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Estados Unidos: uma eleição contagiante

Trump testa positivo, deixa dúvidas sobre a gravidade do caso e cai nas pesquisas. Biden emplaca 16 pontos na frente, mas, mesmo assim, mantém a cautela

Por Ernesto Neves Atualizado em 9 out 2020, 10h34 - Publicado em 9 out 2020, 06h00

Aconteceu: Donald Trump, o rei da negação da gravidade do novo coronavírus, testou positivo, junto com Melania, assessores, ministros e jornalistas — provavelmente infectados a partir de uma cerimônia no Jardim de Rosas da Casa Branca em que todo mundo sentou juntinho e confraternizou. Sendo essa a reta final de uma campanha eleitoral embolada, o que se seguiu foi confuso até para os padrões Trump. Ele cooptou médicos e porta-vozes para garantir que estava tirando o vírus de letra, mas, “por excesso de zelo”, foi internado e passou 72 horas no Hospital Militar Walter Reed, de Washington, onde foi tratado com um coquetel que incluiu todos os medicamentos de comprovada eficiência em casos graves. Aprovado com louvor nos requisitos de alta, sempre segundo seus médicos, retornou à Casa Branca na segunda-feira 5. A primeira providência foi tirar a máscara. A segunda, isolado a contragosto na ala residencial, foi disparar uma saraivada de tuítes.

Trump anunciou que estava “em melhor forma física do que há vinte anos”, aconselhou a população a “não se deixar dominar pelo vírus”, lembrou que “muitas pessoas morrem de gripe todos os anos” e nem por isso há lockdown. O próximo encontro entre os dois deveria acontecer no debate eleitoral da próxima quinta-feira, 15, virtualmente. Trump, no entanto, avisou que não aceita o formato. O estrago, porém, estava feito. Em meio a suspeitas sobre a veracidade dos boletins médicos e das afirmações, as intenções de voto em Trump desabaram e Biden, na quarta-feira 7, exibiu sua maior diferença positiva até agora: 16 pontos, atribuídos pelo presidente “à imprensa das fake news, que só mostra pesquisas falsas”.

EU USO - Biden faz campanha de máscara (“enorme”, segundo o adversário): o candidato discreto – Roberto Schmidt/AFP

A enquete divulgada pela CNN mostra Biden com 57% dos votos e Trump com 41%, uma distância considerada histórica, apenas 2 pontos abaixo da que Ronald Reagan abriu contra Walter Mondale na vitória por lavada em 1984. Quanto maior a margem, mais espalhada tende a ser a base de apoio do candidato e menor é a possibilidade de surpresas no tortuoso Colégio Eleitoral. Há mais de um ano Biden lidera nas pesquisas nacionais, por diferenças bem menores. O salto dos últimos dias, segundo analistas, está diretamente relacionado ao fato de a Casa Branca ter se tornado um foco de contágio que já atingiu 34 pessoas do alto escalão, enquanto o governo segue diluindo a importância no vírus. Pela insistência em falar mal de máscaras, distanciamento social e quarentena, o governo é reprovado atualmente por 72% das mulheres, 66% dos americanos com mais de 65 anos e 65% dos brancos com diploma universitário — três grupos que derramaram votos em Trump em 2016. Além disso, dois terços da população consultada disseram que desconfiam dos boletins médicos do presidente. “A tática de apresentar a contaminação como um ato de coragem do líder da nação no enfrentamento do problema não está dando certo”, diz John Tures, professor de ciências políticas da LaGrange College.

Mesmo com o vento soprando a favor de Joe Biden, até os apoiadores mais fervorosos do senador continuam segurando na garganta o “já ganhou”. Dos treze estados — os swing states — que são decisivos no Colégio Eleitoral, porque a maioria dos eleitores não tem fidelidade clara a um partido (ao contrário da Califórnia, por exemplo, historicamente democrata, e do republicano Nebraska), seis estão com Biden, o que ancora sua dianteira nas pesquisas. Mas nos outros o placar permanece indefinido e, em cinco, a competição é nariz a nariz (veja no quadro). Entre eles há pesos-pesados como o Texas, com 38 delegados, a Flórida, com 29, e Ohio, com dezoito. No total de 538 delegados do Colégio, em que o resultado de cada estado determina para onde vão, em bloco, os votos de seus representantes, esses números fazem toda a diferença, até porque as regras estão sujeitas a manobras. Em 2016, Hillary Clinton ganhou de Trump nas urnas por 2 pontos percentuais — perto de 3 milhões de votos —, mas seus eleitores se concentraram em estados populosos e Trump foi eleito porque levou em uma quantidade maior deles. Já em 2000, os republicanos contestaram a apuração em distritos da Flórida e, grita daqui, briga dali, o caso foi parar na Suprema Corte, que deu os votos estaduais a George W. Bush, menos votado nas urnas do que Al Gore.

A quatro semanas da eleição, 5 milhões de americanos já enviaram antecipadamente sua cédula pelo correio, um recorde. O alto número, dez vezes maior do que, a esta altura, em 2016, era esperado devido à relutância dos eleitores em sair de casa, enfrentar fila e ter contato com outras pessoas durante a pandemia, que ainda não está controlada em muitas regiões dos Estados Unidos. A mobilização deve favorecer democratas, mais dispostos a ir votar em um país onde isso não é obrigatório — daí a “precaução” de Trump de denunciar desde já supostas fraudes no sistema. Em situação confortável graças principalmente ao sentimento anti-Trump, Biden vem pisando em ovos para conduzir com a máxima cautela as últimas semanas de campanha. Ao embarcar em um voo na Flórida, estado em que lidera por margem estreitíssima, admitiu a repórteres que “está relutante em comentar a saúde do presidente”. Em outro momento, declarou: “Espero que sua recuperação seja rápida e bem-sucedida, mas a crise da Covid-19 está longe de terminar”. “Ele não está nem um pouco preocupado com o fato de não ocupar as manchetes neste momento”, afirma Mark Katz, especialista em política americana da George Mason University. Para Biden, o silêncio, nesta altura da campanha, vale votos.

Publicado em VEJA de 14 de outubro de 2020, edição nº 2708

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