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Cem dias de Cameron e da coalizão com liberais democratas

Premiê mantém apoio popular. Já a parceria com Clegg continua polêmica

Nesta quarta-feira, David Cameron comemora cem dias como primeiro-ministro britânico, enquanto aproveita suas férias com a família. Neste início de mandato, Cameron se mostrou atuante, tendo o drástico plano de austeridade econômico como sua principal marca. Já seus maiores objetivos ainda estão por vir: a aplicação de cortes sociais e a controversa reforma eleitoral.

“Tivemos 100 dias muito mais radicais do que previa a sabedoria popular”, escreveu Clegg em uma coluna na edição de domingo do jornal The Observer, estimando que este primeiro período ainda é insuficiente para fazer um verdadeiro balanço da nova gestão. No entanto, advertiu o vice-primeiro-ministro, “reduzir o gasto público já levou a algumas decisões polêmicas, e com a proximidade (do relatório sobre) a revisão de gastos do outono, estamos perto de muitas outras mais”.

Em maio, Cameron assumiu o posto com duas missões principais: recuperar a autoestima econômica dos ingleses, acossados pelo rescaldo da crise mundial dos últimos dois anos, pelo risco de colapso financeiro na Europa continental e pelo alto déficit fiscal do país; e modernizar o sistema político inglês, eliminando algumas de suas antiguidades, como a existência de membros não eleitos em uma das casas legislativas, a Câmara dos Lordes.

Plano de austeridade – Ao tomar posse, Cameron anunciou uma redução orçamentária de 9 bilhões de dólares e, simbolicamente, um corte de 5% no salário dos ministros. Desde o primeiro dia, a principal prioridade de sua equipe tem sido a redução do enorme déficit orçamentário do país, herdado de seus antecessores trabalhistas. Para isso, implementou um plano de austeridade sem precedentes, que incluiu a supressão de programas sociais e o aumento de impostos.

No dia 20 de outubro, o governo deve dar detalhes sobre como pretende reduzir o atual déficit, de 154,7 bilhões de libras (10,1% do PIB), para 37 bilhões no exercício fiscal 2014/15. A data será aproveitada por funcionários do setor público para manifestar sua insatisfação com as medidas de ajuste.

Reforma política – Já os planos de reforma política foram uma concessão ao Partido Liberal-Democrata, com o qual Cameron precisou se aliar para conseguir maioria na Câmara dos Comuns. Como parte do acordo, o cargo de vice-primeiro-ministro ficou com o liberal-democrata Nick Clegg. Esse foi o primeiro “Hung Parliament” (Parlamento Enforcado, em tradução livre) na Grã-Bretanha desde 1974.

A principal proposta, que depende de aprovação em referendo, prevê a adoção do voto alternativo que dá mais chances aos candidatos dos partidos pequenos. Uma das justificativas para a mudança é que o bipartidarismo não atende mais aos anseios dos eleitores. Há sessenta anos, 97% dos votos iam para os trabalhistas e os conservadores. Na última eleição, os dois principais partidos receberam menos de dois terços dos votos. Pelo bem da coalizão, os conservadores concordaram com o referendo, mas se reservam o direito de fazer campanha contra a modificação.

Aceitação popular – Numa pesquisa divulgada nesta quarta-feira pelo The Guardian, 57% dos eleitores entrevistados deram nota positiva ao trabalho do primeiro-ministro britânico e a maioria apoia as medidas de austeridade econômica já anunciadas. Segundo o levantamento, os três primeiros meses da coligação também mereceram uma avaliação positiva dos eleitores (46% apoiariam o seu trabalho).

De acordo com um estudo publicado no fim de semana pelo jornal Daily Mail, porém, 57% dos britânicos consideraria “decepcionante” a atuação da coalizão até agora. Um fracasso da coalizão era esperado desde o início. Apesar da falta de experiência, o carismático líder – que com apenas 43 anos se tornou o primeiro-ministro mais jovem em 200 anos – entrou pisando firme em Downing Street, embora tenha cometido algumas gafes diplomáticas, como quando, em visita recente à Índia, acusou o Paquistão de “exportar o terrorismo”. Clegg, por sua vez, parece estar pagando o preço de sua arriscada aposta, uma vez que seu pequeno partido de centro-esquerda despencou nas pesquisas de opinião ao longo dos últimos 100 dias.

O líder conservador – David Cameron foi eleito deputado em 2001 pelo distrito de Witney, no sudeste do país. Discursos inflamados e improvisados são a sua marca. Quando assumiu a liderança do Partido Conservador, tentou passar a imagem de que os membros do partido não eram tão rígidos. Cameron queria mostrar que o partido estava preocupado com o meio ambiente, a saúde pública, as mulheres e as minorias étnicas do país.

Com a crise econômica, porém, ele mudou o seu tom e usou o escândalo sobre os gastos de deputados trabalhistas para investir na imagem de um reformista radical, comprometido com a moralização da política. Cameron é formado em Filosofia, Política e Economia pelas universidades de Eton e Oxford, na Inglaterra.