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Felipe Massa: “Sou um cara de muita sorte”

Aos 35 anos, 15 temporadas, oito na Ferrari, em que conseguiu suas 11 vitórias, Massa dá adeus à F1 e só lamenta ter sido enganado por Nelsinho Piquet

Por Silvio Nascimento - Atualizado em 24 Nov 2016, 18h30 - Publicado em 24 Nov 2016, 18h19

O paulistano Felipe Massa larga pela última vez na Fórmula 1 neste domingo, no GP de Abu Dhabi. Será sua largada de número 250, ao longo de 15 anos a serviço da categoria. Além de Massa, que colecionou 11 vitórias, 41 pódios e 16 poles, e recebeu uma calorosa despedida da torcida e de toda a F1 no GP do Brasil, duas semanas atrás, também deixam as pistas as estatais Petrobras e Banco do Brasil. A companhia de petróleo tinha acordo com a Williams, equipe de Massa, e o banco era o principal patrocinador de Felipe Nasr, da Sauber, que agora tem mais riscos ainda de ficar fora do grid em 2017.

Massa decidiu pela retirada da F1 com calma, serenidade, e se preparou para o dia em que ficaria um pouco mais distante das altas dosagens de adrenalina a cada fim de semana de GP. Quer correr ainda em outra categoria, deve decidir entre WEC (provas de longa duração), DTM (campeonato alemão de turismo) ou a Fórmula E (monopostos que utilizam motores elétricos). Mas quer mais tempo para cuidar de seus investimentos, de sua imagem e em breve deve aparecer na tela da tevê – europeia – como comentarista. De sua residência em Mônaco, Massa fala um pouco do ciclo de sua vida que se encerra no domingo.

Em que momento teve a sensação de que havia realizado o sonho de ser piloto? Depois da minha primeira vitória, na Ferrari, no GP da Turquia em 2006. Ali tudo se materializou e tive a certeza de que minha carreira tinha estabilizado e de que poderia alcançar meus objetivos. E em seguida venci no Brasil… Aí então pensei: agora vai mesmo…

Qual foi seu pior momento na F1? Foram muitos, mas acho que o pior mesmo foi quando tive de deixar o Alonso me ultrapassar, na Alemanha, em 2010. (Massa liderava a corrida com sua Ferrari até que na volta 49 a equipe deu ordem cifrada para que deixasse o espanhol Fernando Alonso ultrapassá-lo para vencer. Massa chegou em segundo). Mas a minha maior tristeza foi saber que o Nelsinho Piquet tinha batido de propósito no GP de Cingapura de 2008 (provocando a entrada do safety car na pista, ajudando, assim, Alonso, da mesma equipe de Nelsinho, a Renault, a vencer a corrida). Foi algo completamente fora do esporte, ligado a dinheiro, brigas, sei lá, não importa. Foi muito ruim a sensação. Poderia ter chegado ao maior sonho de todos, ser campeão (Massa foi vice da temporada, apenas 1 ponto atrás do britânico Lewis Hamilton)

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E a maior alegria? Ah, foram muitas também, não posso negar. Sou um cara muito sortudo na vida, na carreira. Mas acho que foi quando não tinha mais dinheiro para correr na Fórmula Renault: ou ganhava ou encerrava. E ganhei dois campeonatos, foi emocionante. E depois mais alegrias: o primeiro treino na F1, a primeira corrida, os primeiros pontos, o primeiro pódio, até algumas corridas incríveis, mesmo sem vencer… O maior sonho realizado foi vencer em Interlagos. Nunca imaginei que conseguiria, no lugar onde cresci, em que torcia por Senna e Piquet.

O que te marcou no acidente nos treinos para o GP da Hungria, em 2009? Uma peça do carro do Rubens Barrichello se soltou e o atingiu na cabeça; você apagou e bateu na proteção… Foi incrível, algo difícil de acontecer de novo. De certa forma a parte boa é que não me lembro de nada do acidente, nem de quando acordei. Só lembro de estar me recuperando, depois da cirurgia, depois do coma. A parte chata foi a recuperação lenta, ficar longe do carro. Até poderia ter voltado antes, mas os médicos não deixaram. Enfim, foi grave, mas não era minha hora.

Seu plano A é correr, mas em outra categoria. E qual é o plano B? Quando não tiver mais essa paixão, paro de vez. Aliás, um dos motivos de sair da F1 é para ter  um pouco de tempo para fazer outras coisas, cuidar dos meus investimentos. Vou cuidar mais da minha imagem, tenho empresas que me patrocinam e estou conversando com outras, para representá-las. Vou a algumas corridas de F1 e talvez acerte um trabalho na televisão, com alguma emissora da Europa, não do Brasil.

 Você já imaginou apertar o cinto de segurança de seu filho num carro de corrida? Olha, acho que a maior aflição seria no kart e não nos carros. No kart, como ainda é criança, não tem noção nem experiência, pode capotar e sair voando, preocupa mais. Nos carros já teria mais idade, 16, 17 anos, e mais experiência. Mas ele tem de escolher o que quer fazer. No momento, aos 7 anos, ele é apaixonado por futebol, vive futebol o dia inteiro, acho que joga bem pela idade, e até o inscrevi na escolinha de futebol do Monaco. Ele joga no time principal, faz um monte de gols…

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Então quem sabe você pode ser empresário de um artilheiro? (Risos) Seria muito legal, eu iria feliz da vida para o estádio, só para me divertir, sem preocupação. 

Vai criar coragem e tirar da caixa a guitarra que ganhou do Eric Clapton? Por enquanto não, ela está escondidinha, bem guardada. Ele é um cara sensacional. Em toda corrida ele me escreve, deseja sorte. E depois das corridas me dá parabéns, me incentiva, me anima. Ele é demais.

Não foi frustrante terminar o GP do Brasil a pé? Para falar a verdade, não totalmente, foi uma sensação incrível, um momento que não imaginava viver. Tinha preparado algumas coisas para o fim de semana, como pegar uma bandeira do Brasil na curva S do Senna e dar a volta toda com ela. Gostaria de ter terminado a corrida, mas no fim tudo aconteceu de forma perfeita, apesar de ter ficado frustrado logo que bati. Foi indescritível o carinho da torcida quando comecei a andar para o box, todas as equipes do lado de fora me aplaudindo. Caramba, o automobilismo parou naqueles instantes para se despedir, foi uma grande homenagem, impossível descrever a sensação.

Você tinha dimensão do carinho da torcida? Agora tenho (risos). Mas sempre tive uma relação bacana com a torcida no Brasil, venci duas corridas em Interlagos, sou o brasileiro que mais subiu no pódio em São Paulo.

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Tem algum arrependimento? Algo que deveria ter feito na sua carreira? Nada. Sempre tive a sorte de ter feito muito mais do que imaginava. Nenhum arrependimento.

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