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Começa julgamento de cardeal francês que acobertou abusos a escoteiros

Papa Francisco convoca para fevereiro reunião de cúpula para tratar da proteção de menores e 'lançar luz sobre os fatos'

Começou nesta segunda-feira, 7, o julgamento do cardeal francês Philippe Barbarin, de 68 anos, indiciado com outras cinco pessoas por acobertar abusos sexuais na Igreja Católica. Ele é acusado de não ter reportado os crimes de um padre contra escoteiros nas décadas de 80 e 90, dentro de sua diocese.

Arcebispo de Lyon, Barbarin é uma das figuras católicas de maior destaque na França. Ultraconservador, pode enfrentar até três anos de prisão e uma multa de 45.000 euros se for condenado. Ele nega as acusações.

O escândalo emergiu em 2015, depois que um antigo coroinha tornou pública a denúncia de que um padre local, Bernard Preynat, o molestara 25 anos antes. François Devaux, que depois formou um grupo de apoio às vítimas, também moveu uma ação contra Barbarin, o superior do padre Preynat, alegando que ele sabia dos abusos e os escondia.

Depois de seis meses de investigação e dez horas de interrogatório a Barbarin, os promotores trancaram o caso em 2016, alegando que as provas eram obsoletas e insuficientes. Mas algumas vítimas tiveram sucesso no esforço de reabrir o caso, o que levou o cardeal e alguns outros religiosos franceses, como o Arcebispo de Auch e o Bispo de Nevers, ao banco dos réus.

“Esperamos que agora tenhamos uma sentença clara e óbvia para todos nós”, disse Devaux antes do início do julgamento, previsto para acabar na quarta-feira, 9. O grupo de vítimas, La Parole Libérée, que começou com poucos membros, hoje já conta com 85 declarações de abusos suspostamente cometidos pelo padre Preynat.

Depois de ter sido denunciado pela primeira vez, em 1991, o religioso não foi mais autorizado a lidar com grupos de escoteiros. Mais tarde, porém, ele deu aulas para crianças e angariou posições de autoridade em paróquias até que o escândalo se tornou público.

Preynat assumiu a responsabilidade pelos abusos contra meninos e deve enfrentar o júri ainda este ano.

Chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, importante órgão do Vaticano, o arcebispo espanhol Luis Francisco Ladaria Ferrer também foi acusado de cumplicidade no silenciamento do caso de Lyon. Em correspondências trocadas com Barbarin, o religioso aconselha o cardeal a tomar “medidas disciplinares necessárias, mas evitando o escândalo público.”

Por ser do alto clero no Vaticano, Ferrer tem imunidade e não irá a julgamento.

Em sua mensagem de Ano Novo, o papa Francisco mencionou a pedofilia, garantindo que a Igreja se compromete a combater “um dos piores e mais vis crimes”.

“A Santa Sé e toda Igreja estão trabalhando para combater e prevenir tais crimes e seus encobrimentos, para averiguar a verdade dos fatos que envolvem eclesiásticos e para fazer justiça aos menores que sofreram violência sexual, agravada pelo abuso de poder e de consciência”, declarou o papa.

Francisco convocou os presidentes das conferências episcopais para uma reunião de cúpula sobre a proteção de menores, em fevereiro, no Vaticano.

“A reunião que terei com os episcopados de todo mundo […] pretende completar mais um passo no caminho da Igreja para lançar luz sobre os fatos e aliviar as feridas causadas por esses delitos”, afirmou Francisco.

A declaração do sumo pontífice surge após um ano de 2018 marcado pela revelação de uma série de abusos sexuais cometidos por membros do clero, especialmente nos Estados Unidos e no Chile.