vão a 108; oposição rejeita diálogo com regime

O Conselho Militar ordenou a dispersão à força de manifestantes concentrados na segunda-feira em frente à sede do Exército na capital, Cartum

Os líderes do protesto popular sudanês contra o regime militar rejeitaram nesta quarta-feira 5 a proposta de diálogo dos militares no poder, depois que o balanço da repressão do movimento foi revisado para cima, para 108 mortos.

O Conselho Militar ordenou a dispersão à força de manifestantes concentrados na segunda-feira em frente à sede do Exército na capital, Cartum.

A operação, descrita como “massacre” pelos manifestantes, causou 108 mortes, em vez das 60 inicialmente relatadas, segundo um comitê de médicos favorável ao protesto.

Do total de mortes, 61 foram contadas em hospitais e 40 foram encontradas nas águas do Nilo, segundo esses médicos próximos ao movimento de protesto. A repressão também deixou mais de 500 feridos, acrescentaram essas fontes.

Após o ataque, a Força de Apoio Rápido (RSF, na sigla em inglês), um grupo paramilitar ligado ao Exército, foi mobilizada em todo o país. Diante do temor que a situação pior, a ONU decidiu realocar temporariamente parte de sua equipe no Sudão. O Reino Unido também retirou funcionários “não essenciais” de sua embaixada em Cartim e desaconselhou os britânicos a viajar para o país.

“O povo sudanês não está aberto a negociações”, proclamou Amjad Farid, porta-voz da Associação de Profissionais Sudaneses que lideram o movimento de protesto.

“O povo sudanês não está aberto a este conselho de transição militar que mata pessoas, e precisamos de justiça e responsabilização antes de podermos falar sobre qualquer processo político”, disse ele. Nesta quarta-feira, várias testemunhas relataram disparos de armas de fogo na capital sudanesa.

O comércio em Cartum não abriu e poucos eram os veículos circulando nas ruas no dia em que o país celebra o Eid al Fitr, que marca o fim do mês do Ramadã muçulmano.

A internet móvel não está acessível desde segunda-feira, enquanto as redes sociais desempenharam papel fundamental no movimento de contestação.

O acampamento, que começou em 6 de abril, conseguiu a destituição do presidente Omar al-Bashir em 11 de abril, substituído pelo Comitê Militar de Transição. Os manifestantes, no entanto, prosseguiram com o acampamento diante da sede das Forças Armadas para exigir a transferência de poder aos civis.

‘A situação é muito difícil’

“Entre os feridos, há pessoas em estado grave e esperamos que o número de mortos aumente”, declarou um médico que trabalha em dois hospitais de Cartum.

“A situação é muito difícil”, afirmou à AFP sob condição de anonimato por razões de segurança. “A maioria dos hospitais recebeu mais vítimas que suas capacidades”.

Em Cartum, o tráfego era complicado em razão da presença das RSF e dos bloqueios de manifestantes, que armaram barricadas com pedras, troncos e pneus queimados.

As RFS costumam atuar em outras regiões em conflito no Sudão e são acusadas por muitos sudaneses e organizações de defesa dos direitos humanos de graves excessos em Darfur (oeste).

Em um discurso televisionado, o chefe do Conselho militar Abdel Fattah al-Burhane disse “lamentar o que aconteceu” em Cartum na segunda-feira. Uma investigação foi aberta pelo Procuradoria Geral.

Os generais negam ter “dispersado pela força” os manifestantes em frente à sede do Exército, e evocam uma “operação de limpeza” perto do acampamento pelas forças de segurança que degenerou em violência.

“Abrimos os braços a negociações sem restrições para fundar um poder legítimo que seja o reflexo da revolução dos sudaneses”, declarou o general Burhane, pedindo “a abertura de uma nova página”.

Os generais decidiram anular todos os acordos e negociações com os líderes da contestação, apelando para a realização de eleições.

As negociações haviam sido suspensas em 20 de maio diante das divergências sobre a transição pós-Bashir.

A comunidade internacional pediu a retomada do diálogo. Mas, “ao ordenar esses ataques, o Conselho militar de transição colocou em perigo o processo de transição e de paz no Sudão”, denunciaram Washington, Londres e Oslo.

O departamento americano de Estado anunciou que os EUA condenam “os recentes ataques contra manifestantes” e pediu aos militares no poder que “renunciem a violência”.

De acordo com diplomatas, a China, apoiada pela Rússia, bloqueou na terça-feira no Conselho de Segurança da ONU um texto condenando as mortes de civis e pedindo o fim da violência.

A Anistia Internacional fez um apelo à União Africana e à ONU para “adotar ações imediatas para que os responsáveis por esta violência sejam levados à justiça”.