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Contrariada, Angela Merkel transfere chefe da espionagem alemã

Crise em torno de Hans-Georg Maassen ilustra a debilidade política da chanceler, que o removeu para o Ministério do Interior

A primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, dispensou nesta terça-feira (18) o chefe da inteligência alemã, Hans-Georg Maassen, acusado de conluio com a extrema direita. Mas, em decisão tomada em conjunto com os líderes da coalizão que sustenta seu governo, ela concordou em transferir Maassen para uma secretaria do Ministério do Interior.

O chefe da espionagem alemã colocou em dúvida a veracidade de um vídeo que mostrava neonazistas perseguindo cidadãos estrangeiros no último dia 26 de agosto na cidade de Chemnitz. O vídeo, porém, mostrava imagens reais.

Na ocasião, um alemão de origem cubana foi esfaqueado por duas pessoas – supostamente, refugiados. O caso deu margem para sucessivas e violentas manifestações de grupos de ultradireita, que defendem o início de uma “caça a estrangeiros”. Os suspeitos do assassinato foram liberados, e a investigação continua.

A decisão sobre o destino de Maassen foi tomada em um encontro entre Merkel, que preside a União Democrata-Cristã (CDU), o presidente da União Social-Cristã (CSU) bávara e ministro do Interior, Horst Seehofer, e a líder do Partido Social Democrata (SPD), Andrea Nahles.

Na segunda, a imprensa alemã divulgou que a chanceler Merkel tinha decidido demitir Maassen. Nesta terça, antes da reunião, começaram a circular rumores da acomodação do espião no Ministério do Interior, cujo titular, Seehofer, expressou seu apoio a Maassen.

O ex-chefe da espionagem mantém ligações estreitas com o partido de extrema direita AfD. A legenda conseguiu eleger representantes na Câmara dos Deputados, em 2017, aproveitando-se dos temores da população quanto à chegada de mais de um milhão de requerentes de asilo nos dois anos anteriores.

A imprensa o acusa de transmitir informações confidenciais ao AfD, o que Maassen nega. O chefe de inteligência reconheceu que se reuniu com membros do AfD, mas alegou fazer o mesmo com  personalidades de todo o espectro político.

Maassen recebeu o apoio do ministro do Interior, um político claramente contrário à política migratória de Merkel e alinhado à direita.

O chefe da inteligência foi, entretanto, alvo de ataques virulentos de outro membro da “grande coalizão” do governo. “Merkel deve agora esclarecer a situação do governo. Maassen tem que partir”, declarara a líder do SPD, Andrea Nahles, na semana passada.

Uma recente pesquisa mostrou que 58% dos alemães não confiam nos serviços de inteligência para garantir a segurança do país. A inteligência interna tem sido responsabilizada por várias falhas no monitoramento de jihadistas.

No plano político, a crise em torno de Maassen foi apenas mais uma ilustração da crescente fraqueza política da chanceler, cujo atual mandato como primeira-ministra será o último.

Sua coalizão passou por grandes dificuldades até conseguir se firmar. Angela Merkel tem se dividido, desde então, entre posições do SPD e da CSU, que continua a desafiar sua política de migração. Este partido da Baviera está de olho nas eleições regionais marcadas para 14 de outubro e tende a se aliar ao AfD para evitar a perda de sua maioria absoluta.