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Ex-chefe do Fisco admite ter tentado abafar escândalo

Steven Miller reconheceu ter orquestrado vazamento de irregularidades como forma de se antecipar às revelações e esvaziar investigações em andamento

O chefe demissionário do Fisco americano, Steven Miller, admitiu nesta terça-feira ter sido o responsável por uma fracassada tentativa de abafar o escândalo sobre o uso da máquina pública na perseguição a grupos conservadores. Na semana passada, durante uma reunião reservada da American Bar Association (equivalente à OAB), uma alta funcionária do Internal Revenue Service (IRS, a Receita americana), Lois Lerner, admitiu os abusos e pediu desculpas às entidades prejudicadas. Puro teatro: nesta terça-feira, Miller admitiu ter orquestrado o vazamento no encontro com advogados, uma forma de se adiantar à revelação dos abusos no Fisco e esvaziar o relatório das investigações que estavam em andamento.

Em audiência na Comissão de Finanças do Senado, Miller reconheceu que a cúpula do IRS de fato sabia da investigação realizada pelo Tesouro e que por isso orientou a admissão das irregularidades na reunião com a American Bar Association. “Obviamente, a coisa toda foi uma má ideia”, disse Miller, segundo o jornal The New York Times. Pelo menos nisso ele tem razão: o vazamento saiu do controle e expôs de forma inequívoca o uso da máquina pública para prejudicar a oposição ao presidente Barack Obama.

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Embora tenha admitido a operação-abafa, Miller insistiu nesta terça-feira na versão, já desacreditada pelos fatos, de que tudo não passou de “erros imprudentes” cometidos por funcionários sem motivação partidária. E também negou o óbvio: ludibriou os congressistas em abril do ano passado, ao afirmar que não havia perseguição do Fisco a grupos conservadores. O senador republicano Orrin Hatch reagiu: “Isso é mentira por omissão. Por que o senhor enganou a mim e aos meus colegas?”. Miller tinha conhecimento das irregularidades, em detalhes, desde março de 2012 e foi a primeira cabeça a ser cortada depois que o escândalo veio à tona. Ele ocupava interinamente a chefia do órgão e foi forçado a renunciar na última sexta-feira.

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“Nível de seriedade” – Também nesta terça-feira o Senado ouviu Douglas Shulman, que comandou o IRS entre 2008 e 2012 – ou seja, era ele quem estava na direção quando as irregularidades tiveram início, em 2010. Shulman tentou se distanciar do caso. “Eu não tinha um panorama completo dos fatos”, disse aos membros da comissão. Ele afirmou que apenas no ano passado soube que era feita uma seleção dos alvos do Fisco com base em termos como “tea party”, mas acrescentou que não tinha conhecimento do “nível de seriedade” do esquema. Por isso, acrescentou, ficou “perturbado” ao ler o relatório do Tesouro.

O relatório aponta, entre outros abusos, que funcionários do IRS em Cincinnati, no estado de Ohio, perseguiam grupos que tinham os termos “tea party ” ou “patriotas” no nome. “O que aconteceu em Cincinnati – que condições causaram aquilo?”, perguntou o democrata Max Baucus, do estado de Montana, depois de reclamar que o IRS perdeu o bom senso. Shulman esquivou-se: “Não posso dizer que tenho a resposta. Estou há seis meses fora do cargo”. Por causa da perseguição a grupos conservadores, o IRS está sendo investigado no Congresso e pelo Departamento de Justiça. “O problema é que ninguém está assumindo a responsabilidade”, disse o senador Pat Roberts, republicano do Kansas, segundo o The Wall Street Journal.

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Direito de ficar calada – Nesta quarta-feira, o Congresso tem audiência marcada com Lois Lerner, chefe da divisão de isenção fiscal do IRS, coração das irregularidades. Mas segundo informou o jornal Los Angeles Times, ela vai invocar a quinta emenda à Constituição americana, que lhe garante o direito de ficar calada para não se incriminar. “Ela não cometeu nenhum crime, nem deu nenhuma declaração falsa. Mas, diante das circunstâncias, ela não tem escolha a não ser tomar essa decisão”, diz o comunicado enviado pelo advogado William Taylor.

(Com agência Reuters)