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Segunda temporada de ‘Narcos’ aprofunda debate moral

Produção do brasileiro José Padilha para a Netflix estreia na sexta-feira

Por Marcelo Marthe - Atualizado em 31 ago 2016, 19h52 - Publicado em 31 ago 2016, 19h51

No banheiro do aeroporto de Bogotá, o agente Steve Murphy (Boyd Holbrook) lava o rosto energicamente. É uma tentativa mecânica — e vã — de amenizar o stress resultante de sua missão ingrata: a caçada ao mais célebre traficante de drogas de todos os tempos, Pablo Escobar. No início da segunda temporada de Narcos, que estreia na sexta-feira, a produção do brasileiro José Padilha para a Netflix retoma a ação do exato ponto em que a trama parou, no ano passado. Depois de fugir da penitenciária em que levava uma vida de preso ostentação, Escobar ressurge como um criminoso triunfante na impunidade, mas encurralado. Vivido por um Wagner Moura ainda mais pançudo, o traficante reage ao cerco elevando o patamar de ferocidade da guerra contra o governo colombiano e a DEA, a agência americana de combate às drogas, para a qual Murphy trabalha. Assustada, a mulher do agente decide ir embora do país, levando consigo o bebê do casal. Enquanto está no banheiro, eis que Murphy vê um executivo americano passando seu papelote de cocaína a um colega. Não era boa hora para cutucar a fera. Murphy informa o sujeito de que ao menos seis pessoas foram assassinadas até que aquele papelote chegasse às suas narinas. E o espanca com fúria.

A cena tem uma ponta de déjà-vu: remete aos arroubos do Capitão Nascimento, de Tropa de Elite, diante de jovens de classe média que compravam drogas de traficantes. Pode-se enxergar aí um cacoete do cineasta. Mais justo, porém, é ver a cena como uma reiteração das convicções de Padilha sobre as raízes da violência. Como ele mostrou nos dois Tropa de Elite, combater o tráfico exige romper com a hipocrisia. O oxigênio que nutre essa indústria vem, em última instância, dos consumidores — no caso de Narcos, os americanos que curtiam baladas em Nova York e Miami entre os anos 70 e 90. Não se tem uma visão completa do problema quando se olha apenas para o lado da oferta, e não da demanda.

A segunda temporada de Narcos recorre a outro expediente de Tropa de Elite 2: para manter a tensão de uma história que extrai parte de sua força da decupagem crua da violência, redobra-se a brutalidade. O momento da vida colombiana retratado na série enseja esse recrudescimento da artilharia: entre a fuga da prisão (quase um spa particular) conhecida como La Catedral, em julho de 1992, e a execução ao ser perseguido sobre um telhado, em dezembro de 1993, Escobar provocou um banho de sangue.

Narcos 2 também escancara, de forma ainda mais contrastante que na temporada inicial, um dado perturbador sobre o traficante. Em Escobar, a monstruosidade convivia com o pai zeloso e o amado líder comunitário. Ele é capaz de ordenar assassinatos com frieza enquanto demonstra afeição pelos entes de sua família — fossem estes parentes de sangue ou capangas. Com o simples ato de ajeitar a cintura da calça sob a barriga, aliás, Wagner Moura fornece a mímica acabada do facínora. Em entrevista ao talk show do americano Jimmy Kimmel, na semana passada, o ator revelou que emagreceu quase 20 quilos e encarou uma dieta vegana para se livrar da “energia” do personagem.

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A morte de Escobar é daqueles desenlaces que dispensam alertas contra spoilers. Mas o sumiço do vilão não será necessariamente o epitáfio da série. “Narcos não foi concebida para ser uma biografia de Escobar. É sobre a história da indústria das drogas. E há muito para contar”, disse a VEJA o americano Ted Sarandos, chefão de conteúdo da Netflix, deixando portas abertas para uma terceira temporada (ainda a se confirmar).

De qualquer maneira, a série apresenta ao espectador um vislumbre do que seria o mundo pós-Escobar. Como ocorreu na Colômbia real, o vácuo deixado pela derrocada dele e de seu poderoso cartel de Medellín foi preenchido de imediato pelos concorrentes do cartel de outra cidade, Cali. Seus rivais eram iguais na violência, mas bem distintos na forma: em vez de exibirem a estampa de negociante que veio de baixo, os sócios do novo cartel mostravam-­se como banqueiros educados.

O crescimento de inimigos ávidos por rapinar o espólio de Escobar reitera a advertência sempre brandida por Padilha: se há quem compre cocaína, não faltarão novas encarnações de Escobar. O que torna, para além de ilusório, perigosíssimo o caminho tomado pelos heróis de Narcos 2. Na primeira temporada, Steve Murphy e seu colega Javier Peña (Pedro Pascal), ambos inspirados em agentes reais da DEA, viam-se num dilema: até que ponto seria lícito usar da brutalidade contra a brutalidade? Agora, o debate moral se aprofunda. O personagem do chileno Pascal — o príncipe Oberyn de Game of Thrones — cede à tentação de se aproximar dos criminosos rivais e de guerrilheiros de extrema direita que também desejam o fim do traficante. “É muito instrutivo saber as conse­quên­cias do que Peña faz”, diz Pascal. A história, não só a colombiana, ensina quanto é temerário tomar atalhos tortos em nome de boas causas. Daí pode vir um mal maior.

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