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Falta de oxigênio: drama de Manaus pode se repetir em Los Angeles

Com hospitais à beira do colapso, escassez de leitos de UTI e carência de suprimentos, uma pessoa morre a cada 15 minutos na cidade californiana

Por Julia Braun 15 jan 2021, 12h36

A busca desesperada por cilindros de oxigênio para atender os pacientes com Covid-19 nos hospitais de Manaus chocou o Brasil e o mundo assim que a notícia se espalhou. Nos Estados Unidos, hospitais de Los Angeles vivem um drama semelhante depois que o número de casos explodiu apenas algumas semanas após as celebrações de Natal e Ano Novo, o sistema de distribuição de oxigênio em algumas regiões entrou em colapso e médicos foram obrigados a reduzir as taxas de O2 repartidas entre os pacientes a níveis mínimos.

Os centros médicos do condado californiano estão à beira do caos com mais de 8.000 pessoas internadas. Ao menos 20% das hospitalizações já migraram para casos mais sérios e os pacientes tiveram que ser transferidos para UTI. Muitos hospitais na zona metropolitana já não tem mais leitos de cuidado intensivo disponíveis e o grande medo das autoridades é que os médicos precisem passar a racionar os suprimentos e até escolher quais pacientes receberão mais cuidados.

Diante da situação sem precedentes, a agência que regula os serviços médicos em Los Angeles emitiu uma nota na segunda-feira 11 orientando os hospitais da região a administrar oxigênio suplementar apenas nos pacientes com níveis de saturação abaixo de 90%, como forma de prevenir o esgotamento do suprimento.

Já no final de dezembro, ao menos cinco hospitais haviam decretado estado de “desastre interno”, fechando suas portas para novos pacientes e até ambulâncias. Alguns ainda tiveram que converter lanchonetes, lojas de lembranças e até salas de conferência em áreas de internação, para poder abrigar todos os pacientes. Outros ainda deslocaram profissionais de outras áreas para as UTIs, obrigando o cancelamento de cirurgias e procedimentos de menor urgência.

“Muitos hospitais chegaram a um ponto de crise e estão tendo que tomar decisões muito difíceis sobre o atendimento ao paciente”, disse a Dra. Christina Ghaly, diretora de serviços de saúde do condado. Ela pediu aos residentes que evitem o pronto-socorro, a menos que precisem de cuidados médicos sérios.

Segundo as autoridades locais, uma pessoa morre a cada 15 minutos de coronavírus em Los Angeles. O estado da Califórnia direcionou quase 90 caminhões refrigerados para a cidade, para serem usados como necrotérios improvisados.

Ao todo, o condado já registrou 975.000 casos e 13.200 mortes pelo vírus desde o início da pandemia. Somente na última semana mais de 1000 pessoas morreram.

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O governador da Califórnia, Gavin Newsom, afirmou na segunda-feira que o estado enviou equipes de assistência médica para a área de Los Angeles para ajudar a reduzir a pressão nos hospitais. No entanto, admitiu que se houver outro aumento de casos da Covid-19, a equipe adicional não será suficiente.

Distribuição de oxigênio

O Corpo de Engenheiros do Exército americana conduziu uma avaliação na semana passada e concluiu que ao menos 11 hospitais no sul da  Califórnia precisam urgentemente de uma reestruturação em seus sistemas de distribuição de oxigênio, já que muitas falhas foram detectadas após uso excessivo.

O oxigênio comprimido é muito frio e pode congelar as gotículas que se acumulam ao redor dos tubos usados para alimentar os pacientes. A temperatura pode cair ainda mais com quantidades cada vez maiores de O2 comprimido fluindo pelo sistema, e cilindros congelados podem fazer com que o sistema de distribuição de oxigênio em um hospital pare de funcionar.

Segundo o Exército americano, também não é fácil remover o gelo que se acumula na superfície dos tubos. Como o oxigênio purificado é altamente inflamável, não é recomendado, por exemplo, usar maçaricos ou outras formas de aquecimento.

Drama em Manaus

A situação atual de Los Angeles lembra o drama vivido em Manaus nos últimos dias, que é ainda mais preocupante. A média móvel de mortes quadruplicou e a taxa de casos quase triplicou nas duas últimas semanas na cidade. Os hospitais estão apinhados, com quase 90% dos leitos adultos de UTI ocupados. Há também falta de oxigênio líquido, cujo consumo passou de 176 000 para 850 000 metros cúbicos ao mês.

A forte recaída da pandemia em Manaus é resultado de um coquetel de fatores que incluem desde questões climáticas sazonais — como a chegada do chamado “inverno amazônico”, temporada de chuvas em que crescem os casos de doenças e vírus respiratórios — até, possivelmente, situações extraordinárias, como a descoberta de uma variante local do vírus, detectada pelo Japão após quatro cidadãos daquele país terem retornado do Amazonas.

Muito além disso, outras três chagas, bastante evitáveis, estão por trás da crise anterior e da atual de Manaus: a desarticulação das autoridades, a falta de estrutura, de profissionais, de insumos médicos, e a incompreensão de parte da sociedade no combate ao problema.

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