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Trump desafia críticos e vai a Pittsburgh homenagear vítimas de massacre

Manifestantes se concentram na frente de sinagoga para rechaçar a visita do presidente e acusá-lo de propagar discurso de ódio

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ignorou as advertências do prefeito de Pittsburgh e manteve sua visita à cidade na tarde desta terça-feira (30). Acompanhado apenas por sua família, o mandatário restringiu sua agenda à sinagoga Árvore da Vida, desafiando os milhares de cidadãos locais que se manifestavam do lado de fora contra a sua presença neste dia de sepultamento de seis das 11 vítimas fatais da tragédia do último dia 27.

O massacre de Pittsburgh foi maior ataque antissemita da história dos Estados Unidos. No final da manhã de sábado passado, o americano Robert Bowers ingressou na sinagoga armado com um fuzil AR-15 e com três pistolas e assassinou 11 pessoas, em sua maioria idosos, aos gritos de “morte aos judeus”. Outras seis pessoas ficaram feridas, entre as quais quatro policiais com quem trocou tiros. Bowers também foi ferido.

Parte dos moradores de Pittsburgh responsabiliza Trump por alimentar discurso contrário às minorias e também por resistir à adoção de regras mais restritas para a venda de armas no país. No mesmo sábado, ao comentar o massacre, o presidente dos Estados Unidos criticara as vítimas por não estarem armadas para se defender.

Nesta terça-feira, os manifestantes pediam o fim do discurso do ódio e repudiavam sua visita em um momento tão sensível. Cartazes continham frases como: “Presidente ódio, fora de nosso estado” e “Trump, renuncie ao nacionalismo branco agora”.

O prefeito de Pittsburgh, Bill Peduto, enviara mensagem à Casa Branca na noite de segunda-feira para alertar que a visita não seria oportuna. “Eu acredito que seria melhor dar atenção às famílias nesta semana. Se ele (Trump) vier nos visitar, deve escolher um momento diferente “, afirmara Peduto.

Mais sensíveis a esse apelo, todos os políticos convidados por Trump para acompanhá-lo na visita a Pittsburgh declinaram. Os republicanos Mitch McConnell, líder da maioria no Senado, e Paul Ryan, presidente da Câmara dos Deputados, disseram não. Os democratas Nancy Pelosy, líder da minoria na Câmara, e Charles Schumer, líder da minoria no Senado, igualmente não aceitaram, segundo os jornais Washington Post e The Guardian.

O presidente americano Donald Trump (esq), a primeira-dama, Melania Trump, e o rabino Jeffrey Myers visitam memorial às vítimas do ataque de Pittsburgh – 30/10/2018

O presidente americano Donald Trump (esq), a primeira-dama, Melania Trump, e o rabino Jeffrey Myers visitam memorial às vítimas do ataque de Pittsburgh – 30/10/2018 (Kevin Lamarque/Reuters)

No entanto, Jeffrey Myers, rabino da Árvore da Vida que estava presente durante o ataque, disse que “o presidente dos Estados Unidos é sempre bem-vindo”.

A ex-titular da sinagoga, Lynette Lederman, pediu a Trump que se mantivesse longe, descrevendo-o como um “provedor de discursos de ódio”. Um grupo de líderes judeus em Pittsburgh publicou uma carta aberta culpando Trump por  incentivar sentimentos nacionalistas, que levaram ao ataque. O texto também aponta que, enquanto o presidente atacar “os imigrantes e os refugiados”, não será bem-vindo na cidade.

“É revoltante que ocorra um crime de ódio aqui e que o líder do nosso país não denuncie o antissemitismo, não denuncie o nacionalismo branco, não denuncie o neonazismo. E esse é o problema”, disse Joanna Izenson, quando se encaminhava para o funeral dos irmãos Cecil e David Rosenthal, duas das vítimas.

“Sempre vai existir antissemitismo, sempre existiu. Mas nunca tivemos um presidente que não lutasse contra isso, verbalmente e em todos os sentidos. E ele (Trump) precisa desses partidários”, acrescentou Izenson, referindo-se à base de apoio de Trump.

Cecil, de 59 anos, e David Rosenthal, de 54 anos, foram enterrados na presença de centenas de pessoas no templo de Rodef Shalom, a 25 minutos a pé da Árvore da Vida. Muitos dos presentes soluçavam e se abraçavam durante o funeral.

“Foi trágico, foi triste, foi uma bela homenagem a dois homens maravilhosos, carinhosos e inocentes”, disse o padre Paul Taylor, um sacerdote católico que compareceu ao funeral.

Na segunda-feira, diante de um tribunal federal, admitiu todos os crimes que lhe foram imputados. Ele estará sujeito a ser condenado à pena morte.

Supremacista cristão

Trump rechaçou aos seus críticos jogando na imprensa a culpa pelas ações extremistas. “Existe uma grande ira em nosso país causada, em parte, pela informação inexata, inclusive fraudulenta, relatada nas notícias”, acusou o presidente dos Estados Unidos pelo Twitter.

“Os meios de comunicação de ‘fake news’, os verdadeiros inimigos do povo, precisam parar a aberta e óbvia hostilidade, e informar de maneira precisa e justa. Isso fará muito para apagar a chama da ira e indignação”, apontou.

Na segunda-feira, o vice-presidente, Mike Pence, participou de um comício eleitoral em Michigan no qual o cristão Loren Jacobs, que usa o título de “rabino”, foi convidado a falar em nome da comunidade judaica da região. Jacobs omitiu as 11 vítimas do massacre em seu discurso e preferiu oferecer orações a quatro candidatos republicanos que disputam diversos cargos em 6 de novembro.

A iniciativa provocou reações na comunidade judaica nas redes sociais e críticas a Pence como um “supremacista cristão”.

(Com AFP)