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Donna Shalala: ‘Republicanos assinam cheques para minha campanha’

Candidata a uma cadeira na Câmara, democrata diz que sua arrecadação entre opositores se deve à preocupação com o governo de Trump

A libanesa-americana Donna Shalala está entre as 257 mulheres que disputam uma cadeira no Congresso dos Estados Unidos, em sua maioria contra candidatos do sexo masculino, nas eleições da próxima semana. A democrata, de 77 anos, relaciona este recorde na participação feminina à elevada polarização no país e argumenta que, sob a liderança de Donald Trump e a maioria republicana no Congresso, os Estados Unidos vivem o auge do retrocesso político.

A atual configuração política no Congresso está prestes a mudar. Se as pesquisas eleitorais ainda forem bons indicadores, a Câmara dos Representantes deverá abrigar maioria democrata a partir de janeiro. No dia 6 de novembro, os americanos vão às urnas para escolher os ocupantes dos 435 assentos da Câmara e 35 dos 100 do Senado, além de 39 governadores.

Por tradição, a noite do pleito é de derrotas para o partido da situação e, se depender de Shalala, desta vez serão históricas para os aliados de Trump. A candidata não esconde seu entusiasmo com um possível freio institucional no Executivo americano.

Esta é a primeira vez que a democrata Shalala se candidata a um cargo público, embora sua experiência pública seja extensa. Doutora em Ciência Política, ela foi secretária de Saúde e trabalhou nas campanhas eleitorais dos Clinton. Presidiu a Fundação da Família até o ano passado e, entre 2001 e 2015, a Universidade de Miami.

Nestas eleições, ela concorre a um assento na Câmara pelo 27º distrito do estado da Flórida. Em um escritório atrás do Capitólio, em Washington, ela concedeu esta entrevista a VEJA.

 Em que esta eleição é atípica? Donald Trump. Simplesmente, Donald Trump. Em primeiro lugar, os democratas estavam muito descontentes com a derrota de Hillary Clinton, em 2016, porque acreditavam fortemente que ela era a candidata mais qualificada e que, pela primeira vez, elegeríamos uma mulher. Por isso, há muito descontentamento. Agora, há uma grande preocupação com o nosso país dando passos para trás. Por isso, esta eleição legislativa não é apenas uma eleição legislativa. Veremos uma participação massiva de eleitores que vão às urnas julgar o atual governo. Apesar de ser um pleito local, paira sobre as nossas cabeças a figura de Donald Trump.

O que exemplifica esses passos para trás? Os Estados Unidos estão regredindo em assuntos tão variados, como os direitos das mulheres, o meio ambiente, as mudanças climáticas e o aumento do nível do mar, que são de grande preocupação em Miami. E também no nosso respeito e reputação internacionais, em imigração, em cortes de impostos que favorecem aos ricos e não aos pobres, no futuro da nossa dependência no petróleo, em lugar da adoção de energia eólica e solar. Há uma regressão do uso da ciência para se tomar decisões. Esta eleição é sobre os fundamentos do futuro da sociedade americana. Nós não temos sempre eleições legislativas assim. Esta é a mais importante que eu presencio na minha vida.

O que deve determinar o voto de eleitores independentes e indecisos? Eu não acredito que existam eleitores independes, descolados, que troquem frequentemente de partido. Acho que essas pessoas simplesmente rejeitam ambos os partidos políticos e votam baseados em um conjunto de temas importante para eles. Este ano, acho que os independentes estão muito preocupados com o retrocesso do nosso país, em proteger nossos filhos das armas de fogo, sobre a reforma imigratória, sobre ter um presidente que separa uma criança de seus pais, sobre o meio ambiente e sobre o respeito da liderança americana no mundo. Acho que também há muitos republicanos preocupados.

“Os EUA estão regredindo. Esta eleição é sobre os fundamentos do futuro da sociedade americana”

Há republicanos preocupados a ponto de votar para o Partido Democrata? Com certeza. Muitos estão preocupados com o futuro do país e não gostam da polarização. Mas nós sempre funcionamos bem com dois partidos. Por isso, dar o controle da Câmara dos Representantes para o Partido Democrata é a maneira de fiscalizar as políticas extremas do governo Trump. Os americanos estão pensando desta maneira.

Em geral, os eleitores do partido do governo ficam em casa quando estão insatisfeitos com o líder que elegeram. Por que desta vez será diferente? Eu posso afirmar que será diferente porque eu mesma estou recebendo votos republicanos. Eles estão assinando cheques para a minha campanha porque estão preocupados com o presidente Trump. Para uma parte dos conservadores, o comportamento dele é inaceitável.

Nesta eleição, há um recorde de 257 mulheres concorrendo a cargos no Congresso. O que explica isso? Tradicionalmente, as mulheres têm dificuldades em entrar na política. Às vezes, elas têm oportunidades em distritos muito difíceis, mas a questão sempre foi o dinheiro. As mulheres mostraram agora que conseguem arrecadar fundos para suas campanhas e que representam suas comunidades. Eu estou concorrendo no sul da Flórida, e por todo o Estado há candidatas que são muito talentosas e realizadas, que conseguiram arrecadar fundos para suas campanhas. Hillary Clinton demonstrou isso. As mulheres agora podem atrair doadores não só entre elas, mas também entre os homens. Demorou muito, mas a realidade foi transformada. Nós acreditamos que poderíamos eleger uma mulher para a Presidência, e Clinton demostrou que as mulheres conseguem arrecadar dinheiro o suficiente para serem levadas a sério.

Outras mulheres estão fazendo história, como democrata e muçulmana Rashida Tlaib no 13º distrito de Michigan, que é tradicionalmente republicano. Minnesota também pode eleger a primeira mulher muçulmana do Congresso, Ilhan Omar, da Somália, que chegou aos Estados Unidos como refugiada. Elas enfrentam dificuldades ainda maiores? Elas concorrem em distritos onde são aceitas e estão ganhando porque representam exatamente os imigrantes que moram nessas comunidades. Já tivemos judeus, muçulmanos, muitos católicos. Quando John Kennedy concorreu, em 1960, era muito incomum ter um católico no topo da cédula eleitoral. Todos esses parâmetros foram sendo quebrados, e os americanos foram aos poucos aceitando as pessoas como elas são e o que elas dizem do futuro. Já não importa se elas são muçulmanas, budistas, católicas.  Isso é consequência da imigração. Eu sou uma libanesa-americana concorrendo para a Câmara. Houve outras libanesas-americanas. Todo mundo nesse país vem de algum lugar, e nós aceitamos que somos um país feito de imigrantes. Nós celebramos isso nas eleições.

O presidente atual parece não pensar assim. Donald Trump trouxe à tona o que há de pior neste país, e acho que tanto os republicanos quanto democratas querem que seu governo seja fiscalizado. Quando escuto como ele se refere aos sírios, por exemplo, me sinto como todos os americanos: furiosa. Posso garantir que meus amigos judeus ficam tão furiosos quanto eu. Meus amigos católicos e muçulmanos também. Os ataques contra imigrantes deixam todos com medo: os que são novos no país e os mais antigos. A função do presidente é fazer com que as pessoas se sintam seguras, e não assustadas. Por isso, tantas mulheres e progressistas estamos concorrendo este ano.

A senhora planeja defender imigrantes de países árabes, dada sua origem libanesa? Como é sua relação com essas minorias? Eu pretendo defender os direitos humanos de todos. Não me considero mais próxima a qualquer um dos grupos étnicos ou religiosos porque sempre fiz questão de incluir a todos. Por todas as instituições que passei, contratei pessoas de diferentes origens. Minhas discussões políticas sempre incluíram pessoas de diferentes origens.

Na Flórida, os eleitores decidirão também sobre a volta do direito ao voto para ex-detentos. Como a senhora vê essa questão? É um voto por Justiça. Eu acho que os ex-detentos que já cumpriram suas penas e não cometeram crimes violentos precisam ser novamente incluídos. Trata-se de 1,5 milhão de pessoas que poderão reaver seu direito ao voto. É um tema não-partidário, apoiado por Igrejas também.

“Quando John Kennedy concorreu, era muito incomum ter um católico no topo da cédula.
Todos esses parâmetros foram quebrados”

O que acontecerá, em termos de políticas públicas, se os democratas retomarem o controle da Câmara? Trabalharemos por um significativo controle de venda de armas, avançaremos em temas de meio ambiente, impulsionaremos uma reforma imigratória abrangente e faremos uma revisão dos custos do sistema de saúde, para que todos possam estar cobertos para qualquer doença.  Avançaremos também na questão da educação, que precisa ser revista. Hoje em dia, os estudantes precisam se endividar tremendamente para estudar. Essas são preocupações de todos, não apenas dos democratas.

Isso será possível sem o controle democrata também do Senado? Vamos ver o que acontece. Acho que teremos uma vitória esmagadora na Câmara e que temos chances de ganhar também o Senado.

E se republicanos conseguirem manter a maioria em ambas as casas do Congresso? Continuaremos retrocedendo. No pior dos casos, podemos jogar imigrantes para fora do país, violar direitos humanos, ficar tão atrasados em termos de mudanças climáticas que será perigoso para a saúde da população, e nosso sistema de saúde pode implodir. Jovens não serão capazes de realizar seus sonhos. São questões grandes. Por isso esta eleição é tão importante. Não é uma eleição legislativa qualquer. Os democratas estão prontos para assumir e fazer coisas grandes. O caminho deste governo me preocupa muito. Não consigo pensar em uma só coisa boa que tenha feito ou que possa vir a fazer.

Como esta eleição vai impactar o que acontecerá a presidencial de 2020? A relação é direta. Se os democratas vencerem agora, vamos ganhar uma força que será crítica. Os republicanos terão de lidar com essa onda azul e decidir como vão se posicionar em 2020, porque não podem vencer apoiados numa base minoritária.

Ainda assim, Trump continua atraindo eleitores e tem uma base forte de apoio. Temporariamente. Vamos ver quanto tempo isso vai durar. Os populistas não tiveram muito sucesso em outras partes do mundo. Olhe para a Venezuela, para a Nicarágua. As economias estão destruídas. Eles são terroristas contra seus próprios povos. Olhe para a Revolução Cubana, que foi um desastre para o povo.

“Nós lidamos com ditadores desde sempre.
Ainda não sabemos de Bolsonaro será tão louco quanto Trump”

Para seus eleitores, a América Latina é de especial interesse. Como deve ser a política americana para a região? Precisamos de um país que olhe com atenção para o que acontece na América Latina. Eles estão entre nossos principais parceiros comerciais e, em lugares como Miami, a população está bem representada. Cuba, Nicarágua, Venezuela, Brasil.

Temos uma população muito diversa. Nossa política para esses países é, em primeiro lugar, anticomunista e antissocialista. Eu sou uma capitalista. Mas quero ajudar as pessoas da Venezuela, e isso significa que devemos prestar ajuda humanitária para os venezuelanos e também para os países receptores de imigrantes, como a Colômbia. Os venezuelanos que venham para os Estados Unidos precisam ter status de proteção temporária, assim como os nicaraguenses. Precisamos pressionar os líderes desses países a manter o Estado de Direito, a pararem de torturar a população e a ajudarem o povo. Eu não sou a favor de ajudar ao governo.

A senhora teme que os Estados Unidos tenham de lidar com um mais um regime ditatorial no Brasil em breve? Nós lidamos com ditadores desde sempre.

A senhora acredita que Jair Bolsonaro seja o Donald Trump brasileiro? Ainda não sabemos se ele será tão louco quanto o nosso. Mas esse movimento populista está por todas as partes do mundo. No México, nos Estados Unidos, no Brasil. Teremos de esperar.  Acho que os Estados Unidos não devem intervir em eleições em outros lugares, em particular alguém como eu, que vai se tornar parte do governo. Essa é uma escolha dos brasileiros. Eu digo aqui, em Miami, que os eleitores votem pelo candidato que vai fazer mais pela comunidade. Eu desejo o melhor aos brasileiros e me importo muito com o que acontece no Brasil. Parte da minha família, que tem origens libanesas, foi para lá. Tenho primos e parentes muito próximos em São Paulo. Eles amam o país, e eu mesma já estive lá várias vezes. Há uma comunidade libanesa enorme no Brasil. Por isso, quero ser muito cuidadosa com meus comentários sobre política brasileira antes de ser eleita. Depois, me pergunte qualquer coisa.