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Diante da Covid-19, acesso a respirador torna-se questão de vida ou morte

Países buscam em montadoras e outras fábricas os meios de aumentar a produção desses equipamentos diante do ritmo acelerado de contaminação do coronavírus

Por Amanda Péchy - Atualizado em 27 mar 2020, 12h37 - Publicado em 27 mar 2020, 07h00

Diante de uma epidemia que ataca especialmente os pulmões de suas vítimas, os sistemas de saúde de todos os países enfrentam uma realidade sombria: não há suficientes respiradores artificiais e unidades de terapia intensiva (UTIs) para salvar as vidas de todos os pacientes. Correndo contra o tempo, autoridades lutam para conseguir as preciosas máquinas e, assim, impedir que o atual índice de mortalidade do novo coronavírus, de 4,4% a 20,2%, conforme local e idade do paciente, aumente ainda mais.

Os Estados Unidos, com 81.488 casos confirmados até a quinta-feira, 26, se tornaram o novo epicentro da pandemia. As 1.178 mortes registradas no país, porém, continuam em níveis mais modestos do que na China, na Itália e na Espanha, onde o coronavírus atacara até o momento com maior força. Em boa medida, a explicação está na infraestrutura para o tratamento das pessoas contaminadas. O país tem a maior taxa de leitos de UTI do mundo – 34,7 para cada 100.000 habitantes – e 160.000 respiradores, segundo pesquisa da Johns Hopkins University.

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Ainda assim, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDCs) estimam que de 2 milhões a 21 milhões americanos podem precisar de hospitalização, o que sobrecarregará os cerca de 1 milhão de leitos disponíveis no país, igualmente o maior do ranking. Apesar da quantidade de respiradores disponível, nesta semana o governador de Nova York, Andrew Cuomo, apelava à Casa Branca urgência na provisão de mais equipamentos. Esse estado registra cerca de 45% das mortes. 

A Itália, onde a pandemia ainda castiga duramente a população local, há 80.539 casos confirmados e 8.165 mortes morreram. O elevado número de mortes está associado o sistema de saúde sobrecarregado e a disponibilidade de 12,5 leitos em UTIs por 100.000 habitantes. No país, há 5.000 respiradores para adultos e mais 900 para crianças. Cerca de 13.000 pacientes, porém, precisam ser hospitalizados e não encontram vagas.

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No início da epidemia, a China adotou outra tática, a de concentrar quantidade elevada dessas máquinas – 16.900 – nas instalações hospitalares da província de Hubei, onde surgiu o surto de coronavírus e onde cocentrou-se o maior número de casos. O país registrou até a quinta-feira 81.285 casos e 3.287 fatalidades, embora disponha de apenas 4,6 leitos de UTI por 100.000 habitantes.

A busca por respiradores prontos para a comercialização tornou-se prioridade para esses e outros países, não importa o custo, que pode variar de 25.000 a 50.000 dólares. As atuais fábricas demonstam capacidade limitada para suprir a demanda, e novas alternativas vem sendo procuradas. Essa situação de escassez, porém, já havia feito parte dos alertas de Tom Inglesby, diretor do Centro de Segurança em Saúde da Johns Hopkins University. “Mesmo em países de alta renda, como os Estados Unidos, haverá mais pessoas com insuficiência respiratória do que temos a capacidade de cuidar”, dissera Inglesby em entrevista concedida em 2018.

A falta desses equipamentos e de UTIs já tem provocado situações extremas para médicos na Itália, expostos a decidir qual paciente terá acesso a esses recursos e qual será deixado à mercê de seus sistemas imunológicos. Diante desse quadro, os governos dos Estados Unidos e de alguns países europeus fizeram parcerias inusitadas para aumentar a oferta dessas máquinas “salva-vidas”. Pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, esses chefes de estado pediram às empresas automobilísticas para adequarem as linhas de produção e orientarem seus empregados para a a fabricação de equipamentos de combate – desta vez, ao vírus.

A General Motors, a Ford e a Tesla, nos Estados Unidos, prometeram recursos para produzir mais ventiladores. Na terça-feira 24, a Ford anunciou que já estava trabalhando com a GE Healthcare e a 3M, fabricantes do setor de saúde. O Reino Unido está em negociações com a Rolls-Royce e a Jaguar Land Rover, que já receberam projetos das máquinas. Na Alemanha, o governo discute com a Volkswagen a possibilidade de fabricar respiradores nas suas mais de 125 impressoras 3D industriais. Mas as montadoras vão precisar correr: de acordo com a Popular Mechanics, revista americana de ciência e tecnologia, fábricas de respiradores levam até 40 dias para montar um desses equipamentos médicos.

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Carga de respiradores prontos para distribuição a partir do depósito da agência de gerenciamento da epidemia em Nova York – 24/03/2020 Caitlin Ochs/Reuters

Brasil

O Brasil ainda está no início do surto, com 2.915 casos confirmados e 77 mortes até a quinta-feira 26. Apesar de bem equipado e no terceiro lugar do ranking da Johns Hopkins University, com 20,3 leitos de UTI para cada 100.000 habitantes, existem discrepâncias na disponibilidade do recurso entre os estados do país. De acordo com o IBGE, em alguns estados da região Norte, há menos de 3 leitos de UTI por 100.000 habitantes, enquanto o Sudeste conta com mais de 20 leitos por 100.000 habitantes.

Há também 61.219 respiradores em funcionamento no Brasil. De acordo o Ministério da Saúde, 43.733 deles estão à disposição de pacientes do SUS. Mas isso não quer dizer que será possível baixar a guarda. Segundo um estudo do Observatório Covid-19 BR, que analisa os números da pandemia no país, o ritmo da disseminação do novo coronavírus no Brasil é, hoje, igual ao da Itália semanas atrás. A pior notícia é que esse compasso está se acelerando.  Além de medidas para conter o contágio, a rapidez na  produção de respiradores poderá ser crucial.

As principais empresas brasileiras que fabricam essas máquinas são a Dixtal Biomédica (da Phillips), a Intermed Equipamento Médico Hospitalar (da BD), e a K. Takaoka. Mas, na sexta-feira 20, já houve burburinho de que a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) negocia com o governo sobre a possibilidade de complementar a produção dos equipamentos.

A situação mais preocupante, contudo, continua sendo em relação aos países pobres, onde os leitos de UTI e os respiradores artificiais são mais escassos. O México, com Produto Interno Bruto (PIB) similar ao do Brasil e com população equivalente a 50% da brasileira, tem menos de 10% do total de respiradores do Brasil: apenas 6.175.

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Instrutora ensina crianças como lavar as mãos na entrada do Hospital Mbagathi, em Nairobi: passo inicial e indispensável no combate ao coronavírus – 18/03/2020 Luis Tato/AFP

Mais preocupantes ainda são as condicões de alguns países africanos, onde o sistema de saúde é extremamente precário. No Mali, na África Ocidental, há apenas 20 respiradores para toda a população de 19,1 milhões. Mesmo na África do Sul, que possui uma das infraestruturas de saúde do continente, seus 56 milhões de habitantes contam com cerca de 1.000 leitos de UTI equipados com respiradores.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou 2.066 casos de coronavírus na África e 49 mortes – 20 no Egito, 17 na Argélia, três em Burkina Faso, duas na República Democrática do Congo, duas em Gana, duas nas Ilhas Maurício, uma em Camarões, uma no Gabão e uma no Zimbábue. Desde o início da epidemia, a grande preocupação da OMS, que está cooperado com vários países da região, está na disseminação do vírus na África. O acesso à água e sabão são ainda mais urgentes do que de respiradores em nações subsaarianas.

Segundo Gerson Salvador, infectologista do Hospital das Clínicas, de São Paulo (SP), a única saída, nestes casos, é a cooperação internacional. “Os países que têm infraestruturas melhores e organizações como a OMS e as Nações Unidas precisam prestar apoio aos países mais pobres”, diz. 

Seguindo os exemplos de Cuba, que enviou uma equipe de 50 médicos e enfermeiros a Milão, na Itália, ou da China, que remeteu milhares de equipamentos médicos – máscaras cirúrgicas, testes, luvas – para as Filipinas, Sérvia e República Checa, a situação requer uma “saída solidária” do ponto de vista das relações internacionais. “Caso contrário, as pessoas vão morrer à revelia e sem o devido tratamento”, afirma Salvador.

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