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Em busca de nova imagem, príncipe Salman faz cruzada ecológica

Enquanto empreende guerra contra o Iêmen e intensifica repressão interna, Mohammad Bin Salman adere à bandeira da sustentabilidade

Por Ernesto Neves Atualizado em 20 jan 2022, 20h26 - Publicado em 21 jan 2022, 08h07

Responsável por empreender uma guerra sangrenta contra o vizinho Iêmen e pela repressão política a oposicionistas – em 2018, seu governo envolveu-se diretamente no assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, na Turquia – o príncipe Mohammad Bin Salman tenta, a todo custo, limpar sua imagem junto ao Ocidente.

Agora, Salman, também conhecido como MBS, parece ter encontrado uma bandeira ideal: a sustentabilidade.

O ditador vem implantando uma série de projetos que prometem transformar seu reino num paraíso ecológico até o final desta década.

A ideia, garante MBS, é preparar a Arábia Saudita para um futuro em que o petróleo não será mais necessário para a economia global.

Se der certo, o feito será de fato revolucionário.

A Arábia Saudita é hoje o maior exportador de petróleo do mundo e tem as maiores emissões de dióxido de carbono per capita entre os países do G-20. O poluente é o principal causador do efeito estufa.

A empreitada foi batizada como “Visão 2030” e tem como epicentro a sufocante capital saudita, Riad.

Encravada no deserto, a metrópole de 8 milhões costuma registrar temperaturas de 47°C entre os meses de junho e setembro, auge do verão. Riad tem paisagem estéril e dispõe de pouquíssima vegetação.

A capital saudita enfrenta graves problemas  derivados de seu crescimento acelerado. Desde a década de 1950, a população local multiplicou-se por 50.

O boom do petróleo fez com que a metrópole crescesse sem planejamento, com avenidas largas e pouco sombreadas, calçadas desconexas ou inexistentes, falta de espaços públicos voltados para o lazer e grave escassez de água. Não há rede de transporte público e praticamente tudo precisa ser feito de carro. 

Tudo isso, promete Mohammad Bin Salman, mudará em breve.

O príncipe planeja tornar Riad um polo de atração global de talentos, que, segundo ele, terão o privilégio de viver num oásis de qualidade de vida e proteção ambiental. 

Segundo o projeto, Riad vai dobrar sua população nos próximos 10 anos e competir diretamente com outras estrelas do Oriente Médio, como Dubai e Tel Aviv.

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MBS sabe que seria impossível atrair talentos da Europa, Austrália, Estados Unidos e Canadá para uma cidade tão hostil.

E por isso, planeja gastar bilhões de dólares da receita do petróleo numa reengenharia completa do cotidiano local.

A mudança incluirá transporte público de ponta, veículos elétricos, parques em todos os bairro e milhões de árvores a mais.

Para torná-la esse exemplo global de urbanismo, as autoridades preveem investimendos da ordem de 92 bilhões de dólares, cerca de 500 bilhões de reais, em melhorias.

O plano prevê o plantio de 15 milhões de árvores, reutilização de 100% da água consumida por seus moradores para irrigação, implantação de frota elétrica de carros e ônibus e um sistema de metrô capaz de transportar 4 milhões de pessoas por dia.

Arborização à beira das estradas faz parte dos esforços para tornar a capital, Riad, em exemplo verde
Arborização à beira das estradas faz parte dos esforços para tornar a capital, Riad, em exemplo verde Getty/Getty Images

Uma das maiores intervenções previstas, por sinal, já está a pleno vapor. Trata-se do parque King Salman. Erguido em pleno deserto estéril, ele será coberto por jardins suntuosos, que deverão ocupar uma extensão quatro vezes maior que a do Central Park, em Nova York.

Riad deverá ser verde o suficiente para reduzir sua temperatura média em 2°C.

A cobertura vegetal também deverá proteger a cidade das mudanças climáticas, que vem intensificando as ondas de calor no Oriente Médio. 

O príncipe MBS também já tem exemplos práticos para exibir. Entre eles está a região de Wadi Hanifah, um vale que atravessa Riad.

Durante décadas, essa área serviu como depósito de lixo e para o descarte de rejeitos da construção civil

O programa para reabilitá-lo já deu certo, e hoje o Wadi Hanifah é ocupado por áreas de lazer. Há ciclovias e áreas para piqueniques e churrascos, todas elas protegidas por vasta vegetação.

Com tanto dinheiro para gastar, é provável que a Arábia Saudita consiga se transformar num polo de políticas sustentáveis. Bem mais difícil, porém, será modernizar a imagem de Mohammad Bin Salman.

Até 2030, sauditas esperam que urbanismo do país faça inveja às capitais da Europa e Estados Unidos
Até 2030, sauditas esperam que urbanismo do país faça inveja às capitais da Europa e Estados Unidos Getty/Getty Images
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