Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Em pronunciamento sobre Síria, retórica não salva Obama

Presidente sempre foi um orador brilhante, mas discurso sobre a Síria não o livrou da pecha de ser "fraco e hesitante" na condução da política externa

O presidente americano Barack Obama chegou à noite desta terça-feira com os piores índices de aprovação de seu governo. E a política externa é um de seus calcanhares de Aquiles. Segundo uma pesquisa divulgada na segunda-feira pelo canal Fox News (que contou com entrevistadores tanto do partido Democrata quanto do Republicano), quase metade dos eleitores consideram o presidente “fraco e hesitante” nessa área. O pronunciamento de Obama na televisão sobre a guerra civil na Síria – e seus planos para influir nos rumos do conflito – foi uma tentativa de mudar esse quadro. O esforço não deve ser bem-sucedido. Mais importante: essa imagem de um presidente vacilante e sobrepujado por seu rival russo, Vladimir Putin, no xadrez da política internacional, tende a se consolidar também na mente de aliados e inimigos externos dos Estados Unidos.

“É muito cedo para dizer se a oferta será bem-sucedida”, disse Obama sobre a proposta apresentada pela Rússia de colocar o arsenal de armas químicas da Síria sob controle internacional. “Qualquer acordo deve verificar se o regime Assad vai manter os compromissos assumidos, mas essa iniciativa tem potencial para remover a ameaça de armas químicas sem o uso da força, particularmente porque a Rússia é um dos aliados mais fortes de Assad”. Logo depois, o presidente acrescentou que a ordem para os militares é “manter a postura atual de continuar pressionado Assad e estar a postos para responder se a diplomacia falhar”.

O pronunciamento demonstrou que as conhecidas habilidades de comunicação do presidente não são suficientes para tirá-lo do labirinto – para usar a expressão de Caio Blinder – representado pela crise na Síria. Em resumo, Obama tentou defender ao mesmo tempo a sabedoria da via diplomática e a necessidade e a eficácia da ação militar. Uma estratégia impraticável, bem descrita pela palavra “indecisão”.

Obama caiu numa armadilha que montou para si próprio. Há cerca de um ano, ele disse que o regime de Bashar Assad cruzaria uma “linha vermelha” se empregasse armas químicas. O uso de gás sarin num subúrbio de Damasco, em 21 de agosto, resultou na morte de mais de 1 400 pessoas e levou o presidente americano a falar publicamente numa ofensiva.

De um primeiro posicionamento cauteloso, no sentido de buscar provas para esclarecer o massacre, a posição americana rapidamente tornou-se belicosa, até o secretário de Estado John Kerry dizer que o ataque químico era “inegável” e responsabilizar Assad. Logo em seguida, o secretário de Defesa Chuck Hagel disse que os EUA estavam prontos para atacar. E enfim, Obama também responsabilizou o regime sírio, mesmo dizendo que ainda não havia decidido como responder ao ataque.

Nos últimos dias de agosto, quando os EUA pareciam cada vez mais próximos de intervir na Síria, um importante aliado, a Grã-Bretanha, recuou. O primeiro-ministro David Cameron resolveu consultar o Parlamento, que rejeitou a participação britânica em uma ofensiva liderada pelos Estados Unidos. A França passou a ser o aliado mais próximo do governo americano na empreitada. A essa altura, Obama já falava em um ataque “limitado”, sem o envio de tropas. Argumento que não convenceu os americanos – as pesquisas de opinião internas indicando que a maioria da população é contra o envolvimento americano em mais uma guerra só faziam minar a certeza de que o caminho militar era politicamente viável. Obama então resolveu também consultar o Congresso e, apesar de ter conseguido algum apoio inicial, o número de indecisos é de contrários à ofensiva supera com folga o de favoráveis. Para afastar a derrota iminente, Obama anunciou em seu pronunciamento que pediu às lideranças que adiem a votação sobre a proposta de intervenção “enquanto buscamos esse caminho diplomático”.

Saiba mais:

Acordo entre EUA e Rússia pode ser saída para crise, diz professora de Oxford

Emprego de armas químicas rompe marco civilizatório

A inclinação americana para o ataque foi precipitada e imprudente em diversos sentidos. Em primeiro lugar, não estava comprovado se o ataque havia sido realmente realizado pelas forças de Assad ou por seus oponentes – e isso continua incerto, a despeito das repetidas afirmações de que a inteligência americana tem provas que responsabilizam o regime do ditador. Em segundo lugar, uma aventura militar na Síria pode prejudicar ainda mais os interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio, uma vez que o número de jihadistas combatendo na Síria cresce continuamente – o próprio Kerry admitiu que os “caras maus” representam entre 15% e 25% das forças anti-Assad. Em terceiro lugar, Obama aparentemente falou sem ter uma ideia clara do apoio que obteria para uma nova guerra tanto entre os aliados tradicionais dos Estados Unidos quanto entre os próprios americanos.

Rússia – Ironicamente, a saída para o labirinto em que Obama se encontra foi apontada pela Rússia de Vladimir Putin. Ou seja: é uma saída estreita e perigosa. Na segunda-feira, Putin apresentou a proposta de que o arsenal de armas “não convencionais” da Síria fosse posto sob controle internacional. A sugestão – vinda de seu principal apoiador no front internacional – foi imediatamente acolhida pela Síria. O país anunciou até mesmo a intenção de aderir à Convenção de Armas Químicas de 1993. O problema dessa solução é que ela pode não passar de jogo de cena. A revista Weekly Standard imaginou como teria sido a conversa entre Moscou e Damasco sobre a proposta:

“Quem sabe o que os russos disseram a Assad? Pelo amor de Deus, apenas diga que essas são suas armas químicas e envie a eles frascos de perfume ou urina de gato. Os americanos querem apenas um acordo. Se forem espertos, eles vão deixar tudo pra lá e vão anunciar a história toda como uma vitória. Depois, ele vai voltar e reclamar que você não está cumprindo sua parte no trato. E cada vez que Obama lamentar, vai fazer com que seus adversários e aliados em todo o mundo lembrem que os americanos são vazios, um bando de burocratas legalistas incapazes de defender seus amigos”.