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Lição alemã: Copa do Mundo pode transformar o país

"Nós não ganhamos a Copa, mas ganhamos o país", diz ex-jogador Klinsmann, técnico da Alemanha em 2006 e, agora, treinador dos EUA

“Éramos um país com uma história negativa, por causa das duas guerras mundiais. A Copa era o momento de mandar uma mensagem de que os alemães também sabem se divertir, também sabem rir, não são apenas um povo rígido e pontual”, disse Klismann

Uma oportunidade para transformar a imagem de um país. Foi assim que o técnico da seleção americana de futebol, o alemão Jürgen Klinsmann, definiu a chance de sediar uma Copa do Mundo. Klinsmann foi a principal atração neste segundo e último dia de palestras na Footecon, fórum sobre futebol organizado pelo ex-técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira. Campeão do mundo como jogador na Copa de 90, Klinsmann assumiu o comando da seleção alemã dois anos antes da Copa de 2006, sediada justamente na Alemanha, que acabou ficando com a terceira colocação em casa.

“Nós não ganhamos a Copa, mas ganhamos o país. Fomos recepcionados por milhares de pessoas após ficarmos em terceiro lugar, e por quase um milhão de pessoas no Portão de Brandemburgo. Porque essa Copa não era só sobre ganhar, mas também sobre quem queríamos ser. Éramos um país com uma história negativa, por causa das duas guerras mundiais. A Copa era o momento de mandar uma mensagem de que os alemães também sabem se divertir, também sabem rir, não são apenas um povo rígido e pontual”, analisou Klinsmann, lembrando que os alemães levantaram em massa suas bandeiras nas ruas. À vontade no evento, Klinsmann brincou: “É, realmente pode dar aflição ver tanta bandeira alemã… Mas foi importante devolver o orgulho de ser patriota novamente ao povo alemão. E fizemos isso incentivando os jogadores a serem amigáveis, a abraçarem as pessoas, a formarem uma conexão com o povo, a conversarem com as crianças”.

Sobre o quanto a Copa de 2014 pode transformar o Brasil, no momento em que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e o presidente de honra da Fifa, João Havelange, estão envolvidos em suspeitas de corrupção, Klinsmann preferiu não opinar. “Devemos ter muito cuidado para julgar, porque você não sabe se tem as informações corretas, você nunca tem o quadro inteiro”, alertou

Klinsmann cobriu o futebol brasileiro de elogios – “Todo técnico do mundo conhece o Neymar”, disse -, e, num momento de solidariedade entre treinadores, pediu paciência com o trabalho de Mano Menezes à frente da seleção. “Claro que o Brasil quer ganhar todos os jogos, mas as pessoas têm que entender que o Mano precisa fazer testes. Que talvez vocês não ganhem nem a Copa das Confederações, porque ele vai ter que assumir riscos enquanto mira na Copa do Mundo. Eu fiz isso quando estava à frente da seleção alemã, e me perguntavam: ‘Klinsmann, o que você está fazendo?’. Mas se eu não assumisse os riscos, se não tirasse o time de sua zona de conforto, não desenvolveria a equipe. Durante a preparação, só quis enfrentar os melhores. Fazendo isso, você se arrisca a perder jogos no caminho, mas acreditei que era a melhor maneira de crescer. O Mano está trabalhando com uma imagem a longo prazo, não se pode cobrar resultados de curto prazo”, avaliou.

O técnico alemão revelou que, quando assumiu a seleção, chamou todos os jogadores e perguntou: “Como você quer jogar? Quem você quer ser?”. Recebeu como resposta a vontade de jogar no ataque, de forma agressiva. “Disse a eles que, para isso, nos dois anos seguintes eles teriam que viver futebol 24 horas por dias, sacrificar aqueles anos por essa meta. Eles questionaram, disseram que também queriam viver a vida, se divertir, ir a festas. Mas isso não funciona. Ou você quer uma coisa, ou quer outra. Nós sabíamos que não éramos o Brasil, a Espanha ou a Argentina. Mas sabíamos que também éramos bons. E trabalhamos intensamente para melhorar. O Mano vai ter que preparar seus jogadores a partir de agora, porque é um trabalho intenso, que não se faz em duas semanas”.

Estratégia ‘militar’ – É certo que a Alemanha apostou na alegria, quando foi seu momento de receber a Copa. Mas Klinsmann também montou uma verdadeira operação de guerra para tornar o time competitivo. Durante a preparação, Klinsmann escolheu 16 alunos da Universidade de Colônia para trabalhar na equipe. Cada um ficou responsável por uma seleção, e por dois anos o grupo levantou todas as informações possíveis sobre cada um dos competidores. “Quando o momento chegou, eu sabia para que lado cada jogador de cada equipe batia o pênalti. Foram eles que me disseram como cada jogador da Argentina batia pênalti, como cada um jogava”, contou ele.

O treinador levou a seleção alemã para períodos de treino na Sardenha, na Itália, e em Genebra, na Suíça, para afastá-la do estresse e do assédio. Mas pediu que a sede da seleção fosse em Berlim. “Queria que eles vissem a importância de uma Copa do Mundo”. Simbolismos e motivação acompanharam cada um de seus passos. Quando decidiu, ainda no início, que a Alemanha jogaria num 4-4-2, reuniu os jogadores numa noite e acendeu tochas, que eles fincaram no chão em um desenho que remetia ao padrão tático a ser seguido. “Eles eram lembrados, o tempo todo, do que significavam: eram uma equipe”.

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