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Perrengues e histórias: 100 dias de viagem de um ciclista entre SP e Acre

Fernando Santos pedalou quase seis mil quilômetros e conheceu um Brasil que poucos turistas visitam

Por André Sollitto 26 nov 2021, 19h16

Pedalar longas distâncias não é exatamente algo fora da rotina de Fernando Santos. Além de passar os dias fazendo entregas em São Paulo com sua bicicleta, Magrão, como é conhecido, já fez longas viagens sobre duas rodas. Em uma delas, foi até o Uruguai. Em outra, subiu até a Bahia. Mas o desafio que impôs a si mesmo neste ano foi além do que já havia tentado: viajar até o Acre. Colocou a bike na estrada no dia primeiro de agosto e retornou 100 dias, 5.700 quilômetros e quase 30 furos nos pneus depois. Passou perrengue, mas viu partes do Brasil pouco visitadas por turistas, conheceu muitas pessoas e voltou cheio de histórias. “Meu propósito de viajar é esse”, diz Santos. “Eu gosto de visitar povoados, parar para tomar um café e ficar uma hora conversando. Saber o que acontece por lá, as fofocas. Esse é meu turismo”, conta ele.

Magrão começou a viagem seguindo rumo a Bahia pela costa brasileira. A rota turística atrai muitos turistas, inclusive cicloviajantes. No caminho, foi parando em postos de gasolina para dormir. Montava a barraca em um canto e aproveitava para fazer amizade com os frentistas. “A primeira reação das pessoas é sempre de ajudar”, conta. Oferecem comida e água e demoram para acreditar que ele fez o caminho todo pedalando. A descrença aumentava à medida que ele se afastava de São Paulo. “Me perguntaram se eu estava pagando promessa”, lembra Santos.

Na Bahia, visitou parentes e começou a se embrenhar pelo interior, rumo ao Acre. Os turistas sumiram e a paisagem, a alimentação e até o jeito como as pessoas se comunicavam mudou. “A natureza é muito presente. Pedalei quase 500 quilômetros sem asfalto, num da BR 319 Manaus a Porto Velho, em um corredor verde, de mata fechada e árvores de cinco metros e altura”, diz Santos. Além das belezas naturais, o prazer da viagem, para ele, são as pessoas. “Parei em vilarejos em que os turistas só passam de carro a caminho de outros lugares. Nessas rotas alternativas você é muito abraçado”. Em cada parada, contou sua história e testemunhou um pouco da vila longe das metrópoles.

O viajante viu também, em primeira mão, dois problemas ambientais que têm se agravado no Brasil: o desmatamento e o garimpo. No caminho para a Amazônia, passou por caminhões carregados de madeira. “A rodovia que liga Porto Velho ao Rio Branco está virando pasto”, diz Santos. Nas conversas que escutou, soube que fazendeiros de outras regiões estão indo para lá, comprando terras baratas e levando tratores com correntes para limpar a área. No barco que tomou de Santarém a Manaus conviveu ainda com homens de 25 a 50 anos que viam no garimpo uma oportunidade de negócios. “Eles falavam de valores, de como tudo é tão escasso na região que o pagamento é feito em gramas de ouro. O dono da draga faz uma caderneta e vai anotando todas as despesas. No fim, eles nem veem mais o ouro que tiram”, conta ele.

Fez o último trecho de volta de ônibus. “De bike é muito sofrido. Além do calor, a paisagem é uma só: plantação e gado. Tem que estar com muita disposição”, brinca ele. Embora tenha acabado de retornar, Magrão já planeja a próxima viagem. Agora, quer seguir para a Argentina e chegar em Ushuaia, extremo sul do continente. A meta é subir pela América Latina, chegando até a Colômbia. “Como brasileiro, me sinto desconectado de outros países vizinhos”, diz. A viagem deve começar no ano que vem. E a inspiração, segundo Magrão, é o avô, que já viveu sua cota de aventuras. “Ele tem 84 anos, já ganhou seu dinheiro e hoje vive da aposentadoria. Seus bens mais preciosos são suas histórias e vivências.”

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