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Vídeo: ‘Sinto ele no abraço’, diz mãe de Danilo, da Chapecoense

Ilaídes Padilha, 54 anos, mãe do goleiro Danilo, da Chapecoense

Por Da redação Atualizado em 10 dez 2018, 10h45 - Publicado em 11 dez 2016, 09h25

Muita gente se confundiu com meu nome. É Ilaídes mesmo, com “i” no começo e “s” no final. Meu pai era analfabeto, e brinco que o escrivão também era. Nem precisava ter o “s”, porque não sou duas, nem três. Sou uma só. Venho de uma família de treze irmãos, na qual sou a caçula. Me casei com 19 anos e esperei quase três para conceber o Danilo, o primeiro de meus dois filhos. Ele tem uma irmã. Quando fiquei grávida, foi uma alegria muito grande porque meu marido gosta muito de criança. Da mesma forma que meu filho abraçava as crianças, como todo mundo viu por aí na televisão, meu marido também. E ele queria muito ter filhos. Quando Danilo nasceu, foi uma festa em casa.

  • Eu não sou assim de me apegar muito a religião, não. Me apego mais ao espiritual mesmo. Mas tive de pedir a Nossa Senhora que me ajudasse quando soube da tragédia: “Vamos, me dê forças para ficar em pé. Na segunda-feira, depois do enterro, pode até me deixar cair. Hoje, não. Até terminar, não”. Quero ficar em pé porque meu filho foi grande. Foi lutador. Foi herói. Ele vai virar um mito. Nossa Senhora, então, me enviou meus novos filhos. Meus 200 milhões de filhos, que me ajudaram. As pessoas me seguraram. O que me deixou mais forte foi saber da grandeza do meu filho. Eu sabia do seu coração puro, do menino trabalhador que batalhou uma vida inteira. Eu sabia disso. Mas, de sua grandeza, só soube quando pisei na Arena Condá, nos jogos. Lá elas o aplaudiam de pé. Era ovacionado. Gritavam “Danilo! Danilo!” a cada defesa que fazia. Falaram que eu fui grande, que fui forte, que fui guerreira. E Deus não pode me abandonar agora. Ele vai ficar aqui e renovar o contrato que tem comigo. Preciso que ele me dê forças, pois a minha luta nem começou. Ainda não deitei na cama nem parei para lembrar do rosto do meu filho como nas fotos. Não tem uma foto em que ele não esteja sorrindo.

    Todo mundo viu na TV o que aprontei num momento de desespero, de angústia (quando ela própria consolou o repórter que a entrevistava na Arena Condá). O repórter apareceu e me pediu uma entrevista. Falei que sim, mas não ouvi que seria ao vivo. Já tinham me perguntado tanto como estava me sentindo, mas eu não sabia a resposta. Estava sem chão, sem nada. Dei a entrevista e aconteceu o abraço que o mundo viu. A tristeza dentro daquela arena era geral. Olhava o rosto dos repórteres e não tinha nenhum sorriso. A torcida perdeu todos os seus ídolos. Também perdemos o pessoal da imprensa. Eu havia perdido só o Danilo. Pensei: “Não posso pensar só na minha dor, posso?”.

    Quando dou um abraço, sinto o coração da pessoa no meu, e some tudo o que é ruim. Tem hora que vêm uns meninos me abraçar e parece que estou vendo o meu filho me abraçando. Sinto ele no abraço. Quando você não tem o que falar, não fala nada, só abraça. O abraço, para mim, significa a substituição da palavra. Me dá o aconchego no coração. No abraço, eu sinto a presença do meu filho amado, que perdi naquele acidente maldito. É ali que eu encontro forças. E eu abracei toda a torcida da Chapecoense. As mães de Chapecó vivem um desespero muito grande. “Dona Ilaídes, a senhora agora é a nossa mãe. Meu filho está chorando sem parar. Ele quer o Danilo de volta”, dizem. O que eu vou responder para essa mãe? Ela quer ouvir uma palavra de carinho, de amor, de mãe. Meu filho nunca negou uma entrevista. Nunca deixou de dar um abraço. Não seria eu que iria estragar isso. Está doendo? Está. Mas vou atender um por um, na medida do possível. Quem ligar, quem chegar na frente da minha casa. Eu não quero que ninguém que esteja dentro da minha casa maltrate quem vier em busca de uma entrevista, ou em busca de um abraço.

    Depoimento colhido por Alexandre Senechal

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