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Premiado em Sundance, ‘Que Horas Ela Volta?’ chama atenção em Berlim

Cineasta Anna Muylaert fala ao site de VEJA sobre o filme: 'Tenho o sonho de que esse filme chegue às empregadas'

A classe média sempre foi um dos assuntos da diretora paulistana Anna Muylaert. Numa época em que muitos filmes brasileiros voltavam-se para o sertão e a favela, a cineasta paulistana lançou Durval Discos (2002). Depois faria É Proibido Fumar (2009) e Chamada a Cobrar (2012). No Festival de Berlim, ela apresenta seu quarto longa-metragem, Que Horas Ela Volta?, na seção Panorama. O filme vem de exibições bem-sucedidas na competição mundial do Sundance Festival, de onde saiu com um prêmio especial para as ótimas atrizes Regina Casé e Camila Márdila.

As duas interpretam Val e Jéssica, respectivamente, mãe e filha que não se veem há dez anos – Val trabalha na casa de Dona Bárbara (Karine Teles), Seu Carlos (Lourenço Mutarelli) e Fabinho (Michel Joelsas) em São Paulo, e Jéssica foi criada em Pernambuco pelo pai. Ela chega a São Paulo de repente, bagunçando o delicado equilíbrio da casa. Fabinho, por sua vez, praticamente foi criado por Val, já que a mãe sempre está trabalhando. Jéssica tem uma mentalidade e uma perspectiva diferentes da mãe: vai prestar vestibular para arquitetura, instala-se no quarto de hóspedes em vez do quarto de empregada de Val e nunca hesita em aceitar aquilo que lhe é oferecido, do sorvete fino a um banho na piscina. As relações complicadas entre a classe média e seus empregados e as mudanças no Brasil são algumas das questões levantadas pelo longa, exibido em sessão para o público do festival na noite do domingo. Anna Muylaert falou ao site de VEJA:

A classe média é tema de seus filmes desde uma época em que não estava em voga falar sobre isso. Que Horas Ela Volta? trata dos conflitos e dos afetos em uma casa de classe média. Como surgiu essa ideia? Esse filme começou quando meu filho nasceu. Hoje ele tem 20 anos. Queria falar da relação mãe e empregada-babá e da relação patroa-empregada. O primeiro roteiro era meio um realismo fantástico, essa empregada era mãe de santo na favela, tinha uma tentativa de valorização da cultura popular. Mas era difícil de dirigir. Quando o roteiro ficou pronto, desisti, não tinha condições. Fui fazer Durval Discos, que era um filme bem menor comparado a este. Mexi no roteiro, a história ficou mais realista. Mas É Proibido Fumar, que eu estava escrevendo junto, deu certo antes. Finalmente resolvi fazer este. Essa relação de empregada-babá e criança sempre foi algo que achei paradoxal, louco, forte, mas também tive dificuldade de achar a forma certa de falar sobre isso.

Essa realidade de ter uma pessoa em casa é comum no Brasil. Viveu isso? Quando meu filho nasceu, era o esperado para mim. Terminei o Castelo Rá-Tim-Bum gravidona. Me chamaram para outro projeto e eu disse que ia parar de trabalhar. Minha chefe na TV Cultura falou que eu não ia aguentar três meses em casa. Mas estava decidida a ficar quanto tempo quisesse, porque não ia ter filho toda hora. Sentia aquilo como um momento muito precioso para mim. Nunca tive babá. Depois comecei a ter empregada, voltei a trabalhar quando ele tinha 1 ano, no SBT. Era muito ciumenta para ter babá. E queria fazer eu mesma. Achava e ainda acho que, quando você tem filho, quanto mais fralda você trocar, mais vai crescer. Era uma coisa espiritual. E a figura da babá me impediria disso. Também estaria reproduzindo uma coisa que não acho certa. Cheguei a ter uma empregada que tinha um filho na Bahia, com a mesma idade do meu. Falei que não aceitava, que ela tinha de trazer o filho. Ela não trouxe, então foi embora. Nunca achei certo esse desarranjo de cadeiras, sabe? É uma questão muito problemática para a mãe que não cuida do filho, para a empregada que está longe do seu, acaba todo mundo perdendo.

Acho interessante a dinâmica deste filme porque a filha tem outra cabeça, diferente da mãe. Ela não tem esse código de regras. Esse foi o aspecto mais difícil de desenvolver. Cheguei a isso seis meses antes de filmar. Porque de início a Jessica era um clichê, uma coitadinha que ia ser cabeleireira, depois virava babá. Um consultor de roteiros de Sundance me disse que era legal eu ser alguém da classe alta preocupada com questões sociais, mas que, se eu fosse filha de empregada, ia arrumar um final mais otimista. Passei um tempo pensando em como resolver. Não queria também fazer final feliz. Nesse meio tempo ainda teve a novela das empreguetes [Cheias de Charme], a Regina ficou preocupada de derrubar o filme. Para eu chegar a essa visão de que a Jessica viria não para se tornar cabeleireira, mas para estudar na USP, foi uma luta, por querer sair do clichê. Quando entendi que aquele era o filme, fiquei segura.

E como pensou o visual? Até a filha chegar, a câmera está sempre na cozinha. Tendo eu nascido do lado da sala, demorei 18 anos para tirar a narrativa e a câmera da sala para a cozinha e vir da cozinha para a sala. Foi um esforço muito grande para chegar. E nesse período, também, o Brasil mudou. A Jéssica é uma personagem possível hoje.

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Como escolheu a Regina Casé e a Camila Márdila? Sempre quis a Regina. Tinha de ser ela, sou fã dela como atriz. Ela também sempre quis fazer. Regina é superinteligente, dá ideias. Insistiu para eu ler Joaquim Nabuco, por exemplo. Desde o início, ela disse que ia fazer, mesmo com a agenda maluca. Tanto que adotou o Roque em outubro e foi fazer o filme em janeiro, um grande sacrifício. Regina entendia que aquela personagem era para ela. E era. Minha produtora de casting viu a Camila no teatro. No início resisti porque achei que ela não era muito nordestina, depois me convenceram de que isso também era um clichê. E foi uma bênção, porque é desconhecida.

O que você acha que a passagem por Sundance e a premiação para as atrizes lá significou? Contribuiu bastante para a divulgação no Brasil. No mundo também. Tenho o sonho de que esse filme chegue às empregadas, chegue à outra classe. Que chegue a quem não está acostumado a se ver assim. No Brasil, as pessoas sabem que o filme já existe, desde que foi anunciado esse prêmio no Fantástico. Para a gente foi bom. Chegando aqui à Berlinale a partir de um prêmio, chamou a atenção para o filme.

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‘Nadie Quiere La Noche’

Nascida em Barcelona, Isabel Coixet vai à Groenlândia para contar a história de Josephine (Juliette Binoche), mulher de um explorador do Ártico que parte para as terras geladas e acaba descobrindo afinidades com Allaka (Rinko Kikuchi), uma mulher inuit. O longa, que está em competição, abre o 65º Festival de Berlim.

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, 'Táxi' Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’

Jafar Panahi conduz pessoas pelas ruas de Teerã em seu novo filme, ‘Táxi’ (/)


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‘Life’

O holandês Anton Corbijn fotografou alguns dos maiores nomes da música, como David Bowie, Bob Dylan, Bruce Springsteen e Miles Davis e teve uma longa colaboração com o U2. Seu filme de estreia, Control, falava sobre o líder do Joy Division, Ian Curtis. Seu quarto longa, Life, mostra a relação entre o fotógrafo Dennis Stock e James Dean.

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‘Knight of Cups’

Em 41 anos, Terrence Malick lançou apenas sete longas-metragens. Mas ele deu uma acelerada nos últimos tempos, estreando A Árvore da Vida em 2011, Amor Pleno em 2012 e agora Knight of Cups, sobre um ator de Hollywood (Christian Bale) à procura de significado na vida. Natalie Portman e Cate Blanchett também estão no elenco. 

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‘Que Horas Ela Volta?’

Diretora de Durval Discos (2002), É Proibido Fumar (2009) e Chamada a Cobrar (2012), a paulistana Anna Muylaert foca seu novo filme em Val (Regina Casé), empregada faz anos de uma mesma família. Sua filha Jéssica (Camila Márdila), com quem não se encontra há uma década, aparece de repente, alterando o delicado equilíbrio da casa.

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‘Everything Will Be Fine’

Numa noite de inverno, Tomas (James Franco) não consegue frear seu carro a tempo e acaba pegando Christopher e seu irmão, filhos de Kate (Charlotte Gainsbourg). Anos mais tarde, Christopher (Robert Naylor) resolve procurar o homem que transformou sua vida para sempre. O alemão Wim Wenders filmou essa história de culpa e perdão em 3D.

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‘Cinquenta Tons de Cinza’

A adaptação do best-seller de E. L. James finalmente chega aos cinemas depois de alguns percalços, como a troca do ator principal. Dakota Johnson é Anastasia Steele, a estudante ingênua que cai nas garras do milionário Christian Grey (Jamie Dornan), chegado em umas práticas sadomasoquistas. O filme é dirigido por Sam Taylor-Johnson, de O Garoto de Liverpool.