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‘Sete Homens e Um Destino’ abre Toronto sem inspiração

Faroeste de Antoine Fuqua com Chris Pratt e Denzel Washington define mal seus muitos personagens e apela para cena de ação interminável e sem emoção

Os festivais costumam selecionar para sua abertura filmes “para cima”, sem polêmica, que deixem a plateia de bom humor para o resto da seleção – não à toa, Woody Allen inaugurou Cannes três vezes. Com um pouco de boa vontade, até dá para entender por que Sete Homens e Um Destino, de Antoine Fuqua, foi escolhido para a função no Festival de Toronto, que começou nesta quinta-feira na cidade canadense. É uma repaginação de dois clássicos – Os Sete Samurais (1954), de Akira Kurosawa, e sua refilmagem hollywoodiana, também chamada Sete Homens e Um Destino, em 1960, dirigida por John Sturges. Tem um elenco estrelado, encabeçado por Denzel Washington e Chris Pratt. Conta até com alguns momentos de graça, mas, em geral, o resultado é tão decepcionante quanto o dos longas de abertura dos anos anteriores, O Juiz e Demolição.

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No filme, que tem estreia marcada para o próximo dia 22 no Brasil, Denzel Washington é Chisolm, o caçador de recompensas contatado por Emma (Haley Bennett) para vingar a morte de seu marido (Matt Bomer, em papel pequeno) pelas mãos do bando de Bogue (Peter Sarsgaard), que saqueou a cidade e quer expulsar os fazendeiros da região. Egoísta como quase todo homem do Velho Oeste (ou dos filmes sobre o Velho Oeste), ele topa a empreitada, por motivos evidentes desde o primeiro instante. Aos poucos, reúne seu time: do falastrão Josh Faraday (Chris Pratt) ao lendário Goodnight Robicheaux (Ethan Hawke) e seu parceiro especialista em facas Billy Rocks (Byung-hun Lee), passando por Jack Horne (Vincent D’Onofrio), Vasquez (Manuel Garcia-Rulfo) e Red Harvest (Martin Sensmeier). O grupo parece um pouco aquelas propagandas antigas “United Colors of Benetton” – tem branco, negro, indígena, latino e asiático, um pouco como os Estados Unidos de hoje.

A intenção é boa, de modernização, de colocar um negro como protagonista de um western, apesar de ser uma coisa que, claro, já foi feita antes – mais recentemente, por Quentin Tarantino em Django Livre. Sete Homens e Um Destino poderia fazer a ponte entre a formação dos Estados Unidos e os debates sobre inclusão que ainda existem hoje. Mas nada disso aparece no roteiro pouco inspirado de Richard Wenk e Nic Pizzolatto (da série True Detective). Fuqua, diretor do bom Dia de Treinamento, que rendeu a Washington o Oscar de melhor ator, pena para dar personalidade a cada um de seus personagens – Vasquez, papel que era para ser do brasileiro Wagner Moura, que saiu da produção por conflitos de agenda com a série Narcos, é mal desenvolvido e beira a caricatura. O cineasta também cai no mesmo vício de tantas superproduções ao se apoiar demais nas cenas de ação intermináveis marcadas por muitas explosões – é como O Homem de Aço, só que sem o sujeito de capa vermelha voando. Essa combinação de fatores faz com que fique difícil de se importar com o que está acontecendo na tela, apesar do carisma de Chris Pratt e do talento de Denzel Washington.