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A tragédia venezuelana

A melhor resposta brasileira é integrar os refugiados à sociedade

“Gabriela” é uma menina venezuelana de 10 anos que, com paralisia da cintura para baixo, usa cadeira de rodas. Dois anos atrás, teve de interromper as idas ao hospital porque sua família não podia arcar com o custo da viagem. Naquele momento, o hospital também não forneceria mais as sondas urinárias de que precisava. Há meses sua família vinha reutilizando sondas descartáveis, lavando-as com vinagre, o que resultou em infecção nos rins e exigiu medicação diária. Quando seus pais não conseguiram mais obter medicamentos, Gabriela começou a ter febre e inchaço nos pés, deixando a família sem opção que não fugir da Venezuela em busca de tratamento.

Nesse cenário, é pavoroso que o recém-­eleito governador de Roraima, Antonio Denarium, proponha fechar a fronteira e estabelecer um programa para “devolver” os venezuelanos. Os pais de Gabriela vieram ao Brasil com os cinco filhos, fazendo a pé parte do percurso de 215 quilômetros entre Pacaraima e Boa Vista. Pelo menos uma das crianças veio sentada no colo de Gabriela, na cadeira de rodas, que o pai empurrava. Em Boa Vista, moraram nas ruas, alimentando-se do lixo, como muitos venezuelanos.

A família de Gabriela está entre os 3 milhões de venezuelanos que fugiram de seu país pela falta de remédios e alimentos, por repressão política, hiperinflação e insegurança. Seu desespero reforça como o sistema de saúde colapsou na Venezuela. Gabriela precisava de cuidados especializados, mas mesmo serviços básicos, como vacinas e tratamento de doenças infecciosas, estão indisponíveis. Os surtos de sarampo e difteria vêm crescendo na Venezuela, e os casos de malária e tuberculose atingiram os números mais elevados em trinta anos. O aumento da desnutrição agrava a crise de saúde. Gabriela teve sorte e veio ao Brasil, onde tem recebido cuidado, mas e os que estão doentes demais para viajar?

A crise humanitária e de direitos humanos na Venezuela acontece após anos de desmantelamento de instituições democráticas, incluindo a independência judicial, que remonta à Presidência de Hugo Chávez. Desde que assumiu o cargo, em 2013, Nicolás Maduro intensificou a concentração de poder, usando-a para cometer todo tipo de abuso.

O presidente eleito Jair Bolsonaro acerta quando diz que os venezuelanos não são “mercadorias”, a ser simplesmente “devolvidas”. Propôs a criação de “campos de refugiados” para venezuelanos no Brasil, sem dar maiores detalhes. O que ele deve saber é que a melhor resposta não pode ser isolá-los, e sim fortalecer programas para a integração dos venezuelanos na sociedade brasileira.

O Brasil fez esforços consideráveis para recebê-los, não apenas com abrigo, alimentos e assistência médica, mas também adotando regras para conceder residência legal. Como presidente, Bolsonaro deve manter essas políticas e ao mesmo tempo trabalhar com outros países e agências da ONU para elaborar um plano de resposta regional. A comunidade internacional precisa redobrar a pressão sobre a Venezuela para que reconheça a gravidade da crise e aceite a ajuda externa necessária para que crianças como Gabriela não enfrentem a escolha de deixar o país ou morrer.

Publicado em VEJA de 12 de dezembro de 2018, edição nº 2612