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‘Bombom’ Baiano relembra passado amargo e festeja presente doce

Com jogo marcado contra o Palmeiras, nesta quinta-feira, às 21h50, no Pacaembu, o experiente Baiano, atualmente no Paulista de Jundiaí, reencontrará um dos ex-clubes mais queridos de sua carreira. Antes do duelo, o jogador recebeu a reportagem da GE.Net e lembrou de momentos amargos, doces e engraçados de sua vida.

Cidade de Santos: relação de amor e ódio

Foi no litoral paulista onde Baiano obteve sua primeira grande oportunidade no futebol. Mas, até chegar ao profissional do time da Vila Belmiro e ganhar a confiança do técnico Vanderlei Luxemburgo, o jogador teve de encarar uma rotina azeda.

‘Eu sou de uma cidade de apenas 35 mil habitantes (Capim Grosso, distante 272 km de Salvador) e fui a Santos, com apenas 13 anos, dentro de um baú de caminhão em, mais ou menos, seis dias de viagem. Fui para trabalhar de camelô e entrei no infantil do Santos em 93. Eu trabalhava como camelô, jogava no Santos e estudava à noite. Essa foi minha rotina até meus 17 anos’, conta o atleta, que, desde o início, já demonstrou talento em bater na bola.

Tentativa de suicídio e recomeço

Quando as coisas estavam começando a entrar nos eixos, a vida de Baiano sofreu dois baques em menos de quatro meses. O jovem muambeiro da cidade de Santos ficou órfão, foi despejado sem aviso prévio, teve toda a mercadoria apreendida e, desiludido, se jogou na frente de um ônibus.

‘Em 95, eu perdi meu pai e, quatro meses depois, minha mãe também. Fui despejado no centro de Santos porque todo dinheiro que eu e meus cinco irmãos tínhamos foi destinado a pagar o enterro da nossa mãe, para ela não ser enterrada como indigente. Sem nenhuma perspectiva, decidi me jogar na frente de um ônibus’, admite.

Baiano sofreu apenas escoriações leves, se reergueu e apostou de vez no futebol. Candinho foi o primeiro técnico a levá-lo ao time de cima. Posteriormente, foi a confiança de Luxemburgo que o lateral direito/volante conquistou.As portas se abrem para Baiano: vaga no Santos e na seleção Pré-olímpica

‘Em 1996, eu subi para o profissional do Santos e em 2000, o Pré-Olímpico foi um marco. Defender a seleção brasileira com um treinador como o Vanderlei Luxemburgo, ser campeão invicto e o melhor lateral direito da competição foram feitos maravilhosos, principalmente por ser apenas cinco anos depois de eu ter tentado o suicídio’, enumera o jogador.

Em 2000, sob o comando de Luxemburgo, os meninos brasileiros do sub-23 (como Alex, Ronaldinho Gaúcho, Fábio Aurélio, entre outros) deram show no Pré-olímpico, sagraram-se campeões invictos (cinco vitórias e dois empates) e encheram o povo com a esperança de que o tão esperado ouro olímpico chegaria em Sydney, na Austrália. Oito meses depois porém, a equipe verde-amarela vacilou e perdeu, nas quartas de final, para Camarões por 2 a 1, na prorrogação – com dois homens a mais.

Para Baiano, os problemas extracampo de Luxa (acusação de alteração da idade e de sonegação de impostos) interferiram, contudo, os principais culpados foram os próprios jogadores.

‘No Pré-Olímpico, era o Ronaldinho iniciando no Grêmio, era o Alex que tinha ido do Coritiba ao Palmeiras. Então, todo mundo estava buscando o seu espaço. Após a competição, o Ronaldinho tinha ido para o Paris Saint-Germain, o Alex para o Parma, o Fábio Aurélio para o Valencia, eu e o Álvaro para o Las Palmas, o Fábio Junior para a Roma. A cabeça já era diferente: ‘Ah! Agora eu estou na Europa’. O grande adversário do Brasil fomos nós mesmos. Os problemas do Luxa complicaram, mas não foram os fatores predominantes. O erro foi nosso de ter achado que iríamos fazer o gol a qualquer momento. Perdemos para nossa soberba e para o nosso próprio orgulho’, argumenta.

Na época, o técnico Luxemburgo optou por não levar jogadores acima dos 23 anos. O povo brasileiro fez ‘lobby’ por Romário, Rivaldo e Dida, mas não foi atendido.Baiano faz torcida do Palmeiras esquecer, por um momento, Arce

Em 2003, após sua primeira aventura na Europa (Las Palmas, da Espanha), o Palmeiras, então na Série B, repatriou Baiano para substituir Alessandro (hoje no Corinthians e que acertara sua ida ao Dínamo de Kiev, da Ucrânia). Polivalente, aguerrido e decisivo nas bolas paradas, Baiano conquistou o torcedor palmeirense e foi, disparado, o lateral que mais se firmou na posição após a ‘era Arce’. O reconhecimento é comprovado, pois, em 2005, após passar pelo Boca Juniors, o Verdão o trouxe de volta.

‘Eu cheguei ao Palmeiras quando a torcida estava apaixonada pelo time e cada jogo no Palestra Itália era uma festa. Minha passagem no Palmeiras foi marcante, a torcida não gritou o nome do Arce, o que, para mim, foi fundamental e maravilhoso. Então, acho que pude substituí-lo bem. Junto do Santos e do Paulista, o Verdão é o time que eu tenho mais carinho’, sorri.

Na Argentina, o ‘bombom’ ficou amargo

Após os dois anos de Palmeiras, Baiano foi contratado pelo Boca Juniors em 2005, ano de centenário do clube xeneíze. O carisma e o empenho dentro de campo transformaram-no rapidamente em xodó da fanática torcida. No entanto, após o episódio de racismo sofrido pelo são-paulino Grafite, na Libertadores do mesmo ano, sua permanência em Buenos Aires ficou insustentável. Até os próprios jogadores do Boca, como o atacante Guillermo Barros Schelotto e o goleiro Abondanzzieri, ofenderam-no e estimularam-no a voltar ao Brasil.’Na Argentina foi maravilhoso até o episódio do Grafite com o Desábato (ex-zagueiro do Quilmes e que ficou preso em São Paulo por dois dias por ofensas racistas). Em três meses, eu conquistei a torcida, era apelidado de Bombom, de Café, de Negritude Areia – porque jogava futevôlei com o Palermo – e estava bem na Libertadores. Mas, à época do episodio do Grafite, eu era o único negro, no momento, jogando na Argentina. Era centenário do Boca e me vi numa sala com 100 jornalistas me pressionado e querendo saber como era o meu tratamento’, afirma Baiano, que decidiu rescindir seu contrato. Segundo ele, o estopim foi uma cusparada no rosto recebida por um argentino do Instituto de Córdoba(clube que atualmente disputa a segunda divisão).

Quase seis anos depois, Baiano confidencia que não guarda mágoas do que sofreu e enaltece o carinho recebido pela torcida do Boca. Mas, ao pegar o alfajor, um doce típico da ‘terra do tango’, deixa escapar, em tom de brincadeira, um ‘é para você, Abbondanzieri’.

Chute no Tevez: ‘Joguei tudo de ruim para fora’

Semanas depois de deixar La Bombonera, Baiano viu o recente filme passar pela sua cabeça. A partida era entre Palmeiras e Corinthians, na época do argentino Tevez. De cabeça quente, o lateral não aguentou a provocação do argentino e acabou lhe dando uma bolada, que lhe rendeu um cartão vermelho.

‘Era muito recente. Eu tinha acabado de voltar e justo no meu segundo jogo foi Palmeiras e Corinthians. Nós estávamos vencendo o jogo e o Tevez me provocando. Mas como eu estava ganhando, eu estava tranquilo. Aí, eles viraram em dez minutos e o Tevez me irritando, me perguntando por que eu abandonei o Boca Juniors e, naquele momento de pressão, peguei a bola e, para não agredir ele, eu dei aquele chute para jogar tudo de ruim que eu estava sentindo’, recorda.

Jundiaí se apaixona por Baiano ‘à primeira mordida’

Baiano coleciona peripécias pelo mundo

Baiano reencontra amigo Marcos Assunção nesta quinta

Em 2010, o Paulista de Jundiaí apostou no bom e velho Baiano, que estava no ostracismo no Atlético Nacional, da Colômbia. O objetivo inicial de conquistar uma vaga na Série D Nacional não foi alcançado, mas, pelo menos, o time interiorano ganhou mais um ídolo – que, após ser rebaixado pelo Guarani no segundo semestre, retomou o posto de capitão nesta temporada.

‘Foi uma coisa inédita, tirando o Boca, na questão de ser bem acolhido em tão pouco tempo. Um dos fatos que me fizeram voltar foi o carinho da cidade em relação à minha pessoa’, afirma.

Baiano brinca que sempre jogou com ídolos nos clubes grandes e sempre sonhou em gozar de tal prestígio. Acabou sendo no Galo do Japi que o lateral pôde desfrutar do assédio das pessoas nas ruas.

‘Eu sempre joguei com muitos ídolos reconhecidos que saíam nas ruas e a torcida pedia autógrafo. E, hoje, apesar dos 32 anos, eu vivo isso aqui em Jundiaí’. No Paulistão do ano passado, Baiano marcou um golaço do meio do campo do Estádio Jayme Cintra, contra o Grêmio Prudente, e ganhou, inclusive, uma placa.

O ex-jogador Fernando Diniz, técnico do Paulista, exalta a importância de Baiano para o time (que está invicto no Paulista 2011 com duas vitórias e um empate). ‘Ele é uma cara querido e tem uma importância enorme. Em pouco tempo virou ídolo da cidade porque se atribuiu muito a ele o fato de não ter sido rebaixado no ano passado. É um jogador muito experiente, é decisivo nas bolas paradas e tem uma liderança positiva’, enaltece.

Rindo à toa

Por tudo que passou, Dermival de Almeida Lima não esconde a satisfação de poder fazer coisas simples, das quais era privado no período em que vendia muambas no litoral paulista.

‘Hoje eu tenho a convicção que Deus me deu muito mais que eu mereço. E sou feliz pelo que eu faço, por ter uma família estruturada, por ter aberto lojas para meus irmãos em Santos. Tenho muito mais que eu sonhei. Hoje, eu quero ir a um restaurante legal e tenho condições de pagar. O que é diferente da minha infância, em que eu passava em frente a uma vitrine, via um doce e meu bolso estava furado. São pequenas coisas que me fazem feliz e que me incentivam a continuar correr, mesmo com 32 anos, até as pernas deixarem’, desabafa.

‘O futebol realizou todos os meus sonhos e muito mais. Nunca sonhei em disputar Olimpíadas e em sair do país. No máximo, eu pensava em jogar no Bahia ou no Vitória’, termina, como sempre, mostrando os dentes desavergonhadamente.